Mulheres cristãs tocam o terror no cortante ‘Virtuosas’, filme com Bruna Linzmeyer
No primeiro longa-metragem de ficção de Cíntia Domit Bittar, líder religiosa leva três mulheres para retiro disputado, mas as coisas não saem como esperado; filme está em cartaz no Cinema da Fundação
Difícil imaginar que de um grupo de mulheres religiosas de semblante pacífico, gestos angelicais, palavras de acolhimento e sorrisos de estado de graça é possível emergir um terror tão incisivo quanto “Virtuosas”. Dirigido e escrito por Cíntia Domit Bittar, o longa, que entra em cartaz nos cinemas nesta quinta-feira (24), usa dessa polidez aparente para revelar não apenas ideias afiadas, mas movimentos cortantes.
Em um de seus mais desafiadores papéis, Bruna Linzmeyer interpreta a líder carismática de aspirações políticas Virgínia, que promove um retiro exclusivo para as suas seguidoras, no qual ensinará o caminho para a pureza feminina. Três fiéis do seu rebanho são sorteadas para a missão, considerada um sonho. Lorena (Juliana Lourenção) e Bárbara (Sarah Motta) parecem completamente entregues à experiência, que inclui técnicas de oração, cuidados com a casa e comunicação digital. Enquanto Germina (Maria Galant), apesar de dedicada aos ensinamentos da coach, se mostra atrevida nos comentários e opiniões.
O cenário luxuoso em que quase todo o enredo transcorre reflete exatamente a fachada estéril e virginal das protagonistas. A fotografia rígida de Gabriel Rinaldi e a direção de arte asséptica de Dicezar Leandro reforçam o caráter propositalmente absurdo e exagerado da encenação de Cíntia Domit Bittar, aqui em uma estreia notável como diretora de longa-metragem de ficção após uma prestigiada carreira de curtas-metragens da qual “Baile” (2019) é o maior destaque.
A cineasta não está interessada em conceber um universo naturalista e, confiante na sua condução, Bruna Linzmeyer compõe Virgínia apropriadamente no limite da caricatura. Em entrevista ao Diario, a protagonista destaca que, entre vários temas, o filme trata de performance. “É uma história de mulheres que têm de atuar dentro daquilo que se espera delas e, ao mesmo tempo, desejam um poder, um espaço na política. E, para isso, atropelam todo mundo e, nesse caso, se tornam vilãs”, ressalta a atriz. “Minha personagem é o ápice desse corpo que vaza descontrole mesmo dentro daquela casca controlada”, acrescenta.
O roteiro, escrito em colaboração com Fernanda De Capua, não disfarça os paralelos com o crescimento do movimento feminino conservador, especialmente no universo digital, capitaneado por lideranças políticas. Surpreende em “Virtuosas”, no entanto, que a narrativa fuja da verborragia típica dos filmes de grandes pautas e utilize a premissa em prol de um suspense até bem prático. A produção não se intimida de mergulhar na violência quando preciso e consegue desestabilizar essa limpidez do visual com uma brutalidade que, certamente, pegará muita gente desprevenida.
“A coisa mais importante de um filme de gênero é entreter. Às vezes a gente fica tão preocupado com o assunto que esquece que a conexão com o público, aquilo que vai fazê-lo pensar, são os afetos que uma obra proporciona. E, dentro do terror, podemos trabalhar com o humor, o drama, o suspense e o choque”, explica Cíntia Domit Bittar.
É tão contundente a maneira como a realizadora revela as camadas por trás das protagonistas — e tão interessante sua opção por contrastes oferecidos pelo gênero — que “Virtuosas” poderia ter sido ainda mais radical nas suas investidas finais, que parecem catarses breves para toda a construção de clima até ali.
Mas não é todo dia que uma estreante em longa-metragem escolhe um assunto espinhoso contemporâneo para mexer e, principalmente, tem o desprendimento de explorá-lo menos enquanto proposição edificante e mais como expurgação de demônios sociais. Aqui, eles são tantos que nenhum retiro resolveria.