° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Acervo do Diario de Pernambuco entra em nova etapa com uso de inteligência artificial

Projeto de extensão da UFPE transforma os 200 anos de edições do Diário em experiência de leitura mais dinâmica, veloz e acessível

Por Nilton Vilanova

Da esquerda para a direita os membros do projeto Maiara Bezerra, Shirley Vilarim, Marcela Gama, Jonathan Queiroz, Lucas Dallegrave e Victor Fragoso

O acervo do Diario de Pernambuco, o jornal mais antigo em circulação ininterrupta da América Latina, vai ganhar uma nova camada de acesso com o uso de inteligência artificial. Um projeto de extensão da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) começou a transformar os 200 anos de edições do jornal em uma experiência de leitura mais dinâmica e acessível ao público.

Batizado de Memória Jornalística de Pernambuco: um legado cultural, o projeto teve início em março de 2026 e une a estrutura acadêmica da UFPE à memória impressa de um jornal que acompanhou boa parte da formação do Brasil, desde os primeiros anos de Império. A proposta é tornar o acervo legível como nos dias de hoje, sem perder a fidelidade aos originais.

A iniciativa ganha peso simbólico depois de o acervo do Diario ter sido reconhecido como patrimônio cultural material do Brasil. O reconhecimento veio pela Lei nº 15.027/24, sancionada a partir de projeto de lei do deputado federal Eduardo da Fonte (PP-PE), e é também dele a emenda parlamentar individual que agora financia essa nova etapa do trabalho, realizada com a anuência do Diario de Pernambuco e da Associação da Imprensa de Pernambuco (AIP), entidade que representa a categoria no estado.

Coordenação e equipe

À frente da coordenação do projeto está a head de projetos, advogada, pesquisadora e doutoranda em Direito pela UFPE, Marcela Gama, que lidera uma equipe de 18 pessoas entre graduandos, mestres e doutores. Segundo ela, já havia uma preocupação prévia do Diario e da AIP com a preservação de seus acervos. Mas o projeto vai além da simples guarda. 

"Entendemos que a difusão do patrimônio documental é o pilar fundamental para a construção da memória coletiva e para o fortalecimento da identidade histórica de uma sociedade", afirma a coordenadora, para quem o direito à memória é um direito humano fundamental, associado ao direito à informação, à verdade e à identidade.

Jornalista, ex-diretor de Jornalismo do Diario e presidente da Associação da Imprensa de Pernambuco (AIP), Múcio Aguiar esteve no centro da articulação entre o jornal e a UFPE. Segundo ele, a aproximação nasceu da necessidade de salvaguardar o acervo, hoje patrimônio cultural material do Brasil, e torná-lo acessível "para as consultas da própria redação do DP como para pesquisadores, sem a necessidade de manusear o acervo impresso".

Aguiar lembra que a conservação dos primeiros volumes, os mais antigos do jornal, era crítica, com presença de fungos que exigiu restauro antes mesmo de qualquer digitalização. "Salvar não apenas para guardar, mas para torná-lo conhecido", resume o jornalista sobre o espírito que passou a guiar o projeto.

Do inventário à digitalização

O trabalho começou, como toda grande curadoria, pelos detalhes mais discretos. Nos primeiros seis meses do projeto a equipe mergulhou na sede do jornal para organizar, catalogar e fazer o inventário completo do acervo, avaliando, exemplar por exemplar, o estado de conservação de cada página.

É um trabalho de paciência quase arqueológica, sobre o qual se assenta tudo o que vem depois. Todas as camadas do projeto, da construção do site à identidade visual do projeto, da curadoria bibliotecária e da restauração, passam pelos olhos e pelas mãos atentas de toda a equipe para garantir que nenhum detalhe se perca na travessia do papel para o digital.

É na camada de inteligência artificial, contudo, que o projeto revela sua ambição mais inventiva. Sob a responsabilidade do professor, pesquisador e doutor em Ciência da Computação pela UFPE, André Neves, a tecnologia combina reconhecimento óptico de caracteres - o OCR, técnica que converte imagens de texto em conteúdo pesquisável - com a modelagem semântica, um método que organiza e relaciona esse conteúdo de forma inteligente dentro de bases de dados.

Juntas, essas ferramentas fazem algo que soa quase mágico: transformam páginas estáticas, silenciosas havia décadas, em matéria-prima para novas narrativas, histórias e projetos.

Segundo Neves, o maior desafio não está em fotografar as páginas antigas, mas em transcrever de fato o que elas dizem. "O desafio principal é a digitalização do material. E aqui não estamos falando de fotografar o material e disponibilizar as fotos, estamos falando de transcrever o conteúdo."

Para os exemplares mais danificados, cuja leitura é difícil até para olhos humanos, a equipe recorre a modelos de inteligência artificial para complementar trechos incompletos, sempre com revisão humana posterior. "Essa é uma das atividades mais experimentais do projeto", reconhece o professor. "Estamos descobrindo como, e com que nível de qualidade e confiabilidade, essa simbiose humano-IA consegue dar conta."

