Morre Jomard Muniz de Britto, poeta, filósofo e cineasta pernambucano, aos 89 anos
Diretor e autor, Jomard Muniz de Britto é conhecido por seu trabalho em obras como ‘O Palhaço Degolado' e ‘Inventário de um Feudalismo Cultural’.
Publicado: 12/10/2026 às 09:19
Jomard Muniz de Britto (Annaclarice Almeida/DP/D.A Press)
Faleceu, na madrugada desta segunda-feira (12), o poeta, filósofo e cineasta pernambucano Jomard Muniz de Britto, aos 89 anos.
Jomard Muniz de Britto nasceu em 8 de abril de 1937, no bairro de São José, no Recife. O diretor e autor é conhecido por seu trabalho em obras como ‘O Palhaço Degolado' e ‘Inventário de um Feudalismo Cultural’.
O velório de Jomard Muniz de Britto será realizado a partir das 10h, na capela do Cemitério de Santo Amaro, no Centro do Recife. O enterro está marcado para às 16h.
Filho da pernambucana Maria Celeste Amorim, Jomard era o primogênito e o único vivo entre cinco irmãos. Estudou estética com Ariano Suassuna, com quem posteriormente teve divergências intelectuais, e, ao longo da carreira, lecionou disciplinas como introdução à filosofia, teoria do conhecimento e estética.
No início dos anos 1960, se aproximou do cineasta baiano Glauber Rocha, que o convidou para passar uma temporada em Salvador. À Glauber, Jomard atribuía o despertar de seu interesse pela realização cultural.
Em Pernambuco, passou a se destacar pela circulação entre diferentes áreas, como filosofia, cinema, literatura e música, além de desenvolver atividades como agitador cultural no estado.
Jomard integrou a equipe do Serviço de Extensão da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a convite do educador Paulo Freire. Em maio de 1964, após o golpe militar, integrantes do grupo receberam rumores de que estavam na mira dos militares e de que ocorreriam prisões.
Naquele mesmo ano, Jomard foi preso e encaminhado ao Forte das Cinco Pontas, onde dividiu cela com o político Gregório Bezerra durante cerca de 20 dias. Aposentou-se precocemente da UFPE, onde atuava como professor, mas continuou dando aulas e palestras em cidades como Campina Grande e João Pessoa, na Paraíba.
Jomard é apontado como um dos precursores do tropicalismo em Pernambuco e participou da definição de algumas das bases do movimento. Em 1968, assinou, ao lado do músico Aristides Guimarães e do jornalista Celso Marconi, o primeiro manifesto tropicalista. Seu trabalho também impactou artistas como Caetano Veloso e Gilberto Gil.
Por ordem do comandante da região militar, Jomard foi legalmente impedido de lecionar na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) a partir de 1969. A medida ocorreu após a perseguição iniciada durante a ditadura militar, relacionada à sua atuação acadêmica e à proximidade com Paulo Freire.
Nas décadas de 1970 e 1980, o pernambucano desenvolveu sua carreira como realizador cinematográfico, sobretudo como diretor de filmes em super-8. Entre 1976 e 1977, produziu o filme ‘O Palhaço Degolado', que se tornou sua obra cinematográfica mais conhecida.
Com 13 minutos de duração, a produção mostra Jomard caracterizado de palhaço, caminhando pela antiga Casa de Detenção, atual Casa da Cultura, no bairro de Santo Antônio, no Recife.
Durante o monólogo, o personagem provoca referências consagradas da cultura regional, especialmente Gilberto Freyre e Ariano Suassuna.
Segundo o historiador Aristides Oliveira, o filme expressa a angústia de Jomard diante da incompletude e das restrições impostas às práticas culturais, em um contexto marcado pelos efeitos do golpe de 1964.
‘O Palhaço Degolado’ recebeu o prêmio de Melhor Filme sobre o Homem e o Nordeste, no Festival de Cinema Super 8. Também foi exibido no Festival Nacional do Filme Super-8 e na Mostra Marginália 70, em São Paulo.
Em 2017, em comemoração ao aniversário de 80 anos de Jomard, foi lançada a biografia ‘Jomard Muniz de Britto: Professor em transe', escrita pela jornalista Fabiana Moraes e pelo historiador Aristides Oliveira.
Oito anos depois, em novembro de 2025, Jomard teve seus filmes remasterizados e exibidos pelo 16º Janela Internacional de Cinema do Recife, festival fundado e idealizado por Kleber Mendonça Filho. O curador audiovisual Moacir dos Anjos também esteve presente.
Entre as obras exibidas, estavam Jogos Labiais Libidinais (1979), Inventário de um Feudalismo Cultural (1978, 12’), Alto Nível Baixo (1977, 6’), Discurso Classe Média (1977, 4’), Palhaço Degolado (1976, 13’).