Cláudia Raia resgata pioneirismo de Tarsila do Amaral em musical no Recife: "Uma mulher livre"
Atriz produz e estrela espetáculo 'Tarsila, A Brasileira' no Teatro Guararapes em cinco sessões entre o dia 1º e 4 de outubro ao lado de Jarbas Homem de Mello e grande elenco
O imaginário visual e a trajetória de vida de uma das maiores artistas da história brasileira encontram no teatro musical uma forma única de expressão e, por que não, de libertação. Em “Tarsila, a Brasileira”, que chega ao Teatro Guararapes em cinco sessões, entre esta quinta-feira (1º) e o domingo (4), Cláudia Raia encarna as cores e dimensões complexas de Tarsila do Amaral.
O espetáculo revela muito mais do que a criação do quadro icônico “Abaporu” (1928) e promete mergulhar o público pernambucano no Modernismo (1922-1960), uma das mais revolucionárias fases da arte nacional.
De volta ao Recife apenas cinco meses depois de trazer a comédia de sucesso “Cenas da Menopausa” ao mesmo teatro, a atriz descreve, em entrevista ao Diario, como a pesquisa intensa para a realização da peça a fez descobrir um universo novo. “Como a maior parte das pessoas, eu não tinha a dimensão de todo o pioneirismo dessa mulher. Ela foi não só à frente do seu tempo, como viveu intensamente e deu passos inacreditáveis de tão corajosos, como se separar de um casamento arranjado pela família há mais de um século”, destaca Cláudia.
Ela revela ainda que a ideia do espetáculo surgiu quando Tarsilinha do Amaral, sobrinha-neta da pintora, a procurou durante a pandemia. “Mesmo adorando a ideia, eu disse a ela que eu precisava investigar o lado B da Tarsila. Do contrário, não teríamos um bom espetáculo. E foi aí que tudo se desdobrou, porque a vida dela é tão espetacular quanto as suas peças”, salienta.
Contando com o texto e as letras de Anna Toledo e José Possi Neto, além da direção musical de Guilherme Terra, a protagonista divide a cena e a produção com Jarbas Homem de Mello, que interpreta Oswald de Andrade. Ele aponta, durante a entrevista, a alegria e a intensidade desse grupo que estava em torno de Tarsila durante o romance que o seu personagem viveu com ela. “Ela viveu diversas tragédias e tinha um temperamento bastante introvertido, mas buscou felicidade a vida inteira. Aquela turma que estava ao seu lado era de pessoas muito alegres, especialmente Oswald, que era um bonachão”, relembra.
O ímpeto para romper os padrões de sua época e fazer da sua arte um motor revelador da força feminina marcou a obra da pintora natural de Capivari, interior de São Paulo. A intenção de utilizar a narrativa musicada para recontar os seus passos artísticos e pessoais encontra um paralelo claro com os próprios ideais defendidos por Cláudia, que se revela inspirada pela personagem a cada temporada que apresenta.
“Nós somos bastante diferentes em termos de temperamento. Eu sou extrovertida, expansiva, falo com todo mundo, enquanto ela era reservada, elegante e contida. Foi uma composição bem complexa, inclusive do ponto de vista físico. Mas é nessa força para quebrar padrões que nos encontramos. Tarsila foi uma mulher livre, falava do prazer da mulher e de coisas das quais não se falava naquele momento”, reforça a atriz.
Ícones que também mudariam para sempre a história da arte brasileira, como Anita Malfatti (vivida por Keila Bueno), Mário de Andrade (Renato Caetano) e Menotti Del Picchia (Ivan Parente), ajudam a compor esse mosaico do início dos anos 1900. Além desse elenco central, estão presentes no espetáculo os atores-cantores Liane Maya, Caru Truzzi, Matheus Paiva, Renato Bellini, Danilo Barbieri, Fernanda Salla, Dion Seabra, Marcos Lanza, Marilice Cosenza, Alvinho de Pádua, Karine Bonifácio, Larissa Grajauskas, Estêvão Souz, Maysa Mundim, Fernanda Godoy e Guilherme Pereira.
Cláudia e Jarbas, novamente em contato com o Recife, aproveitaram a conversa para elogiar o envolvimento das plateias pernambucanas com o teatro. “Vocês sabem apreciar o teatro, então vamos nos apresentar sabendo que se trata de um público diferenciado. Pernambuco, com suas cores, tem muito a ver com as obras da Tarsila. Trazer o colorido dela para cá é quase como se ela tivesse nascido aqui”, afirma ela.
Ele completa: “A Semana Modernista (1922) é justamente representada pela ideia de criarmos uma arte nossa, sem ficar apenas elogiando o que é europeu. E tanto o Recife quanto Pernambuco inteiro dialogam com esse princípio. É um infinito manancial de arte”, exalta Jarbas.
Símbolo máximo do Modernismo, a obra “Abaporu” foi batizada com uma palavra tupi-guarani que significa "homem antropófago”, representando a proposta do movimento de absorver a arte estrangeira para dar origem a algo novo genuinamente brasileiro. A fome de viver e de transformar também compõe o conjunto de Tarsila do Amaral, uma mulher que, com sua arte, devorou seu tempo.
HORÁRIOS
Na quinta e na sexta, a apresentação está marcada para as 20h. Já o sábado conta com duas sessões: a primeira às 15h e a segunda às 20h. No domingo, a apresentação será às 18h. Os ingressos já estão à venda na internet pela Cecon Tickets e pela bilheteria oficial do próprio teatro.