Monólogo que discute tradições da fé judaica e transgressões religiosas chega ao Recife
Espetáculo protagonizado e escrito por Clarice Niskier, 'A Alma Imoral' adapta o livro homônimo do rabino Nilton Bonder
A fé como um oceano de incertezas e o palco como o cenário perfeito para explorar — e compreender — os profundos conflitos internos do ser humano. Dessa ideia transcorre o monólogo “A Alma Imoral”, protagonizado pela atriz Clarice Niskier e escrito por ela, que adapta o livro homônimo do rabino Nilton Bonder. Desconstruindo conceitos milenares de civilização e abordando de maneira provocativa dualidades que acompanham a história da humanidade, a peça chega ao Recife nesta sexta (3) e sábado (4), às 20h, no Teatro do Parque.
Em 2002, quando estava divulgando uma peça no programa “Sem Censura”, Clarice conheceu Nilton Bonder e, ao responder a uma pergunta sobre religião, surpreendeu-se com a postura dele. “Falei que era uma judia budista e, por fax, um espectador disse que isso não existia. Foi aí que ele saiu em minha defesa de modo bastante assertivo e, logo depois, me deu esse livro que havia escrito. Não cheguei nem à metade e já estava totalmente maravilhada com as suas ideias”, explica a atriz em entrevista ao Diario.
“Tinha certeza de que aquilo renderia um espetáculo e começamos a conversar para desenvolvê-lo”, diz.
A obra original propõe uma série de reflexões sobre tradição e transgressão, lançando um olhar diferente sobre o divino e sobre a liberdade humana em sua relação com o universo. Na apresentação, ela quebra a quarta parede para contar causos e parábolas da tradição judaica, utilizando unicamente uma cadeira e um grande pano preto, que se transforma em oito diferentes vestes ao longo da montagem, cuja direção é assinada por Amir Haddad.
Clarice retorna à capital pernambucana 18 anos depois de sua primeira apresentação com este projeto na cidade, no Teatro de Santa Isabel. Ela reforça que as proposições libertárias de Nilton a impressionaram desde o começo e estão entre as razões para a peça ganhar novos significados a cada nova plateia que conquista. Ao longo de mais de 20 anos se apresentando com o monólogo, sua interação com diferentes energias, olhares e culturas proporcionou uma série de ressignificações para o material.
“Seja pela forma como as pessoas se mobilizam com o espetáculo ou mesmo por seus silêncios, cada experiência levando esse texto para cada estado rende distintos estados de emoção”, acrescenta. “A fé é tudo, menos calma. Ela é um mar revolto, uma travessia cheia de incertezas e angústias. E é justamente esse conflito, que está na base do livro, que faz com que ele seja teatro por excelência”, conclui.