Sete anos depois, derramamento de petróleo ainda afeta renda e saúde de pescadores no Nordeste
Sem equipamentos para a limpeza e com dificuldade para vender o pescado, comunidades enfrentaram perdas que, segundo os relatos, continuam sete anos após o derramamento
No dia 6 de setembro de 2019, véspera de um feriadão, a pescadora Izabel Cristina chegou à praia no litoral norte de Alagoas logo cedo e pensou ter encontrado um pedaço de plástico preto deixado na areia. Ela e outras pescadoras se aproximaram para retirar o material. Só depois perceberam que se tratava de petróleo. O contato provocou queimaduras e, segundo ela, marcou o início de uma rotina que ainda não terminou.
Milhares de pescadores precisaram realizar a retirada de resíduos sem equipamentos de proteção e enfrentar a perda de renda, insegurança sobre o alimento que chegava à mesa e problemas de saúde que, sete anos depois, continuam sem respostas para parte das comunidades atingidas.
“Lembro quando eu e outras mulheres, que vivem da pesca e do turismo de base comunitária, fomos tentar retirar o petróleo do mar. Foi quando a gente viu que aquele impacto era uma coisa mole, queimava, e a gente ficou queimada, não só eu, mas outras pescadoras. Foi um impacto que a gente nunca tinha visto.”
O derramamento de petróleo que atingiu o litoral brasileiro a partir de agosto de 2019 alcançou os nove estados do Nordeste e provocou impactos ambientais, econômicos e sociais que foram particularmente sentidos por comunidades que dependem diretamente do mar, dos manguezais, dos rios e dos estuários.
Em Pernambuco, um estudo realizado ainda durante a emergência registrou queda de 80% a 100% nas vendas de mariscos, ostras, mexilhões e caranguejos em municípios afetados. O estado conta com 30 mil pessoas que dependem da pesca e que tiveram suas rotinas afetadas.
Neste ano, mais uma vez, pescadores e marisqueiras de Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia voltaram a falar sobre o episódio durante o seminário de encerramento do projeto “Petróleo e os Povos da Pesca Artesanal: Enfrentando o Racismo e a Injustiça Ambiental”, realizado entre os dias 17 e 19 de agosto, em Tamandaré, no Litoral Sul de Pernambuco.
Desenvolvida pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em parceria com organizações sociais e instituições ligadas à pesca artesanal, a pesquisa-ação foi iniciada em janeiro de 2024 e buscou identificar consequências socioambientais do desastre e discutir políticas públicas para as comunidades atingidas.
Os relatos apresentados no encontro mostram que o impacto não ficou restrito ao período em que as manchas chegaram às praias. Para quem vive da pesca, o petróleo atingiu simultaneamente o ambiente de trabalho, a renda, a alimentação e a relação das comunidades com seus territórios.
“Além da gente ficar quase um ano sem poder comer dali”, conta Izabel, as comunidades passaram a conviver com alertas para não consumir os pescados e mariscos encontrados nas áreas atingidas. A consequência foi imediata para famílias que dependiam da venda e do consumo da própria produção.
“O desespero bateu, porque a gente não sabia o que, dali para frente, ia ser da gente. Porque você imagina: a gente sobrevive daquilo, vive daquela ostra, daquele marisco. E a gente tira do pescado o dinheiro para comprar o arroz, café, que é o que a gente não produz. A gente só queria aquilo, mas não pudemos comer e nem comprar as coisas de casa. Muita gente passou necessidade, passou fome”, diz a pescadora.
A insegurança alimentar foi acompanhada pela queda nas vendas. Um outro levantamento realizado pela UFPE em 2019 identificou que a comercialização de produtos da pesca despencou entre 80% e 100% em parte dos municípios pernambucanos afetados.
Em Goiana, no litoral norte de Pernambuco, o impacto também foi medido pela interrupção do trabalho. Segundo Severino Antônio dos Santos, secretário do Conselho Pastoral dos Pescadores Regional, mulheres da comunidade de Povoação São Lourenço passaram cerca de cinco meses sem conseguir comercializar a produção. Antes do derramamento, algumas chegavam a produzir aproximadamente 100 quilos de marisco por semana.
“As mulheres iam pescar e não tinham a quem vender. Os comércios ficaram basicamente paralisados. Isso teve uma queda muito grande na economia local.”
A paralisação econômica ocorreu em um momento em que as comunidades ainda não tinham conseguido se reorganizar quando a pandemia de Covid-19 chegou. Para Zuleide Batista dos Santos, pescadora de Sergipe, os dois acontecimentos se sobrepuseram e prolongaram as dificuldades.
“Eu acho que a gente não se recuperou até hoje. Não tinha nem se recuperado do petróleo, chegou a pandemia. Essa junção de impactos na nossa vida, no nosso modo de viver, é uma tragédia que eu não consigo nem encontrar palavras para definir.”
O petróleo também entrou no corpo
A retirada das manchas colocou pescadores e moradores em contato direto com o petróleo. Sem saber exatamente quais eram os riscos e sem equipamentos adequados, muitos participaram da limpeza das praias. Izabel conta que, durante meses, as mulheres precisaram retirar resíduos que voltavam com as marés.
