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Filme 'Luciana, a Comerciária' ressurge após 50 anos e reescreve a história do cinema pernambucano

Dirigido por Mozart Cintra, que faleceu um ano depois da sua conclusão, longa rodado no Recife terá duas sessões especiais no Cinema da Fundação, neste domingo (20)

Por André Guerra

Personagem principal é uma moça do interior que vai até a capital tentar mudar de vida

A história do cinema pernambucano e brasileiro está sendo reescrita nesta semana. O longa-metragem “Luciana, a Comerciária”, dirigido por Mozart Cintra (1924-1977), ganha a tela do Cinema da Fundação (Derby) neste domingo (20), em duas sessões especiais gratuitas, às 16h e às 18h30, que marcam o renascimento de uma obra que passou 50 anos apagada da história.

Rodado no Recife e nos municípios de Pedra e de Arcoverde, no interior de Pernambuco, o filme possui cerca de 1h25 de duração e conta a história da jovem (interpretada por Kátia Brígida) que deixa Pedra, no Agreste de estado, para tentar a vida na capital. Descrito logo no letreiro inicial como “um filme underground” e “um clássico de Mozart Cintra”, portanto ciente do seu pioneirismo, o projeto enfrentou diversas dificuldades técnicas e não conseguiu seu espaço nas salas da época, contando apenas com três exibições especiais em 1976.

Luiz Joaquim, coordenador do Cinema da Fundação, procurou a Cinemateca Brasileira (em São Paulo) em 2008 para tentar restaurar “Luciana, a Comerciária”. Em 2015, um novo laudo foi realizado sobre os negativos depositados. Somente em 2026, após um levantamento de arquivos iniciado em 2024 pelo pesquisador e técnico restaurador Caio Ramon, foi obtida a autorização para digitalizar o filme.

Produzido com recursos próprios pela C. Sette Cintra Filmes, “Luciana” enfrentou diversas barreiras no lançamento e caiu na obscuridade. Filha de Mozart e Celeida Sette Cintra, esposa e produtora do cineasta, Veruschka Cintra relembra, em entrevista ao Diario, a época das gravações, nas quais fez uma pequena participação como atriz. “Eu nasci em um meio das artes. Minha mãe cantava na rádio e era muito prestigiada, enquanto meu pai tinha muitos amigos do cinema, como Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha, e era muito envolvido nesse mundo”, conta. “Ainda lembro bem da minha cena: apareço apenas entregando uma carta, mas foi o suficiente para me marcar”.

O cineasta faleceu um ano depois da finalização do longa, que foi guardado nos anos seguintes pela sua esposa com o máximo de zelo. Após acompanhar todo o processo em busca da digitalização e restauração da obra ao longo dos anos, Celeida faleceu no último mês de julho, aos 95 anos. Pouco depois veio a confirmação da sessão especial que “Luciana, a Comerciária” ganharia.

“Eles eram incrivelmente unidos, apaixonados, e faziam tudo juntos. Ela largou toda a sua vida anterior para trabalhar com ele. O filme é tão significativo para a família que todos nós vamos em peso comparecer a essa exibição, porque ali está toda a nossa história, finalmente ganhando a superfície”, ressalta Veruschka.

Luiz Joaquim considera o trabalho de Mozart Cintra um filho tardio do chamado Cinema Marginal, movimento essencial do cinema brasileiro compreendido geralmente entre meados dos anos 1960 e começo dos anos 1970.

“Vejo essas duas sessões que faremos do filme como as mais importantes dos últimos cinco anos. Primeiro, em nível pessoal: é uma história que me acompanha desde 2003, quando tomei conhecimento da existência dele. Segundo, pela reescrita da história”, conta o coordenador e curador. “Nossa expectativa é que, a partir dessa estreia, os pesquisadores e estudiosos do cinema possam olhar para ‘Luciana’ como uma obra fundamental dessa fase já tão historicizada e filmada da nossa cinematografia”.

O tempo pode não ter sido suficiente para Mozart e Celeida realizarem seus sonhos de ver seu trabalho ganhar vida na tela grande. Mas, agora, os olhos atentos do audiovisual pernambucano, em um momento tão particular de prestígio internacional, terão a chance de reviver seu legado.