Demolição de prédios-caixão no Recife é suspensa após ativistas indicarem presença de mais de cem gatos
Atividades nos edifícios onde vivem os animais ficam paradas até 3 de novembro, quando a CPRH discute com a empresa um plano de retirada segura
A demolição de um conjunto de prédios-caixão condenados no bairro da Imbiribeira, na Zona Sul do Recife, vinha colocando em risco a vida de mais de uma centena de felinos que passaram a se abrigar no local. Após a repercussão nas redes sociais, a Secretaria de Meio Ambiente, Sustentabilidade e de Fernando de Noronha, do Governo de Pernambuco, confirmou nesta terça-feira (27) a suspensão parcial do trabalho no Residencial Boa Viagem I, na Rua Presidente Nilo Peçanha, nº 731.
De acordo com a pasta, a medida foi definida em um acordo entre o Ministério Público de Pernambuco (MPPE), a Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) e a empresa responsável pela demolição. “As atividades de demolição nos edifícios onde há gatos permanecerão suspensas até o dia 3 de novembro, quando será realizada uma reunião na sede da CPRH para que a empresa apresente um plano para a retirada segura dos animais”, disse, por meio de nota.
O caso veio a público a partir de denúncias de ativistas e organizações da sociedade civil comprometidos com a causa animal. No dia 19 de outubro, o Fórum de Bem-Estar Animal de Pernambuco (Febemape) lançou o informe da previsão de início do processo de destruição dos 18 blocos que compõem o conjunto residencial e cobrou a Prefeitura do Recife e o Governo de Pernambuco para que apresentassem o plano de retirada dos gatos e de outros animais do local.
Os prédios, abandonados há mais de uma década, foram alvo de acordos judiciais promovidos, em agosto, pelo Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5), a partir do Programa Cheque Esperança. Com as negociações, ficou acertada a demolição das edificações classificadas como de alto risco. Como noticiado pelo Diario à época, os terrenos serão incorporados ao patrimônio da União e, segundo o TRF5, terão destinação social.
A Secretaria Executiva dos Direitos dos Animais (SEDA) ainda não se pronunciou.
Duas décadas de cuidado com os gatos
A dona de casa Lana Lessa, de 63 anos, cuida dos bichinhos que encontraram no conjunto residencial abandonado um local para se abrigar. Ela estima que já dedicou 20 anos da sua vida aos cuidados com os animais desamparados. Sem aposentadoria ou renda fixa, Lana promove rifas de bolo de noiva e até eletrodomésticos, como ventiladores. Com o rendimento, a cuidadora voluntária compra sacos de ração de 25 kg. “Só dá pra três dias”, calcula.
O compromisso é cumprido religiosamente, de domingo a domingo. “A partir das 9h, 9h30, eu já estou por lá e não tenho hora de sair”, assegura a dona de casa. No decorrer do trabalho, encontrou outros apoios. “Tenho duas pessoas que me ajudam todo mês, uma com R$ 120 e, outra, com R$ 150”, divide. O saco de ração, ela compra a R$ 165, no Centro de Abastecimento e Logística de Pernambuco (Ceasa), no bairro do Curado. “Mais R$ 10 da taxa de entrega”, detalha.
Uma autodeterminação que vai além da garantia de alimentação. No São João ou no Natal, a idosa produz artesanatos decorativos. Se não investe nos mantimentos, “quando sobra um dinheiro”, leva algum para a castração. “Eu levo para doutora Mirna. Depois eu acerto com ela”, conta ao Diario.
O mesmo zelo que a fez reconhecer a ameaça imediata. “Quando vi os maquinários chegar, eu fiquei desesperada. Aí pedi ajuda, postei nos grupos que participo da causa animal. Foi através deles que venho conseguindo o apoio de outros órgãos”, conclui.
Na noite desta terça-feira (27), após a interrupção temporária da demolição, Lana Lessa foi comunicada de que estará proibida de ir ao local para alimentar os felinos. “Até pra fazer o bem tem que pagar caro, viu? Sofre”, reclama.