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Repertório politizado de Erasmo Carlos é celebrado por projeto com rappers

Com lançamento nesta sexta-feira (22), "Mano" transforma repertório setentista de Erasmo Carlos em diálogo com o Brasil de 2026 usando o rap

Por Allan Lopes

Erasmo Carlos completaria 85 anos em 5 de junho e ganha homenagem em "Mano"

No início dos anos 1970, ao trocar as baladas românticas por crônicas sobre drogas, solidão e desordem social, Erasmo Carlos antecipou, sem saber, inquietações que décadas depois encontrariam ressonância no hip-hop nacional.

O álbum “Mano”, com lançamento nas plataformas digitais marcado para esta sexta-feira (22), amarra esse elo histórico para celebrar os 85 anos do saudoso artista carioca que, se vivo estivesse, completaria a data no próximo 5 de junho.

No projeto, expoentes da nova e da velha escola do rap brasileiro rimam diretamente sobre os vocais originais do Tremendão, fundindo o discurso marginal do compositor na época às periferias atuais.

O trabalho foi concebido por Léo Esteves, filho de Erasmo e guardião de seu acervo, em parceria com Marcus Preto, produtor que esteve à frente dos últimos discos do cantor e é conhecido por trabalhar com cânones da MPB, como Gal Costa, Angela Ro Ro e Tom Zé.

Para dar voz ao tributo, a dupla escalou um elenco que cruza gerações do hip-hop, incluindo nomes como Emicida, Marcelo D2, Criolo, Dexter, Xamã, Rael, Budah, Tássia Reis e a dupla Tasha & Tracie. “A ideia era criar um diálogo entre o Erasmo dos anos 1970 e o Brasil de 2026”, disse Marcus durante coletiva de imprensa, que contou com a presença do Diario.

Nas oito composições, os rappers adicionam novos versos enquanto a voz de Erasmo é mantida, atualizando o discurso para os dias de hoje. Segundo o produtor, os vocais utilizados no álbum são os registros originais do artista, extraídos das faixas preservadas pela Universal. “Não usamos inteligência artificial. É a voz que Erasmo gravou na época, separada dos demais instrumentos”, explica.

Em faixas como “Gente Aberta: Imensamente Visceral”, dividida com Criolo e Tássia Reis, e “Cachaça Mecânica: Queimando Tudo Dentro”, que ganha as rimas de Budah, o formato de dueto póstumo acontece de forma ainda mais direta e literal.

O repertório de “Mano” resgata o período em que Erasmo Carlos deixou a zona de conforto do programa dominical da Jovem Guarda, gravado para a TV Record em São Paulo, para abraçar a maturidade. De volta ao Rio, o cantor casou-se, teve filhos e viu suas responsabilidades aumentarem. “Isso transformou a cabeça dele”, relata Léo Esteves.

Em paralelo, houve o endurecimento da Ditadura Militar e a inserção de Erasmo em círculos da Tropicália e da Bossa Nova. O Tremendão se reaproximou de Tim Maia e passou a conviver mais com artistas como Luiz Melodia, absorvendo o tom contestador e político que moldou suas composições da época.

O exemplo mais emblemático está nos versos da clássica “É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo” (1971), composta em parceria com Roberto Carlos, que voltou ao topo das paradas após integrar a trilha sonora do longa “Ainda Estou Aqui”. No álbum, os arranjos originais da faixa servem de base para a releitura na voz de Emicida, resgatando a parceria iniciada com o Tremendão em 2018 na canção “Termos e Condições”, que integrou o 31º disco do carioca, intitulado “...Amor é isso”.

Já a versão de "Sábado Morto", com Xamã, usa o trap para retratar a solidão urbana e a melancolia de um fim de semana solitário. Em "Maria Joana", Marcelo D2 transforma a ode à maconha em um reggae cadenciado, surpreendendo quem esperava o seu tradicional samba-hop.

Questionados pelo Diario sobre a escolha de aproximar o repertório de Erasmo Carlos do rap, e não de caminhos mais esperados, como a MPB tradicional ou o rock, Léo Esteves e Marcus Preto defenderam que "Mano" precisava obedecer a uma lógica menos convencional. “Queríamos um fundo artístico, um propósito e uma liga”, afirmou Léo.

Para Marcus, o rap se impôs como o caminho mais natural para esse recorte da obra. “Erasmo amava várias figuras da MPB, e muitos artistas da MPB também o amavam. Isso não impede outros projetos. Mas, neste momento, fazia muito mais sentido fazer este”, completou o produtor.