De volta ao Recife, Maurício Silva une memórias da cidade e influência europeia em nova exposição
Maurício Silva abre 'Aller et Retour' nesta quinta (10), na Galeria Número, em Boa Viagem, com mais de 60 obras, trabalhos inéditos e performance; a exposição fica em cartaz por um mês
Mais de 20 anos vivendo na França não diminuíram a conexão do artista pernambucano Maurício Silva com o Recife. O título de sua nova exposição individual, “Aller et Retour” (em português: “Ida e Volta”), que abrirá nesta quinta-feira (100, às 18h, na Galeria Número, em Boa Viagem, não apenas reforça esse caráter de ponte entre continentes, mas expressa uma ideia registrada na estética dos 65 trabalhos reunidos, incluindo pinturas, gravuras e experimentações produzidas em distintos momentos da sua carreira. Sete deles são inéditos e feitos especialmente para a ocasião.
“Todos os meus trabalhos, independente do suporte, têm uma conexão fortíssima com as minhas origens. O meu olhar e manuseio sobre cada material refletem o Recife que mora dentro de mim”, conta Maurício, em entrevista ao Diario. “Fico sempre curioso com a repercussão no sentimento das pessoas, porque sempre busco levar o melhor daqui para onde vou. Pernambuco nunca vai sair de mim, não só por ser a minha casa, mas porque eu acho definitivamente um lugar fascinante e inspirador para um artista”, exalta.
Radicado desde 2005 em Meudon, comuna francesa nos arredores de Paris, Maurício desenvolve suas peças a partir de referências, materiais e experiências acumuladas nos dois lados do Atlântico. Para este projeto, ele preparou uma performance que, na galeria, será apresentada às 20h.
Um dos destaques de “Aller et Retour” é o núcleo “Eurocêntricas – Gravuras Eletrônicas”, construído com imagens recortadas de revistas francesas de arte guardadas por anos pela companheira do artista, Anne Furci. Ele revela que selecionou as imagens que o interessavam e, no processo, reorganizou tudo em novas composições visuais. “Gosto de guardar as coisas. Os tickets, por exemplo, hoje substituídos por cartões eletrônicos, se transformam na minha obra no início de uma outra coisa”, ressalta ele, rememorando objetos de aparência banal que marcam um passado e amplificam o poder de memórias.
Refletindo sobre as referências artísticas europeias levadas ao seu trabalho, ele reforça a base de sua formação. “A minha geração conheceu a história da arte sobretudo através do Renascimento, do Impressionismo e de outros movimentos europeus”, diz, acrescentando um suporte incomum que torna único o meio e o fim da sua obra. “As gravuras são impressas em papel produzido a partir de esterco de elefante, adquirido na França de um projeto cuja renda contribui para ações de proteção dos animais na Índia. A escolha traz novamente a ideia de deslocar materiais de seus usos originais e ressignificá-los”, explica o artista.
Também estarão presentes os múltiplos Saco de Arte / Arte de Saco, concebidos como obras de valor mais acessível. Ele afirma que a proposta é ampliar a possibilidade de aquisição de seus trabalhos. “Quero desmistificar a noção de que a arte precisa circular apenas entre colecionadores com muito poder aquisitivo”, salienta Maurício Silva, emocionado em estar de volta, mas já saudoso em ter que voltar para a Europa. “Levo um pedaço de Recife para onde vou”, conclui.