Destaque no Festival do Rio, filme pernambucano 'Cão sem Plumas' une teatro, dança e audiovisual
Documentário de Camila Valença reúne registros feitos durante a produção de imagens comandadas por Cláudio Assis em 2016 para o espetáculo homônimo de Debora Colker
A junção da dança, do teatro, do cinema e do próprio olhar externo a essas artes gerou um resultado peculiar no filme "Cão sem Plumas". Com direção assinada por Camila Valença, o longa pernambucano teve sua estreia em competição na Premiere Brasil do 28º Festival do Rio, trazendo ao público desse evento internacional do audiovisual uma jornada poética pela obra de João Cabral de Melo Neto.
O documentário acompanha a trajetória da bailarina e coreógrafa carioca Deborah Colker, que se uniu ao cineasta pernambucano Cláudio Assis, em 2016, para uma viagem pelo estado, a fim de gravar imagens que seriam usadas em seu espetáculo ("Cão sem Plumas"). A pesquisa partiu da indagação da artista diante do poema clássico, publicado em 1950, e o projeto começou a ganhar vida quando ela e uma trupe de 50 pessoas viajaram pelo estado ministrando oficinas, apresentando peças, encontrando artistas populares e observando saraus de alunos.
Em conversa com o Diario, Camila Valença explica que, na época em que viajou com a equipe, sua intenção principal era fazer registros dessas filmagens. "Fizemos várias pesquisas, algumas com Lirinha, algumas com o próprio Cláudio. Levei eles no Rio Bituri e Deborah ficou encantada", conta a diretora. "Eles decidiram fazer todo esse percurso do rio e a própria geografia foi guiando a pesquisa. Mas os nossos registros foram feitos muito na guerrilha".
O projeto ficou quase uma década parado, mas era originalmente planejado como um desdobramento daquele momento de residência artística. O resultado é tanto um filme do filme quanto um ensaio poético que cruza linguagens e resgata a força dos versos de João Cabral. "A gente filmou o processo deles dois e também focamos na passagem deles por Pernambuco de modo geral. Atravessamos uma pandemia e várias dificuldades no processo de captação. Mas finalmente o filme ganhou vida", explica Camila.
A cineasta reforça ainda o poder do audiovisual pernambucano de unir diferentes formatos para criar algo novo. Para ela, isso ocorre de maneira muito mais instintiva do que racional. "Nosso filme junta a ousadia da fotografia de Cláudio Assis com a audácia tão orgânica da coreografia de Deborah. Vejo essa junção como algo que surge naturalmente. João Cabral era pernambucano, falava do Rio, falava do Recife. Foi um balé de todas essas manifestações essenciais para nossa identidade", exalta. "Temos uma matriz riquíssima para a construção desse resultado".
*O repórter viajou a convite do Festival do Rio.