Umburana, madeira que dá vida à arte mística do Catimbau, pode ter uso proibido no Parque
Mesmo morta, a umburana desempenha papéis ecológicos considerados cruciais. Artesãos deverão ser orientados a substituí-las em suas obras
A umburana, também chamada de amburana e imburana, é uma árvore típica da Caatinga, de galhos muito ramificados e tronco laminado. É também formiga, tamanduá, homens, mulheres, figuras indecifráveis, santos e deuses nas mãos dos artesãos do Parque Nacional do Catimbau, em Buíque, no Agreste de Pernambuco.
A intrínseca relação dos artistas da região com a árvore, entretanto, pode estar para mudar, já que há uma expectativa de que o uso da árvore seja proibido no futuro.
O Catimbau carrega uma fama de local místico, como os próprios artesãos reforçam em seus trabalhos com a umburana. José Bezerra, pioneiro entre eles, desatinou a fazer arte após, segundo conta, receber a orientação de um espírito. A inspiração de suas obras, diz Zé Bezerra, como é conhecido, vem dos espíritos da Caatinga.
"Era um negócio bem alto, mas que não mostrou o rosto, tinha uma toalha branca na cabeça. Ele disse 'A maior parte dos animais que você matou, você vai desenhar na madeira. Eles vão envelhecer nas suas mãos'", recorda-se.
O espírito também teria emendado: "A madeira tem que ser morta. Não tire um galho de pau verde, de jeito nenhum".
"Esse sonho mudou a minha vida", lembra Zé Bezerra.
O homem saiu para a mata e viu um tamanduá, um dos animais que costumava caçar. Mas não era bicho de verdade. Era umburana, sua matéria-prima desde então.
"O Zé era caçador, vivia da caça. De repente, teve a ideia e o sonho de começar a fazer o artesanato. O pessoal começou a chamar o Zé Bezerra de louco, porque ele começou a andar nestas estradas pra cima e pra baixo com tronco seco nas costas. A fama que ele teve por muitos anos foi de que havia 'caducado', até que o primeiro turista quis comprar sua obra”, relata o guia nativo Anderson Angêlo, da Associação de Guias de Turismo do Parque Nacional do Catimbau (Aconturc).
Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), as questões relacionadas à coleta da umburana foram trazidas durante oficina para elaboração do plano de manejo do Parque Nacional do Catimbau.
"A ideia é que seja incluída no plano a proibição da retirada da umburana de dentro da unidade, mesmo se estiver morta", diz o órgão.
De acordo com o ICMBio, o uso seria permitido apenas às populações tradicionais. Ainda assim, haveria o incentivo para a substituição por outra espécie. O plano de manejo só deve ser publicado no próximo ano.
A gestora de Turismo e Economia Criativa do Sebrae Unidade Agreste Meridional, Gerlane Melo, tem acompanhado as discussões e tentado preparar os artesãos da região para esta mudança.
"Ainda não está proibido, mas é um caminho para que isso aconteça", ela diz. "A gente começou a procurar o Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis], porque vê matérias e mais matérias de apreensão de madeiras que foram cortadas ilegalmente".
Gerlane realizou um levantamento com artesãos para saber quais madeiras seriam adequadas para o trabalho manual. "Eles mapearam em torno de seis a oito madeiras específicas que poderiam ser trabalhadas para o artesanato. Já estamos em conversa com o Ibama", ela explica.
Os artesãos do Catimbau estão incluídos no circuito cultural "Mãos do Agreste", do Sebrae. O roteiro oferece experiências imersivas em importantes centros de produção artesanal no estado. A rota também deverá ser fortalecida com o investimento de R$ 4 milhões do Sebrae Pernambuco e Sebrae Nacional, visando transformar o Vale do Catimbau em referência no ecoturismo.
Artesãos
Fábio Ramos tem seu ateliê a poucos metros da casa de Zé Bezerra, de quem foi aluno. Ele, que trabalha com temas religiosos, místicos e universais, tece críticas à proibição de uso da madeira.
O artesão passa cerca de uma semana acampado na Caatinga para coletar material. "Sou eternamente grato pela escolha que fiz de viver exclusivamente da arte. Para mim é estilo de vida, é paixão. Você vê a madeira bruta ir ganhando forma. Eu digo que a peça em si sempre esteve ali, você só apagou as arestas", explica.
"A umburana quando morre tem um ciclo de vida muito longevo. Para ela chegar ao ponto dessas que estão aqui já tem morrido na natureza há 10, 15 anos. A gente só pega a que está propícia ao artesanato, não aquela que está servindo a abelhas, a roedores", argumenta. "O que está faltando ao ICMBio é essa aproximação com o artista e um estudo de impacto dessa coleta no meio ambiente, que no meu ponto de vista é irrelevante, mínimo".
"Antes de tudo temos um respeito com a natureza”, ele continua. “Eu sempre digo: 'Se eu tivesse que cortar uma árvore viva para produzir meu trabalho, acredito que estaria em outra área e não na arte popular", acrescenta.
Fábio Ramos é conhecido pela série "beatas", que esgotou no primeiro dia da Fenearte deste ano. "Conto com peças espalhadas em 34 países", celebra.
Simone Souza, única mulher a comandar ateliê no Vale do Catimbau, tem relação estreita com a árvore desde que era criança. Queimava umburana com os pais para fazer carvão. "Eu precisava fazer aquilo por sobrevivência."
"Mas hoje a umburana representa vida", resume.
A escultora reconhece que serviu de inspiração para mulheres se envolverem com arte. Hoje, há nove artesãs na região do Catimbau.
Entre as principais peças de Simone estão representações de famílias, seu autorretrato e imagens de Padre Cícero, Frei Damião, São José e São Pedro.
"Há lugares muito místicos, muito especiais no Catimbau que precisam ser preservados", conta Simone.
A mulher é ex-companheira de Luiz Benício, outro famoso artesão do local, que possui obras em exposição permanente em Portugal, além de peças espalhadas por mais de 150 países.
Hoje, Luiz conta com ajudantes para confeccionar sua obra, exposta em um vasto ateliê a céu aberto, que tem como fundo os rochedos do Catimbau.
Ele reforça o sentimento de misticismo que o vale carrega.
"O Vale do Catimbau é místico e eu sou testemunha viva de vários momentos inusitados de seres", diz. "Tem seres que eu crio que não têm uma definição do que é. Parece uma imensidão de coisas estranhas", define.
Um futuro sem umburana para os artesãos é encarado por Luiz Benício como um desafio a ser superado.
"Estou aqui para encarar os desafios. Você tem que viver inovando e achando meios para que possa superar qualquer obstáculo. Não será essa restrição que vai me fazer deixar de ser artesão".
*O Diario de Pernambuco viajou ao Parque Nacional do Catimbau a convite do Sebrae.