° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Pintor consagrado, João Câmara foge das convenções em romance de estreia lançado aos 82 anos

Estreia do pintor João Câmara em romance, ‘Rondó da Lagoa dos Irerês’ explora peculiaridades de uma cidade fictícia em narrativa desafiadora, lançada para convidados nesta quarta no Shopping Recife

Por André Guerra

João Câmara revela ao Diario que o cinema é uma das suas maiores fontes de inspiração: "Observo tudo pela perspectiva da grande tela quando escrevo ou pinto"

Instrumentalizar a força das artes plásticas para o universo literário tem sido um desafio estimulante para João Câmara, nome consagrado da pintura pernambucana. Dedicado a escrever praticamente um livro por ano desde o começo da pandemia, em 2020, o artista de 82 anos dá um passo além na sua obra literária com uma peculiar estreia em romance, intitulada “Rondó da Lagoa dos Irerês” e publicada pela editora Topbooks.

A obra será lançada nesta quarta-feira (2), no UCI Recife Delux, no Shopping Center Recife, às 19h, em um evento para jornalistas e convidados, contando com a presença do autor para uma conversa mediada pelo romancista Sidney Rocha.

A cidade fictícia de Neves é o ponto de partida de uma história que convida o leitor a conhecer seu universo pacientemente. O avançar do tempo sobre um personagem central — acompanhado desde pequeno até o fim de sua vida — é intercalado por uma série de outros personagens que vivem neste espaço, cujos paralelos com a realidade ficam evidentes ao longo da leitura. João Câmara começou a desenvolver essa saga, que totaliza mais de 500 páginas, após concluir sua incursão intensa pelos contos na trilogia composta pelos livros “Lidando com o Passado e Outros Lugares” (2022), “A Caminho de Querétaro” (2024) e “Retábulos, Predela” (2025).

Ao Diario, o artista conta que sua escrita ocorre de modo cada vez mais livre e fora das convenções, mas que este trabalho é uma proposta mais ambiciosa. “Como não me considero um escritor profissional, sinto a história se desenrolando no meu tempo, de modo intuitivo e particular. Mas esse, especialmente, será o primeiro volume de uma grande narrativa, que tem um escopo muito maior, no qual o narrador reflete minuto a minuto sobre as contradições dos personagens e faz uma radiografia desse lugar”, revela Câmara.

A aposta estrutural de “Rondó da Lagoa dos Irerês” é notavelmente arriscada, já que, de fato, a divisão em minutos propõe uma desaceleração natural nos acontecimentos e um detalhamento gigantesco de cada compasso da ficção. João Câmara fala sobre seu apreço pela construção minuciosa da trama, e muito da sua influência é tirada de fontes cinematográficas. “Sou e sempre fui um pintor de figuras, e a pintura figurativa dificilmente não é também, de certa forma, bastante narrativa. Todas as minhas experimentações com arte abstrata foram fracassadas”, afirma.

“Por isso, o cinema sempre foi para mim um lugar de inspiração. Gosto de diversos gêneros, mas uma obra como ‘Lawrence da Arábia’, de David Lean, teve um impacto enorme na minha vida pela jornada épica daquele protagonista no deserto e, claro, também pelo seu valor pictórico. Sou um invejoso do cinema. Quando escrevo e quando pinto, observo tudo sempre pela perspectiva da grande tela, como se tudo fosse uma pintura animada”, acrescenta o autor.

Assinadas pelo próprio João Câmara ao lado de Franz Arbenz Irigoyen, as ilustrações permeiam o livro de modo discreto e pontual, mas sua concepção é mais simbólica do que descritiva. Os desdobramentos da narrativa, que desafiam a cronologia clássica da literatura de ficção, preocupam-se menos com mensagens edificantes e mais com a intensidade de suas ações.

“Gosto de personagens ativos, que interferem nesse jogo complexo que move o enredo. Uma saga de uma pessoa pode ser, e geralmente é mesmo, tão pessoal que se torna universal. Não gosto de ficções com regras morais rasteiras, prefiro histórias que são fiéis à alma humana”, diz o escritor durante a entrevista, prometendo lançar em breve o segundo volume da publicação.

“Já estou escrevendo a continuação e não vejo a hora de poder compartilhar mais desses personagens, pelos quais me apeguei tanto ao longo de um processo tão mágico que é o da escrita. Tomei gosto por ele definitivamente”, conclui, celebrando uma vocação já consolidada.