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Alento para pessoas em situação de rua, bicas históricas de Olinda estão entupidas e tomadas por lixo

Estado de conservação das bicas de Olinda, tombadas nos níveis federal e municipal, preocupa população local

Por Marília Parente

Aposentado José Xavier Menezes, morador do Sítio Histórico de Olinda, mostra situação da Bica do Rosário

Construídas entre os séculos XVI e XVII, as bicas de São Francisco, Rosário, São Pedro e dos Quatros Cantos remontam ao sistema colonial de abastecimento de água do Sítio Histórico de Olinda, integrando o patrimônio da cidade tombado nos níveis federal e municipal. Além da importância histórica, as estruturas ainda mantêm sua funcionalidade, especialmente para pessoas em situação de rua, que contam com elas para atividades de higiene pessoal. Séculos depois, porém, as bicas que resistiram ao tempo estão tomadas pelo abandono: acúmulo de lixo, tubulações entupidas e componentes vandalizados ou quebrados compõem um cenário de degradação.

Morador da Estrada do Bonsucesso há 53 anos, o aposentado José Xavier Menezes, de 72, conta que costumava frequentar a Bica do Rosário na juventude, onde as pessoas lavavam roupas e, inclusive, bebiam daquela água. Citada no Foral de Olinda, em 1537, a estrutura é a única remanescente do Val de Fontes, um riacho existente no século XVI, e conta com frontispício adornado por paredes com jarros de pedra, além da inscrição do brasão secular da cidade em sua base.

“Antigamente, a gente descia para essa bica e o chão dela, de pedras, era limpo. A água saía dela e corria pela tubulação até a rua. Agora, os canos estão entupidos e fica toda essa água acumulada”, lamenta José Xavier.

À altura de sua escadaria lajeada de pedras, no entanto, a água misturada ao lixo acaba produzindo um forte mau cheiro no entorno da estrutura. “Acredito que a água cai limpa, mas é desperdiçada quando se mistura com a sujeira que fica aí acumulada. A gente se preocupa com o risco de doenças, como dengue”, acrescenta.

Caseiro de uma das casas vizinhas à Bica do Rosário há 15 anos, Erivaldo Laurentino diz que a bica não possui rotina de limpeza. “A prefeitura vem, faz um serviço e passa anos para fazer de novo. O turista chega e vê essa bica de longe”, comenta.

A sujeira também se acumula na Bica dos Quatros Cantos, conhecida como Fonte de Tabatinga, construída em 1602. Rodeado por lixo e por fezes humanas, o mobiliário também apresenta pichações.

“A água é boa, suja é a bica. É um lugar onde ficam usuários de drogas, a gente não vê a guarda municipal por perto”, afirma a aposentada Bernadete Luz, que reside nas proximidades da bica.

Alento

Rafael Vieira/DP Foto - Pessoas em situação de rua contam com Bica de São Pedro para realizar higiene pessoal

Dotada de fosso bem mais raso do que as demais bicas, a Bica de São Pedro não apresenta acúmulo de lixo em seu anterior. O catador de materiais recicláveis Eduardo Henrique Santos, que se encontra em situação de rua no Sítio Histórico de Olinda, conta que recorre à estrutura para tomar banho e até beber água.

“Muita gente faz isso, a água é limpa. Nas outras, não tem condições de nada”, garante Eduardo Henrique.

Também catador de materiais recicláveis na área, Edson Júnior conta que a Bica de São Pedro é a única entre as estruturas que ele se sente seguro para utilizar. Nas demais, afirma não confiar na qualidade da água por causa da sujeira acumulada no entorno.

“Pode ser que seja a mesma água, só que eu não confio, porque às vezes ela está com água no joelho, água na canela. Uma vez usei a Bica dos Quatro Cantos e fiquei com a perna acinzentada”, explica.

De acordo com Edson Júnior, que também costuma catar materiais recicláveis na área, é comum que moradores da Cidade Alta recorram à água das bicas em situações de desabastecimento. “Não é só a gente que precisa. Eu também consigo ganhar um dinheirinho carregando os baldes que encho aqui pra casa das pessoas. Quando falta água, os moradores fazem fila nessa bica”, conta.

Para ele, a falta de banheiros públicos contribui para a utilização inadequada das bicas. “Elas têm que estar sempre limpas, porque são um ponto de apoio para quem vive e trabalha em Olinda. Muita gente precisa”, conclui.

Patrimônio oculto

Rafael Vieira/DP Foto - Bica de São Francisco está coberta por mato

Localizada no interior do Convento de São Francisco, a Bica de São Francisco é a única das quatro bicas de Olinda que não está localizada em espaço público. Ela integrava a antiga propriedade da terciária Maria da Rosa, que doou as terras para a construção do Convento de São Francisco, fundado em 1585.

Nos fundos do templo religioso, o caminho que dá para a bica encontra-se coberto por mato e inacessível ao público. À distância, em razão da vegetação, não é possível sequer visualizá-la.

Questionada pelo Diario, a Prefeitura de Olinda não se posicionou sobre eventual capinação e manutenção da Bica de São Francisco. Por meio de nota, a gestão municipal disse que realiza serviços periódicos de manutenção e limpeza nas bicas do Sítio Histórico e que suas equipes atuam, em média, a cada dez dias, na conservação delas.

Segundo a prefeitura, o acúmulo de lixo nas bicas se deve à grande circulação de pessoas em seu entorno, inclusive à utilização delas por “pessoas em situação de vulnerabilidade social para higiene pessoal e outras necessidades básicas”.

“Por serem locais de grande circulação e também utilizados por pessoas em situação de vulnerabilidade social para higiene pessoal e outras necessidades básicas, é comum o acúmulo de resíduos, o que pode comprometer o funcionamento adequado das estruturas”, continua a nota.

Em relação ao entupimento registrado pela reportagem, a prefeitura afirmou que enviará, nos próximos dias, uma equipe de drenagem para realizar uma operação de sucção e desobstrução, “com o objetivo de restabelecer plenamente o funcionamento do sistema e reforçar a manutenção da área”, conclui o posicionamento.

Sobre as bicas

As Bicas de São Pedro, Quatro Cantos e Rosário integram o Conjunto Arquitetônico, Urbanístico e Paisagístico de Olinda, inscrito pelo Iphan nos Livros do Tombo de Belas Artes, Histórico e Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico em 1968.

Também foram tombadas isoladamente pela Prefeitura, em 1985, e fazem parte do Patrimônio Mundial da Humanidade desde 1982, quando Olinda foi reconhecida pela Unesco. Já a Bica de São Francisco, localizada no interior do convento homônimo, integra o conjunto histórico e arquitetônico do Sítio Histórico de Olinda.

A evolução histórica do sítio urbano de Olinda está intrinsecamente ligada ao aproveitamento das fontes de água potável e, posteriormente, à construção de estruturas arquitetônicas apropriadas: as bicas. Por isso, a história da cidade tem como um dos componentes principais o seu sistema de abastecimento de água.