Prestes a fazer 80 anos, João Bosco celebra a carreira em show no Recife: "lugar privilegiado"
Neste sábado (30), João Bosco se apresenta no Teatro Guararapes, reunindo clássicos da parceria com Aldir Blanc, faixas recentes e a relação profunda de sua música com o Brasil
Poucos artistas são capazes de forjar uma obra tão cheia de Brasis quanto João Bosco. O país que aparece em seus arranjos é feito de samba-jazz, bossa-nova, ijexá e ancestralidade afro-indígena, tudo isso costurado por um cancioneiro de forte denúncia social e política. Parece coisa demais para um violão só sustentar, mas sob o comando do músico mineiro o instrumento ganha o peso de uma orquestra inteira.
Perto de ser o mais novo octogenário da MPB, em 13 de julho, ele busca mostrar que a idade não freou o entusiasmo de sua arte no show “João Bosco Quarteto”, neste sábado (30), às 21h, no Teatro Guararapes. Os últimos ingressos estão disponíveis a partir de R$ 90, no site Cecon Tickets.
O êxtase de João Bosco pela música ajuda a explicar como sua longevidade resultou em uma discografia monumental com mais de 30 álbuns lançados. Mas essa relação não se limita ao dedilhar das cordas. Também aparece no modo como o artista pensa, elabora e fala quando o assunto é o seu ofício.
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Na coletiva de imprensa que contou com a presença do Diario, qualquer pergunta parecia abrir caminho para uma nova lembrança, uma referência ou uma reflexão, em uma conversa que foi contida apenas pelo limite do tempo. “Eu tenho dentro de mim um desejo enorme por fazer música e por ir atrás dela”, afirma.
Diante disso, não surpreende que seu ímpeto criativo ultrapasse a memória dos clássicos, como “O Bêbado e a Equilibrista”, “O Mestre Sala dos Mares”, “Bala com Bala” e “Kid Cavaquinho”, mas siga se desdobrando em novas canções, que entram na conta de um setlist nada modesto levado ao Guararapes.
Foi sob essa ótica que ele lançou o álbum “Boca Cheia de Frutas” (2024), quebrando um hiato de quatro anos sem inéditas. O trabalho ecoa as palavras de Ailton Krenak, celebrando a sabedoria dos povos originários como o caminho definitivo para a cura e o adiamento do fim do mundo.
Entre os destaques mais recentes aparecem a faixa homônima “Boca Cheia de Frutas”, que parte de um canto entoado por crianças ianomâmi, além de canções como “O Cio da Terra”, de Chico Buarque e Milton Nascimento, e “O Canto da Terra por um Fio”. O elo entre essas faixas é a defesa aos povos originários e seus territórios.
“Eles sofreram muito durante o governo Jair Bolsonaro, que explorou essas terras de maneira nociva”, critica o músico. Nos anos 1970, o engajamento político já ditava o tom de sua lendária parceria com Aldir Blanc, quando a dupla desafiava a censura da época através de obras-primas como “Tiro de Misericórdia”, “Gênesis” e “Dois Mil e Índio”.
Ainda assim, o jejum de três anos sem encontrar os fãs pernambucanos fez João Bosco calibrar o repertório para saciar o desejo da plateia pelos sucessos que marcaram gerações em novelas como “O Astro” (1977), “Vale Tudo (1988) e “Por Amor” (1997).
Por isso, a apresentação no Guararapes foi concebida como uma narrativa perfeitamente capaz de abraçar e amarrar as diferentes fases de sua brilhante trajetória. “O show vai do princípio, passa pelo meio e chega à 'Boca Cheia de Frutas'. É isso que eu pretendo fazer”, diz. Ao seu lado, estarão Ricardo Silveira (guitarra), Guto Wirtti (baixo) e Kiko Freitas (bateria).
Quando se trata de um cancioneiro profundamente brasileiro, o Nordeste costuma ter sua assinatura. Não é diferente com João Bosco, que regravou o clássico “Forró em Limoeiro”, do paraibano Jackson do Pandeiro, e não esconde o quanto se derrete pela riqueza cultural de Pernambuco. “É um lugar artisticamente privilegiado, como a Bahia”, diz.
Para ele, o estado foi um pólo irradiador da música nordestina, especialmente pela força das rádios locais, por onde passaram nomes como Hermeto Pascoal e Sivuca. “Mesmo tendo origem em outros estados nordestinos, muitos músicos terminaram desaguando no Recife”, completa.