Mãe denuncia falta de acolhimento a adolescente com TDAH durante crise de ansiedade em escola militar do Recife
Segundo a mãe, o filho, de 13 anos, foi mantido no sol após interromper a medicação para participar de uma formação; ela afirma que o adolescente passou mal e não recebeu o suporte necessário
Uma mãe denuncia que o filho, de 13 anos, diagnosticado com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), sofreu constrangimentos e não recebeu o acolhimento necessário durante uma crise de ansiedade no Colégio da Polícia Militar de Pernambuco, localizado no bairro do Derby, na área central do Recife.
O episódio aconteceu na segunda-feira (21) e, segundo a advogada Nyhanna Holanda, começou quando o adolescente foi orientado a interromper a medicação para participar de uma formação militar.
De acordo com o relato da mãe, o estudante estava tomando o medicamento quando um monitor determinou que ele se dirigisse à formação para cantar o hino e colocar o bibico, peça que integra o uniforme. Ao pedir para terminar de tomar a medicação, o adolescente teria sido mantido em pé, sob o sol, mesmo depois de solicitar que fosse retirado da exposição.
Ainda segundo Nyhanna, os demais alunos seguiram para a sala de aula, enquanto o filho permaneceu no local. Ela afirma que um tenente também se dirigiu ao adolescente de forma ríspida e manteve a determinação.
Após ser liberado para seguir para a sala, o estudante começou a chorar e entrou em contato com a mãe, informando que não estava bem. Nyhanna afirma que identificou sinais de uma crise de ansiedade, situação que, segundo ela, já havia motivado reclamações anteriores à escola sobre a falta de suporte ao filho.
A advogada conta que orientou o filho a procurar o espaço de atendimento psicossocial da instituição, onde foi atendido por uma profissional. Segundo ela, a psicóloga pediu que entrasse em contato com o Corpo de Alunos para informar novamente sobre o diagnóstico de TDAH.
Nyhanna afirma que se recusou a repetir a informação, por considerar que a condição do filho já era conhecida pelos profissionais da escola. Na ocasião, solicitou que o adolescente fosse liberado para voltar para casa acompanhado pela acompanhante terapêutica (AT) do filho mais novo, de seis anos, que também estuda na instituição e é autista.
De acordo com a mãe, o adolescente foi encaminhado à coordenação, onde teria sido questionado de forma insistente. Ela relata que a professora responsável teria dito que, caso ele não respondesse às perguntas, precisaria retornar à sala de aula.
A mãe afirma que a situação aumentou o desespero do filho, que já estava abalado pelo constrangimento diante dos colegas. Em seguida, segundo o relato, ele foi levado ao Corpo de Alunos, onde apresentou sintomas como formigamento no braço, visão embaçada e sensação de sufocamento.
“Ele começou a gritar. Falou comigo no telefone dizendo: ‘Mãe, eu quero gritar. Eu não estou mais aguentando, socorro, me ajuda’. E caiu no chão”, relatou Nyhanna.
A mãe afirma que, nesse momento, o subcomandante do Corpo de Alunos teria ordenado, em tom agressivo, que o adolescente se levantasse, dizendo que aquele não era um lugar para ele ficar. Segundo ela, a situação foi tão tensa que outros profissionais precisaram conter o militar e retirá-lo do local para que o estudante pudesse se acalmar.
Nyhanna conta que conseguiu entrar em contato com a acompanhante terapêutica do filho mais novo e pediu que ela ajudasse o adolescente a deixar a escola. Após a liberação, ele foi levado para casa de carro por aplicativo e recebeu acolhimento.
“Talvez, se essa AT não estivesse lá, eu não sei nem o que teria acontecido ali dentro”, afirmou.
Denúncias de falta de adaptação
Segundo Nyhanna, o filho estuda no Colégio da Polícia Militar desde 2022. Na época, o adolescente ainda estava em investigação para o diagnóstico de TDAH. Em 2023, quando o laudo ficou pronto, ela afirma que encaminhou o documento à instituição e solicitou adaptações escolares e um acompanhamento adequado às necessidades do estudante.
A advogada relata que, apesar da entrega do laudo, o filho continuou enfrentando dificuldades relacionadas à falta de adaptações. Ela também afirma que a escola chegou a solicitar que o adolescente deixasse de utilizar o cordão de girassol, por não fazer parte do uniforme.
Nyhanna diz que contestou a orientação e defendeu a utilização do acessório como forma de identificação da condição do filho, especialmente diante das situações em que profissionais alegavam desconhecer o diagnóstico.
A mãe afirma ainda que já havia procurado a instituição anteriormente para reclamar da falta de suporte e que, no ano passado, recebeu promessas de mudanças no acompanhamento do adolescente.
Segundo ela, as comunicações disciplinares aplicadas ao estudante também são motivo de preocupação. Nyhanna afirma que o acúmulo dessas ocorrências pode comprometer a permanência do filho na escola.
Denúncia foi encaminhada a órgãos públicos
Após o episódio, Nyhanna afirma que formalizou denúncias ao Ministério Público de Pernambuco (MPPE) e à Secretaria de Educação. Ela também pretende procurar outros órgãos institucionais para cobrar a apuração dos fatos e a responsabilização dos envolvidos, caso sejam constatadas irregularidades.
A advogada relata que outros pais de estudantes neurodivergentes entraram em contato com ela após a divulgação do caso, afirmando enfrentar situações semelhantes na instituição. Segundo Nyhanna , algumas famílias teriam receio de formalizar denúncias por medo de possíveis retaliações.
Ela também afirma que o pai do adolescente, que é militar, foi chamado a comparecer à escola e que pretende acompanhá-lo na reunião, na condição de mãe e advogada.
Apesar do episódio, Nyhanna diz que não pretende retirar o filho da instituição. Para ela, a escola precisa garantir condições de inclusão e acolhimento aos estudantes neurodivergentes.
“Eu não vou tirar o meu filho de lá porque não é ele que precisa se adaptar à escola, é a escola que precisa se adaptar a ele e, dentro das condições dele, incluí-lo nessa sociedade”, declarou.
A mãe defende que a instituição fortaleça o diálogo com as famílias e assegure um ambiente seguro para os estudantes.
“A escola precisa ser um local seguro e sadio para as crianças, todas elas, e também para os funcionários. E não foi isso que eu vi nesse episódio”, afirmou.
A equipe do Diario de Pernambuco solicitou um posicionamento da Polícia Militar de Pernambuco sobre a denuncia, mas até o momento não houve retorno da corporação. O canal segue aberto para eventuais manifestações.