Musical sobre Moraes Moreira chega ao Recife exaltando paixão do baiano pelo frevo
"Moraes Musical Moreira" desembarca no Recife para revisitar a trajetória do artista que uniu Bahia, Pernambuco e diferentes ritmos brasileiros
Bahia e Pernambuco podem até disputar o posto de maior potência cultural do Nordeste, mas o saudoso Moraes Moreira nunca precisou escolher um lado. Baiano de nascimento e pernambucano de coração, o artista transitou com liberdade entre as duas culturas até construir uma linguagem musical para chamar de sua.
Em 2026, quando ele completaria 79 anos, os dois estados se unem para reverenciá-lo no espetáculo “Moraes Musical Moreira”, apresentado nesta sexta-feira (4) e sábado (5), às 20h, e no domingo (6), às 16h e 20h, no Teatro Luiz Mendonça, no Parque Dona Lindu, em Boa Viagem. Os ingressos estão disponíveis a partir de R$ 25, no site do teatro.
Existe uma curiosa metalinguagem na trajetória da montagem. Depois da estreia nacional em Salvador, o primeiro destino é o Recife — exatamente o caminho que Moraes começou a trilhar ainda criança, em Ituaçu, quando percorria, pelas ondas do rádio, a distância até Pernambuco para ouvir frevo.
“A expectativa é que a gente consiga compartilhar esse Moraes apaixonado por tantos Brasis e que, de alguma forma, Pernambuco também se reconheça na história dele”, conta a diretora Ana Paula Bouzas em entrevista ao Diario.
Após deixar os Novos Baianos em 1975, Moraes Moreira juntou-se ao trio elétrico de Dodô e Osmar, na Bahia, estreitando de vez seus laços com o frevo. Até então instrumentais, os trios ganharam a voz pioneira de Moraes para cantar o ritmo pernambucano.
Dessa fase nasceram joias como “Vassourinha Elétrica”, releitura estilizada do clássico “Vassourinhas”, além de “Bloco do Prazer” e “Festa do Interior”, eternizadas por Gal Costa. Em 1981, dizia-se no Diario que esta última estava “fadada a ser um dos maiores sucessos do próximo carnaval” e figurava como a mais ouvida do Brasil.
Moraes também virou um xodó definitivo porque sempre disse que os trios baianos nasceram inspirados pela passagem do Clube Vassourinhas do Recife por Salvador em 1950. Pelos serviços prestados à folia, recebeu o justíssimo título de Cidadão do Frevo, em 1995.
Mas o ritmo é apenas uma porção do farto banquete musical servido pelo artista. Verdadeiro camaleão da nossa música, o baiano costurou em sua obra o rock psicodélico, o samba e a sofisticação da MPB. Ao mesmo tempo, nunca perdeu o cordão umbilical com o sertão, flertando constantemente com o baião, os galopes e a literatura de cordel.
Com dramaturgia de Fábio Espírito Santo, esse mosaico de influências é conduzido por dois protagonistas no espetáculo: o Poeta-Cantador, de Rodrigo Sestrem, e o Vaqueiro do Som, de Cris Meirelles. Juntos, os dois percorrem uma jornada em busca da Musa Música, vivida por Júlia Tizumba, ambos acompanhados pelo “Bloco do Prazer”.
Desse modo, “Moraes Musical Moreira” escolhe uma narrativa lúdica e poética, em sintonia com o jeito inventivo do homenageado. “Nós somos, na verdade, artistas brincantes. Isso significa misturar diferentes linguagens e modalidades: dança, poesia, atuação, música. Acho que, nesse sentido, a ludicidade é uma grande aliada do nosso trabalho”, comenta Rodrigo Sestrem, que representa a faceta mais madura de Moraes.
Poeta e cordelista, assim como o personagem que interpreta, ele se sente em casa nessa versão do artista baiano. “É um lugar de conforto, mas nem por isso deixa de trazer desafios e o compromisso de fazer um trabalho cada vez melhor”, afirma.
Ao lado dele, Cris Meirelles interpreta o Vaqueiro do Som, que atravessa diferentes etapas da vida de Moraes Moreira e tem o desafio de traduzir a sua introspecção. “Ele não era uma pessoa de muita expressividade corporal, daquelas que você consegue demarcar facilmente. Então, foi um desafio construir um protagonista, um personagem de tanta importância, a partir desse certo recolhimento”, explica.
Fora da montagem, ele já atua como intérprete em carnavais e leva essa experiência para o espetáculo. “Ele tem um jeito muito específico de cantar, com frases curtas e poucos floreios. Quase como se fosse um instrumento, com uma precisão muito grande em cada nota”, conclui o ator.
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