Governo entrega UTI reformada do Hospital Agamenon Magalhães em meio a alerta do TCE-PE
Requalificação da unidade de terapia intensiva ocorre no mesmo dia em que Tribunal de Contas aponta fila de pacientes para cirurgias e deficiências estruturais no hospital
Em meio a recomendações do Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco (TCE-PE) sobre fila de pacientes para cirurgias e deficiências estruturais no Hospital Agamenon Magalhães (HAM), no Recife, o Governo de Pernambuco entregou, nesta quarta-feira (12), a requalificação da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) adulto da unidade hospitalar.
O espaço requalificado, que não é uma resposta direta para as recomendações emitidas pelo acórdão do TCE-PE nesta quarta (12), é destinado a pacientes da clínica médica. A entrega de uma UTI reformada contrasta com os corredores da unidade de saúde. O repórter fotográfico do Diario flagrou corredores cheios de pacientes adultos com macas espalhadas por todos os lados.
Na UTI, entregue nesta quarta-feira (12), entre as intervenções feitas estão a troca de forro e do piso do espaço, renovação na iluminação, instalação de novos ar-condicionados e camas elétricas, além da revisão e individualização da rede de gases para cada leito.
Problemas no Hospital Agamenon Magalhães (HAM)
De acordo com a auditoria do TCE-PE, que analisou a capacidade de realização de cirurgias eletivas em 2024 no Hospital Agamenon Magalhães, foram constatados deficiências estruturais, falhas nos processos de programação e execução cirúrgica, elevado índice de cancelamentos e existência de fila de pacientes para cirurgias.
Ainda conforme o órgão, não houve evolução no desempenho geral em comparação às fiscalizações realizadas em 2023 e 2025, registrando ainda queda na produtividade e aumento no tempo de espera na fila.
Entre os problemas constatados na auditoria, destaca-se uma demanda reprimida de 2.714 pacientes esperando por cirurgias, especialmente na especialidade de Otorrinolaringologia /Cabeça e Pescoço, cujo tempo estimado de espera alcançou cerca de 29 meses.
O problema com a espera de procedimento cirúrgico também é constatado por pessoas que estavam no HAM nesta quarta (12). Uma mãe, que preferiu não se identificar, afirmou à reportagem que faz mais de um ano que a filha de dois anos espera por um implante coclear para tratar perda auditiva severa. Enquanto o procedimento não é realizado, a paciente segue fazendo tratamento com a fonoaudióloga do HAM.
Outro ponto relevante da auditoria é que dos 715 cancelamentos constatados, a maior parte, segundo TCE-PE, ocorreu por motivos internos da gestão, como falhas de planejamento e ausência de equipes médicas.
Com isso, o índice de cancelamentos do HAM atingiu 20,6% das cirurgias planejadas, percentual que supera o limite de 5% previsto no Plano Operativo Assistencial (POA).
O documento também constata falhas nos processos de gerenciamento da programação e execução das cirurgias eletivas, incluindo inconsistências nos registros, erros de programação, falhas de registro de cancelamentos e ausência de protocolos adequados de controle e monitoramento.
Problemas estruturais e falta de médicos
Com relação à estrutura física e déficit de profissionais de saúde, a auditoria constatou que quatro salas cirúrgicas estão inativadas. Também foi encontrado uma subutilização do centro cirúrgico em razão de turnos sem escala médica, atrasos relevantes no início das primeiras cirurgias do dia e descumprimento das escalas operacionais.
Com isso, a produtividade anual do centro cirúrgico correspondeu a apenas 63,5% da meta pactuada no Plano e a 63,2% da capacidade cirúrgica aferida, evidenciando uma baixa eficiência operacional.
Justificativas e recomendações
Conforme consta no acórdão do TCE-PE, as justificativas apresentadas pela gestão do HAM e pela Secretaria Estadual de Pernambuco (SES-PE), relacionadas à realização de cirurgias de urgência e emergência e à indisponibilidade de leitos de UTI, não foram suficientes para afastar as conclusões da auditoria.
De acordo com o TCE-PE, os argumentos apresentados pela gestão sobre o impacto de cirurgias de urgência e falta de leitos de UTI justificam apenas 3,57% e 0,92% dos cancelamentos, respectivamente, não explicando a baixa produtividade geral.
Por conta disso, o TCE-PE estabeleceu a SES-PE, dentro do prazo de um mês, o cumprimento de uma série de recomendações para tentar mitigar ou solucionar os problemas do HAM.
Entre algumas das recomendações, estão: formalizar documento com o planejamento de utilização, aquisição de equipamentos e outros insumos para as salas B e D do Centro Cirúrgico 1 e para duas salas do Bloquinho; contratar profissionais de saúde para esses setores; normatizar junto às clínicas médicas protocolo para o registro dos pacientes em fila; e formalizar documento de planejamento contendo estratégias concretas para minimizar as causas relacionadas aos cancelamentos cirúrgicos.
O que diz a SES-PE
Questionada sobre a recomendação do TCE-PE, a secretária de Saúde do Estado de Pernambuco, Zilda Cavalcanti, afirmou que estão sendo feitas intervenções no hospital para tentar solucionar os problemas do HAM.
“Quando a gente recebeu toda a rede de saúde em 2023, existiam muitos problemas nos blocos cirúrgicos. Os blocos cirúrgicos são um dos corações dos hospitais e é uma área nobre de extrema importância para que atenda as necessidades dos pacientes. A gente tem muitos problemas aqui nesse hospital, mas duas salas que estavam inativas já tiveram seus problemas corrigidos. O que não podemos fazer é impactar a assistência. A gente requalifica uma sala e depois, quando ela é entregue, a gente passa a requalificar outra”, explicou.
A reportagem do Diario de Pernambuco procurou a SES-PE para saber mais detalhes sobre as ações que já foram ou serão realizadas no HAM para tentar acabar ou minimizar os problemas encontrados, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.