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De volta ao Recife, Marco Nanini apresenta a peça 'Fim de Partida' e relembra infância na cidade

Marco Nanini retorna ao Recife com "Fim de Partida", clássico de Samuel Beckett, ao lado de Guilherme Weber em quatro sessões a partir desta quinta-feira (23)

Por Allan Lopes

Guilherme Weber e Marco Nanini, parceiros de palco em "Fim de Partida", durante passagem pelo Recife

"Recife tem encantos mil", já dizia Reginaldo Rossi. Para Marco Nanini, um deles tem gosto de pitomba. Eternizado nos corações dos brasileiros como Lineu, de “A Grande Família”, o ator nasceu na capital pernambucana em 1948 e viveu no bairro do Pina até os dez anos.

As pequenas e doces lembranças da infância, como o sabor das pitombas colhidas pelo caminho, ainda hoje são suficientes para fazê-lo abrir um largo sorriso assim que escuta o nome do Recife. Há décadas radicado no Rio de Janeiro, Nanini ainda nutre uma relação íntima com a cidade natal. Quando a reencontra por meio do teatro, fazendo aquilo que mais ama, o retorno ganha um significado ainda mais especial, como acontece desta vez.

Em parceria com Guilherme Weber, Nanini sobe ao palco do Teatro Luiz Mendonça, no Parque Dona Lindu, com a adaptação do espetáculo “Fim de Partida”, clássico do dramaturgo e escritor irlandês Samuel Beckett, entre esta quinta-feira (23) e o domingo (26).

As sessões acontecem às 20h, exceto a última, marcada para as 19h, todas com ingressos à venda no site do teatro a partir de R$ 75 (meia). Seis décadas após sua estreia, a peça segue lembrando que as grandes inquietações humanas continuam tão atuais quanto inevitáveis.

“Eu gostaria de ter atuado nela há muito tempo, mas eu era jovem demais. Corria o risco de virar uma caricatura”, conta Nanini, aos 78 anos, em entrevista ao Diario. “Então esperei e estou gostando muito, porque é um texto espetacular que permite inúmeras interpretações e reflexões”, continua.

A oportunidade de finalmente concretizar esse desejo surgiu a partir do convite de Guilherme Weber, com quem o ator recifense já havia contracenado em “Os Solitários” (2002) e “A Morte do Caixeiro Viajante” (2004).

Em cena, Nanini dá vida a Hamm, enquanto Weber é Clov. Os dois têm uma relação de dependência física e emocional atravessada pela violência, pela crueldade cotidiana e por um humor tão ácido quanto melancólico. Confinados em um espaço claustrofóbico, a dupla habita um mundo esvaziado de sentido, onde a rotina se sustenta por repetições, disputas de poder e uma espera interminável que jamais encontra resolução.

Na visão de Weber, Hamm é uma figura que parecia destinada a Nanini. “Beckett escrevia pensando em palhaços, inspirado por Chaplin, Buster Keaton e Harold Lloyd. Nanini é um grande comediante brasileiro, então esse encontro entre ator e personagem é realmente muito raro”, afirma. A direção ficou a cargo de Rodrigo Portella, que vive um momento de destaque no teatro brasileiro após trabalhos elogiados, como “Tom na Fazenda”.

Enquanto Hamm permanece preso a uma cadeira de rodas e Nagg e Nell estão confinados em latas de lixo, Clov é o único personagem em movimento. Mas, apesar da liberdade física que possui, ele também está aprisionado.

“Essa é uma das grandes perguntas do teatro moderno: por que ele não parte? E a resposta talvez diga muito sobre todos nós, sobre aquilo que nos impede de romper ciclos e sobre como, muitas vezes, nos tornamos prisioneiros das nossas próprias escolhas”, indaga Weber, que também mantém uma relação afetiva com Pernambuco a partir do cinema, após participar de “Árido Movie” (2005), de Lírio Ferreira.

“Fim de Partida” promove outros reencontros importantes na trajetória de Marco Nanini, como o de Helena Ignez, sua colega em “Salomé” (1968), e Ary França, com quem dividiu o elenco de “O Burguês Ridículo” (1996). “É muito bonito rever essas pessoas tantos anos depois”, destaca.

Mas é o reencontro com o Recife que faz o ator abrir o maior sorriso. Entre as recordações que tem da cidade está uma cena ao lado dos pais, Dante Nanini e Maria Esmeralcy, na varanda do antigo Grande Hotel do Recife, onde seu pai trabalhava como gerente. “Lembro de apontar para a lua e daquele instante ficar gravado na minha memória. É uma lembrança muito bonita, que representa meu carinho pela cidade”, diz.