Instalação que ressalta força artística e social do crochê coletivo ocupa a Caixa Cultural Recife
Instalação "A Casa de Todos" chega ao Recife com estrutura de crochê produzida coletivamente, contações de histórias e atividades voltadas à valorização das artes manuais
O crochê exige uma coisa que parece cada vez mais rara no cotidiano: tempo. Ponto a ponto, a técnica depende de uma construção que não acontece na velocidade de um clique. A artista visual Leila Alberti leva essa experiência para a instalação coletiva “A Casa de Todos”, que entra em cartaz na CAIXA Cultural Recife a partir desta quinta-feira (1º), às 18h, em sessão para convidados.
Com visitação gratuita a partir desta sexta-feira (2) até o dia 25, o projeto ocupa o espaço com uma estrutura de 9 m² e 2,7 metros de altura, totalmente revestida por uma trama de peças de crochê confeccionadas por artistas e artesãs da ONG Lucianas e Marias (PR).
A intenção, segundo Leila, é criar um espaço de acolhimento, conforto e liberdade, semelhante ao sentimento de proteção e pertencimento associado a uma casa. “É um projeto que eu chamo de arte social”, resume a paranaense em entrevista ao Diario. Diferentes formas de fazer crochê compõem a instalação, com peças antigas, obras de construção matemática, criações livres e intervenções feitas pela própria artista.
A reunião dos trabalhos contou com muitas mãos e traduz a proposta de valorizar as manualidades como parte da identidade cultural. “Esses crochês são variados, assim como toda a nossa composição social. Somos pessoas diferentes, vivemos uma mesma realidade, mas cada um tem a sua identidade”, afirma.
Nesse sentido, estão programadas oito oficinas gratuitas, voltadas para maiores de 16 anos, entre os dias 2 e 24 de outubro. Com inscrições no site da CAIXA Cultural Recife, as atividades propõem um encontro entre tradição e contemporaneidade por meio do crochê mais tradicional ao crochê brincante, passando por bordado, tecelagem, macramê, esculturas e outras possibilidades de criação.
Entre os destaques está o artista Rafael Codognoto, que apresenta esculturas produzidas a partir da compactação e ressignificação de roupas. “É uma linguagem muito boa para produzir coisas novas. Esses encontros proporcionam isso. O universo masculino também traz ideias diferentes, e isso é muito bom”, ressalta Leila. A programação do projeto contempla ainda contações de histórias infanto-juvenis, que acontecem aos sábados, abertas ao público visitante, com intérprete de Libras.
Em meio ao fluxo constante de conteúdos e estímulos, o crochê convida a um ritmo mais lento. Segundo a idealizadora, o caráter coletivo do fazer manual em “A Casa de Todos” cria uma dinâmica de convivência que contrasta com a pressa e o isolamento tão presentes na rotina.
“Não se trata apenas de fazer artesanato ou arte manual. É entender que não podemos projetar nossa vida em um universo que nos afaste da natureza e das pessoas. Precisamos resgatar um pouco a maneira de viver em contato com o outro, valorizar novamente a convivência, o aprendizado e os momentos de troca”, aponta.
Leila também destaca o potencial do crochê para estimular a interação e oferecer uma forma de companhia para quem vive momentos de solidão. “É maravilhoso. Posso dizer que é até uma espécie de meditação, a partir do momento em que você passa pela primeira etapa e começa a criar, sem ficar tão preso às receitas”, avalia. “
Toda matéria têxtil é muito afetuosa. Há uma ligação com memórias de vida, de pessoas e de acolhimento. Afinal de contas, o têxtil é algo que nos abraça desde o momento em que nascemos”, completa a artista.
Outro momento especial será o encontro com as mulheres do Coletivo Quilombo de São Lourenço, comunidade localizada em Goiana, na Zona da Mata Norte de Pernambuco. Marisqueiras e artesãs, as integrantes transformam saberes, materiais e referências do cotidiano da comunidade em acessórios e peças artesanais. Conchas, redes de pesca e outros elementos ligados à vida local ganham novas formas, cores e significados nas criações.
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