“A gente não tinha equipamento, não tinha EPI, não tinha para onde destinar esse petróleo, esse óleo, que a gente não sabia. A gente teve que aprender a lidar com isso, com a ajuda da comunidade, da prefeitura, dos órgãos, porque a gente é associação. A gente até hoje ainda sofre”, conta.
Para as pescadoras que participaram do seminário, os sintomas fazem parte da própria experiência vivida desde 2019. Izabel relata mudanças na respiração, crises frequentes e ansiedade depois do contato com o material.
“Depois desse contato com o petróleo, eu fiquei com gripe constante, roncos para dormir, ansiedade. Tomo remédio atualmente para ansiedade, para dormir, e fiquei com essa respiração ofegante e com essa respiração complicada depois que eu tive contato com o petróleo. Além do mais, o petróleo foi em grande proporção. Demorou muito para sair da nossa comunidade. Quanto mais a gente tirava, mais chegava.”
Lilian Santana, pescadora artesanal e liderança de uma comunidade quilombola no sul da Bahia, também relata sintomas físicos e sofrimento psicológico. Ela relata que muitas pessoas que tiveram contato direto com o petróleo apresentaram vômitos, desmaios, irritações na pele e alterações respiratórias. Ela afirma que, nos atendimentos de saúde, a relação com a exposição nem sempre foi investigada.
“E, quando a gente chega no serviço de saúde para ser atendido, ninguém pergunta: ‘Você teve contato com petróleo?’ Ninguém pergunta isso. Nunca foi perguntado, questionado. Então, assim, é difícil lidar com esses impactos, com essas questões físicas, emocionais e de saúde mesmo. Então, tem companheiras que estão se aposentando, que não têm como mais pescar por conta do contato com o petróleo. E isso é muito triste.”
A saúde mental aparece nos relatos como uma dimensão que permanece anos depois do desaparecimento das manchas mais visíveis. Lilian afirma que mulheres das comunidades continuam convivendo com ansiedade, medo e lembranças relacionadas ao período de limpeza.
“A nossa saúde mental não é a mesma. A cada trauma que a gente tem devido a esses desastres, esses crimes ambientais, ficam novas cicatrizes nos corpos da gente. E toda vez que alguém perguntar sobre isso, é como se a gente estivesse vivenciando aquele momento, como se fosse hoje.”
Marcas deixadas nos territórios
O petróleo também alterou a relação das comunidades com áreas utilizadas há gerações. As pescadoras afirmam que locais onde antes havia mariscos deixaram de apresentar a mesma quantidade de pescado. Para Lilian Santana, o problema não terminou quando as manchas deixaram de ser frequentes.
Mesmo depois da redução das manchas, os resíduos continuaram aparecendo em determinadas épocas, associados às marés. “A gente continuou tirando, investigando e denunciando também, porque a gente retirava o petróleo dizendo para a prefeitura que era obrigatório eles ajudarem a tirar, dar apoio e custear as pescadoras.”
Pesquisadores que integraram o estudo desenvolvido pela UFPE defendem a criação de protocolos e estratégias para prevenir situações semelhantes. Para as pescadoras, a prevenção é uma das principais demandas.
Nova geração pode deixar a pesca
A perda de renda também se intensifica com a saída dos jovens das comunidades pesqueiras. Zuleide Batista dos Santos, pescadora de Sergipe, afirma que a redução dos recursos disponíveis e a falta de alternativas têm levado filhos e netos de pescadores a procurar trabalho fora dos municípios onde nasceram.
“A única solução para esses jovens é sair do nosso município, do nosso estado, em busca de sobreviver em outros locais. Como aconteceu mesmo na minha comunidade: jovens saíram para trabalhar e, infelizmente, por acidente de trabalho no estado, voltaram no caixão. Eles saem para tentar melhorar a vida de sua família por não ter oportunidade de pesca dentro da comunidade.”
Para ela, a saída dos jovens representa também uma ruptura na transmissão de um modo de vida que passa entre gerações. “A gente precisa que os governos entendam que ser pescador é a nossa identidade. Pescador é o que sabemos ser. Pescador é o que nós queremos continuar sendo. E a gente não quer que nossa descendência não conheça essa história, não viva essa história, não tenha, principalmente, a oportunidade de escolher.”
O projeto desenvolvido pela UFPE reúne pesquisadores, estudantes, organizações comunitárias e representantes das populações pesqueiras de Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia.
A proposta inclui o levantamento das condições de saúde, dos impactos econômicos e sociais e das situações de racismo e injustiça ambiental vivenciadas nos territórios. Entre os produtos previstos estão relatórios, cartilhas, mapas, artigos científicos e trabalhos acadêmicos.
A pesquisa também discute políticas públicas para saúde das populações pesqueiras, fortalecimento das organizações comunitárias, atividades econômicas complementares, turismo de base comunitária e estratégias para prevenção de novos desastres.
Na avaliação Lilian, liderança da comunidade quilombola no sul da Bahia, ainda é preciso transformar o que foi aprendido durante o desastre em políticas capazes de agir antes que um novo derramamento aconteça.
“Não basta somente ouvir nossas populações tradicionais. É preciso colocar em prática as propostas que nós estamos dialogando com o governo federal. É preciso colocar em prática no sentido de garantir e implementar, para que cheguem nas bases: as políticas de saúde especializada para as mulheres e homens pescadores, levando em consideração as leis ocupacionais e, agora, principalmente, com os agravos ao contato com o petróleo em 2019.”