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Avanço da erosão abre cratera na orla do Janga e preocupa moradores em Paulista

Chuvas aceleram o desgaste da faixa de areia, enquanto a orla enfrenta outros problemas, como comércio irregular, barracas que ocupam o calçadão, acúmulo de lixo e falta de fiscalização

Por Cadu Silva

Erosão na Orla do Janga, no Paulista

O avanço da erosão costeira voltou a causar preocupação na orla do Janga, em Paulista, na Região Metropolitana do Recife. Durante a madrugada e a manhã desta terça-feira (4), parte do calçadão cedeu e deu lugar a uma grande cratera às margens da praia.

O desmoronamento interrompeu a passagem de pedestres e deixou a erosão ainda mais próxima da avenida, aumentando o risco de novos desabamentos caso o mar continue avançando.

Segundo a Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac), Paulista foi o município que registrou o maior volume de chuvas nas últimas 24 horas em Pernambuco, com 104 milímetros. O acumulado contribuiu para acelerar o processo de erosão em um trecho que já apresentava sinais de desgaste.

A equipe de reportagem do Diario de Pernambuco esteve no local na manhã desta terça (4) e constatou que a cratera aumentou de tamanho. Um poste ficou tombado dentro da área atingida pela erosão e uma palmeira que existia no trecho precisou ser removida, por apresentar risco de queda.

O local foi isolado por agentes da Defesa Civil do município e quem passa pelo área é obrigado a desviar pela pista destinada aos veículos.

Ao longo de todo o percurso da orla também foi possível observar sacos de lixo espalhados pelo calçadão, resíduos acumulados em vários pontos e um grande número de barracas e trailers utilizados para a venda de alimentos e bebidas.

Morador da região há cinco anos, Graziano Rodrigues de Sá Pessoa, de 45 anos, afirma que nunca viu uma intervenção capaz de conter o avanço do mar.

“Nesses cinco anos eu não vi melhoria nenhuma. Pelo contrário. Eu vi a orla enchendo de comércios, promessas de organização, mas melhoria de verdade não teve. As ruas continuam sujas, a orla está se acabando, o mar levando tudo e a gente não vê providência nenhuma.”

Segundo ele, a erosão se agravou rapidamente. “Antes essa parte era perfeita. Não tinha isso. Eu acredito que em cerca de um ano essa área acabou. A prefeitura veio, disse que iria fazer melhorias, mas até agora não foi feito nada”, afirmou.

O maior receio do morador é que a erosão continue avançando até atingir os imóveis da região. “Minha preocupação é essa. Eu moro aqui e tenho medo de chegar um momento em que eu precise sair da minha casa. O mar está avançando cada vez mais. Já tem um poste enterrado na areia e, se nada for feito, outros também podem cair.”

Cratera interrompe passagem de pedestres

Adílio Cunha, de 44 anos, reside na orla há um ano e conta que acompanhou o avanço da erosão. “Essa erosão já vinha aumentando desde as primeiras chuvas, antes mesmo do inverno. Mas o que aconteceu nesta madrugada foi muito forte. Um grande pedaço da via foi embora.”

Segundo ele, a situação preocupa moradores e comerciantes. “A gente mora aqui em frente, tem criança, comércio e muita gente que faz caminhada. Agora ninguém consegue passar por esse trecho.” Adílio afirma temer que o problema avance para a pista onde circulam veículos.

“Se a erosão chegar na avenida, a situação fica muito mais grave. Também pode atingir as casas e os comércios.”

Comércio cresce e moradores reclamam de desorganização

Quem procura o calçadão da orla do Janga para fazer exercícios ou apenas passear precisa desviar das diveras barracas que foram colocadas na área. No chão não é mais  possível diferenciar área de pedestre ou ciclista. 

Barracões de metal estão espalhados para toda parte. E, segundo moradores, nos fins de semana a situação fica ainda pior. Além das barracas fixas há as intinerantes. Segundo relatos, a pista local também fica intransitável, com carros estacionados em locais proibidos.

O morador Graziano Rodrigues de Sá Pessoa, critica a falta de fiscalização sobre o comércio instalado na orla. “Eu sou a favor dos comerciantes, mas precisa ter organização. Tem bares que respeitam os horários, mas outros deixam o som alto durante a madrugada. Também falta limpeza. Basta olhar ao redor para ver a quantidade de lixo. O Janga não era assim.”

Adílio também relata mudanças na ocupação da orla. Segundo ele, há vendedores ambulantes que trabalham apenas nos fins de semana, mas também existem estruturas fixas que vêm aumentando ao longo da praia.

“As barracas estão se multiplicando. Cada vez aparecem mais instalações fixas.”

O morador também reclama do barulho durante a noite. “Muitas dessas barracas usam som muito alto. Quem mora aqui sofre bastante. Tenho um recém-nascido em casa. Tem idosos, crianças e ninguém consegue descansar.”

Segundo ele, mesmo após ligações para a polícia, o problema persiste. Morador da região há aproximadamente dez anos, o aposentado José Zito, de 72 anos, afirma que acompanha a transformação da orla desde antes da urbanização do trecho.

