Busto de Soledad Barrett, vítima da ditadura, é vandalizado na Rua da Aurora, no Recife
Escultura em homenagem à militante paraguaia assassinada pela ditadura militar foi parcialmente pintada de branco
O busto de Soledad Barrett Viedma, militante paraguaia assassinada durante a ditadura militar brasileira, foi alvo de vandalismo na Rua da Aurora, no bairro de Santo Amaro, área central do Recife. Fotografias feitas pelo Diario de Pernambuco mostram que a escultura foi parcialmente coberta por tinta branca, principalmente nas regiões do rosto e dos cabelos. A placa de identificação do monumento também apresenta sinais de depredação.
Inaugurado pela Prefeitura do Recife em fevereiro de 2025, o busto está localizado ao lado do monumento Tortura Nunca Mais, dedicado às vítimas da repressão política durante a ditadura militar. Até o momento, não há informações sobre a autoria do ato.
Procurada, a Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb) informou que vai encaminhar uma equipe ao local para avaliar os danos e programar os serviços necessários para recuperar a escultura.
Segundo a autarquia, somente em 2026 já foram realizadas duas intervenções no monumento. Em janeiro, houve uma limpeza geral. Já em agosto, a equipe removeu pichações e reinstalou uma placa de identificação que havia sido furtada e posteriormente recuperada.
A Emlurb também informou que o município gasta aproximadamente R$ 2,4 milhões por ano com a recuperação de monumentos, pontes e outros equipamentos públicos danificados por pichações e atos de vandalismo.
Quem foi Soledad Barrett
Nascida no Paraguai, Soledad Barrett Viedma se tornou uma representação da resistência à ditadura militar e de defesa dos direitos humanos. Neta do escritor espanhol Rafael Barrett, conhecido por denunciar as condições de exploração dos trabalhadores paraguaios, ela viveu desde a infância as consequências da perseguição política. Aos três meses de idade, precisou deixar o país com os pais, que buscaram exílio na Argentina.
Filha de militantes políticos, Soledad se envolveu ainda jovem com movimentos estudantis. Posteriormente, mudou-se com a família para o Uruguai, onde foi sequestrada por integrantes de um grupo neonazista. Após se recusar a dizer “Viva Hitler”, teve uma suástica marcada nas coxas.
Anos depois, chegou ao Brasil e ingressou na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização que atuava contra o regime militar. Enviada ao Recife, passou a integrar a resistência política na capital pernambucana.
Em 1973, aos 28 anos, foi torturada e assassinada após ser traída pelo companheiro, o ex-militar José Anselmo dos Santos, conhecido como Cabo Anselmo, que colaborava com os órgãos de repressão e entregou militantes da organização aos militares.
Grávida de quatro meses, Soledad foi morta junto com outros integrantes do grupo no episódio que ficou conhecido como Massacre da Chácara São Bento, ocorrido em Pernambuco. Além dela, foram assassinados Pauline Reichstul, Eudaldo Gómez da Silva, Jarbas Pereira Márquez, José Manoel da Silva e Evaldo Luiz Ferreira.
Homenagem no Recife
A inauguração do busto ocorreu em fevereiro de 2025, em uma cerimônia na Rua da Aurora, com a presença de Ivich Barrett, neta da militante, então com 30 anos. A homenagem foi realizada pela Prefeitura do Recife em parceria com a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), como reconhecimento à trajetória de Soledad e à sua luta contra a repressão.
A solenidade contou ainda com a participação de Marcelo Santa Cruz, representante da Comissão no Recife e familiar de Fernando Santa Cruz, desaparecido durante a ditadura militar.
A instalação do monumento foi precedida por uma reunião na Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco (OAB-PE), que reuniu integrantes da Comissão e representantes da sociedade civil. A escultura foi colocada ao lado do Tortura Nunca Mais.