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Em novo disco, Ed Motta busca apagar histórico turbulento: "Eu quero ser feliz"

Após mais de uma década compondo e gravando em inglês, Ed Motta lança o disco "Toc-Toc", que retoma o português e revisita a sonoridade de seus primeiros discos com novas referências acumuladas na carreira

Por Allan Lopes

Ed Motta alcança 15 discos de estúdio com um álbum mais leve, dançante e novamente cantado em português

Soul, funk, jazz e outras vertentes da música estadunidense estão entre as referências presentes na trajetória de Ed Motta. “Sou um americanizado”, afirma o músico em entrevista ao Diario. Por pura escolha pessoal e estética, ele passou a última década compondo e gravando em inglês. Fora dos estúdios, Ed continuou se expressando em português, inclusive nas entrevistas e declarações polêmicas que o cercaram nesse período.

Ainda assim, esse verniz gringo divide espaço com seu DNA verde e amarelo na criação musical, fortemente influenciado por mestres como João Donato, Tim Maia e Moacir Santos. É uma das razões pela qual ele reencontra a língua materna em seu 15º disco “Toc-Toc”, já disponível nas plataformas digitais, sem abrir mão do refinamento que o consagrou.

Em um repertório de 11 faixas, a obra evoca a atmosfera dos primeiros discos de Ed, “Conexão Japeri” (1988) e “Um Contrato com Deus” (1990), através de baladas e eletro-funk. A diferença é que, agora, essa sonoridade vem envelopada pela complexidade harmônica acumulada em aproximadamente quatro décadas de estrada. “Uma coisa é fazer isso aos 18 anos e outra é fazer aos 54”, comenta.

Lançado pelo selo do próprio artista, Dwitza, em parceria com o selo alemão MPS, “Toc-Toc” rompe drasticamente com a estética do antecessor “Behind the Tea Chronicles”, que apostou no excesso de camadas e grandes orquestrações. “A intenção era fazer música para dançar e relaxar durante uma caminhada, na academia ou simplesmente para acompanhar o dia”, justifica.

O álbum começa com o clima dançante e solar de “Eu Quero Ser Feliz”, onde Ed Motta aparece entregue ao romantismo e à esperança. “Eu estou louco para ser feliz há um tempão”, confessa. É uma faceta que contrasta com seu histórico turbulento de polêmicas — as quais, segundo o próprio músico, ele faz de tudo para evitar. “Eu não buscava nada disso. Estava buscando ‘eu quero ser feliz’. Foi isso que eu gravei, foi isso que eu fiz. A obra aponta para outro lado, não para o mau humor, a confusão ou o distúrbio”, destaca.

Um dos casos mais recentes aconteceu em maio deste ano, quando Ed Motta se envolveu em uma confusão em um restaurante no Rio de Janeiro devido à cobrança da taxa de rolha. Um áudio vazado expôs o músico usando o termo “paraíba” de forma pejorativa contra um funcionário do local.

“Foi um fato isolado. Pegaram um áudio de um ano atrás que mandei para um cara que eu achava que era meu amigo, o dono do restaurante. Até dou risada porque falo em um tom de piada”, explica. “É claro que vivemos um momento em que as coisas têm um olhar que deveria existir mesmo. Acho isso louvável nos novos tempos. É uma evolução que antigos sistemas e dogmas sejam questionados”, completa.

Ed argumenta que o episódio não apaga a relevância do Nordeste em seu repertório. Por meio de um vídeo publicado no Instagram, o artista carioca pediu desculpas aos nordestinos e cantou um trecho da música “Coleção”, do paraibano Cassiano, a quem define como um músico tão “americanizado” quanto ele próprio. “Cassiano tem muito pouco ou quase nada de música brasileira”, afirma.

Já o pernambucano Moacir Santos, com sua forte veia nacional, é outro ícone nordestino que Ed faz questão de reverenciar — chegando a dedicar a ele a faixa “Amalgasantos”, do álbum Dwitza (2002). “Ele fez essa união das claves africanas com elementos da música brasileira e também da música norte-americana”, ressalta o cantor.

Diante de dados que mostram o crescimento do seu público jovem no Spotify, Ed Motta afirma ser, hoje, o resultado da mistura entre as novas e antigas gerações. “Sou uma velha guarda assanhada”, crava. “Nasci nos anos 1970, fui adolescente nos anos 1980, e isso está presente na minha obra e na minha psique”, pontua ele.

De olho nessa conexão com a audiência mais nova, o artista transforma-se em herói de quadrinhos com “Aplausos e Enigmas”, primeiro volume da série “As Aventuras de Ed Motta”, que tem lançamento previsto para novembro. A HQ conduz o leitor por uma jornada de mistério, acordes e fantasia, dividida entre o Rio e Londres no cenário jazzístico de 1959.