“Piorou muito. Antes tinha mais controle. Hoje você passa um dia e vê duas barracas. No outro já aparecem mais três.”

Ele também reclama da dificuldade para caminhar na orla. Conforme o relato, hoje, quem quer caminhar precisa disputar espaço com bicicletas, patinetes e barracas. Em alguns horários a passagem de pedestres é inviável.

Sobre a limpeza, o aposentado diz que a coleta existe, mas não é suficiente para evitar o acúmulo de resíduos.

“Os garis limpam de manhã, mas depois fica tudo sujo de novo. As caixas de lixo estão quebradas e muita gente joga o lixo no chão.”

Ruas também ficaram alagadas após a chuva

Além do avanço da erosão na orla do Janga, a forte chuva também provocou alagamentos em diferentes pontos de Paulista. Entre os locais mais afetados estão a Rua Belém de São Francisco e a Rua Poeta João Neves, onde moradores e comerciantes relataram dificuldades para circular e prejuízos causados pela água.

Comerciante há 15 anos na Rua Poeta João Neves, Jefferson Dias Ramos, de 46 anos, contou que encontrou a via completamente tomada pela água ao chegar para trabalhar na manhã desta terça-feira.

“Hoje estava muito alagado. A água subiu até a calçada, os carros passavam em cima da calçada e a água chegou até dentro da nossa loja.”

Jefferson, que trabalha com entrega de refeições, afirma que os alagamentos são antigos e se repetem sempre que chove forte.

“Toda vez que chove isso acontece. A gente tira foto, manda para a imprensa, mas nunca resolve. O problema é que essas canaletas vivem entupidas. Quando chove, a areia desce pela rua e tampa tudo. A água não consegue escoar.”

Segundo ele, a limpeza das canaletas deixou de ser realizada com frequência. “Nas gestões anteriores ainda aparecia alguém para limpar as canaletas de vez em quando. Nessa gestão, até agora, eu não vi esse serviço acontecer.”

O comerciante afirma que a situação prejudica o funcionamento do estabelecimento e coloca clientes e motociclistas em risco.

“Fica muito difícil trabalhar. Quando começa a chover, aparecem buracos na rua e as canaletas ficam abertas. A gente precisou colocar uma madeira para evitar que os motoqueiros caiam.”

Além dos transtornos no trânsito e no comércio, Jefferson também demonstra preocupação com os riscos à saúde.

“Fica arriscado pegar doença por causa dessa água. Além disso, fica muito lodo. Já vi várias pessoas caindo aqui por causa da lama. Quem conhece ainda vem, mas quem não conhece evita parar por causa da situação.”

O que diz a Prefeitura

A Prefeitura do Paulista informa que o município avançou nas tratativas para viabilizar, junto ao Governo Federal, os recursos necessários à execução das obras de contenção da erosão costeira em cinco pontos críticos da orla, com investimento previsto de pouco mais de R$ 24 milhões.

O projeto foi desenvolvido de forma integrada pela Defesa Civil Municipal, vinculada à Secretaria de Segurança Cidadã, Mobilidade e Defesa Civil, e pela Secretaria de Infraestrutura, a partir de levantamentos técnicos realizados nas áreas mais afetadas pelo avanço do mar.

As intervenções contemplarão um ponto na praia do Janga, dois em Pau Amarelo, um em Nossa Senhora do Ó e um em Maria Farinha, considerados os locais de maior criticidade em razão do processo de erosão costeira.

Desde o início da atual gestão, as equipes técnicas municipais vêm trabalhando na elaboração dos estudos e projetos necessários para viabilizar a obtenção dos recursos federais. Representantes da Prefeitura estiveram em Brasília para apresentar o projeto e acompanhar as tratativas junto ao Governo Federal.

Como parte desse processo, a Defesa Civil Nacional realizou vistoria técnica no município para avaliar os pontos contemplados pelo projeto. Posteriormente, em 17 de julho, equipes técnicas da Defesa Civil Nacional, da Defesa Civil Municipal e da Secretaria de Infraestrutura, realizaram uma reunião de alinhamento, na qual foram definidos os ajustes finais do projeto, incluindo sua readequação orçamentária.

O projeto prevê a execução de obras de enrocamento aderente, solução de engenharia amplamente utilizada para conter o avanço do mar, proteger a infraestrutura urbana e reduzir os impactos da erosão costeira.

Todas as etapas sob responsabilidade do Município foram concluídas, não havendo pendências por parte da administração municipal. A Defesa Civil Municipal permanece em interlocução técnica com a Defesa Civil Nacional, acompanhando os trâmites finais para formalização do convênio e liberação dos recursos federais.

Concluídas as etapas de responsabilidade do Governo Federal, a Prefeitura realizará o processo licitatório para contratação da empresa responsável pela execução das obras, conforme determina a legislação.

A expectativa da gestão municipal, condicionada à conclusão dos trâmites federais, é que as obras sejam iniciadas ainda este ano.

A intervenção representa uma solução estrutural para um problema histórico da orla de Paulista, agravado em períodos de chuvas intensas e ressacas, contribuindo para a contenção da erosão costeira, a preservação da infraestrutura urbana e a segurança da população.