Como funcionará o acesso

Na prática, o acesso funcionará assim: o usuário digita um tema, um nome, um acontecimento, e recebe de volta uma espécie de jornal personalizado, montado a partir das fontes originais do acervo, mas escrito em linguagem acessível para o leitor contemporâneo.

Será possível, por exemplo, "abrir" uma edição do Diario como se ela tivesse sido publicada naquele exato dia do século XIX, só que resgatada, contextualizada e costurada por inteligência artificial a partir do que os repórteres daquela época efetivamente escreveram.

A plataforma ainda está em fase de validação. A previsão é que, até o fim do primeiro ano de projeto, ela esteja acessível ao público com 100 exemplares organizados em ordem cronológica, sendo alimentada, a partir daí, com novos exemplares a cada ano.

Ao visitar o acervo ao lado do presidente do Diario, Carlos Frederico Vital, em 2025, o deputado Eduardo da Fonte já havia resumido o que o motivou a apoiar a iniciativa: "O Diario de Pernambuco é um patrimônio do nosso estado e o jornal mais antigo em circulação do Hemisfério Sul. Esse processo representa uma significativa conquista para Pernambuco e para o Brasil. A colaboração neste projeto com a Universidade Federal de Pernambuco é crucial para a preservação da nossa cultura, beneficiando as futuras gerações. É fundamental que, daqui a 100, 200 ou 300 anos, o acervo do Diario de Pernambuco continue acessível, seja lembrado e contribua para a história do nosso país."

Diretor-executivo do Diario e com mais de 30 anos vividos para o jornalismo, Roberto Gazzi já viveu experiência semelhante à frente da digitalização do acervo do Estadão, jornal paulista com 150 anos de história. "Se eu já sabia de sua importância para o trabalho jornalístico, o projeto me fez perceber o quanto o acervo pode ser importante para pesquisadores, estudantes e a sociedade em geral", afirma.

Foi essa vivência, segundo ele, que reforçou a necessidade de preservar e disponibilizar o conteúdo de duzentos anos do Diario, patrimônio de Pernambuco e do Brasil. Para Gazzi, o projeto com a UFPE importa ao jornal, mas importa ainda mais à comunidade pernambucana e brasileira e deve viabilizar novos trabalhos acadêmicos, jornalísticos e culturais.

Ele lembra que o Diario já disponibilizou para venda cópias de seu acervo fotográfico e que a inteligência artificial, por mais avançada que seja, "precisa exatamente do que o Diario tem em seu acervo e no trabalho do dia a dia: conteúdo relevante e de credibilidade, principalmente sobre Recife e Pernambuco."

O modelo é, segundo a equipe, replicável para outros acervos históricos Brasil afora, o que dá ao projeto pernambucano um horizonte que ultrapassa as fronteiras e reforça o pioneirismo característico do estado. Mais do que preservar o passado, a iniciativa aposta em reacender o interesse por ele, aproximando estudantes, pesquisadores, professores e leitores comuns de duzentos anos de história que, até agora, permaneciam guardados, mas praticamente inacessíveis ao grande público.

Patrimônio Bicentenário

O Diario de Pernambuco nasceu em 7 de novembro de 1825, criado pelo tipógrafo e jornalista pernambucano Antonino José de Miranda Falcão, numa época em que a independência do Brasil ainda era assunto recente: Portugal reconhecia a separação naquele mesmo ano, o país entrava na Guerra da Cisplatina, seu primeiro conflito armado como nação independente, e nascia o futuro imperador Dom Pedro II.

Na primeira edição, o jornal trazia um conteúdo bem distante do noticiário atual: Títulos de propriedade, anúncios de compra e venda, registros de apreensão de pessoas escravizadas e horários de entrada e saída de embarcações no porto do Recife.

Quase cinco décadas depois, em 1874, a chegada do primeiro cabo telegráfico submarino a Recife acelerou a circulação das notícias e ajudou a consolidar o Diario como uma das principais janelas de Pernambuco para o mundo, antecipando informações vindas dos Estados Unidos e da Europa.

Ao longo de dois séculos, o jornal também se tornou espelho das transformações da sociedade brasileira: registrou o fim da escravidão, os movimentos em torno do sufrágio feminino, revoltas populares e as sucessivas mudanças políticas do país, do Império à República, passando por ditaduras e redemocratizações.

Esse valor histórico foi reconhecido oficialmente nos últimos dois anos. Em novembro de 2024, o acervo do Diario foi declarado patrimônio cultural material do Brasil pela Lei nº 15.027, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No mesmo período, a Câmara Municipal do Recife aprovou, em primeira votação, projeto de lei que declara o jornal patrimônio imaterial histórico e cultural da cidade, enquanto a Assembleia Legislativa de Pernambuco avalia proposta semelhante em âmbito estadual.

Em 2025, o Diario completou 200 anos de circulação ininterrupta, consolidando-se como o jornal mais antigo em atividade no Hemisfério Sul e referência em credibilidade editorial.