° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Restauro descobre pinturas do século 18 cobertas no Mosteiro de São Bento, em Olinda

Obra estava coberta por três camadas de tinta desde o fim do século XIX e foi revelada após estudos e um delicado trabalho de restauração realizado no monumento histórico

Por Adelmo Lucena

Pintura do século XVIII é descoberta em Mosteiro de São Bento, em Olinda

Uma pintura produzida entre 1770 e 1778, que permaneceu escondida por aproximadamente 140 anos sob três camadas de tinta, foi descoberta durante as obras de restauração do Mosteiro de São Bento, em Olinda.

O painel, localizado no forro do nártex (espaço de entrada da basílica), foi revelado após um processo minucioso de conservação que envolveu pesquisas históricas, análises laboratoriais e a remoção gradual das intervenções realizadas desde o final do século XIX.

A descoberta é considerada um dos principais achados do restauro do monumento, que está em andamento desde dezembro de 2024 e tem conclusão prevista para julho de 2027.

Com 11,5 metros de comprimento por 4,6 metros de largura, a pintura apresenta balaústres ornamentados com jarros e guirlandas de flores, criando a ilusão de uma abertura para o céu, recurso típico da pintura barroca do século XVIII.

Segundo a restauradora Pérside Omena, a existência da obra só pôde ser confirmada após uma série de estudos técnicos, que também comprovaram que a pintura original permanecia preservada apesar de décadas encoberta.

“Essa pintura foi encontrada sob três camadas de tinta. Depois que realizamos os estudos, constatamos que ela estava em bom estado de conservação. Então, removemos essas camadas para revelar a pintura original, que é da segunda metade do século XVIII, provavelmente executada entre as décadas de 1770 e 1780”, explica.

“Como a obra estava preservada, fizemos a remoção cuidadosa de todas as camadas sobrepostas. Cada uma delas pertence a um período diferente e possui uma composição química específica. Por isso, cada camada precisa ser removida com solventes diferentes.”

Antes da intervenção, a equipe realizou testes para identificar quais solventes poderiam ser utilizados sem comprometer os pigmentos originais. Cada camada foi retirada separadamente, seguida de um processo de limpeza para eliminar qualquer resíduo químico, permitindo que a pintura fosse sendo revelada aos poucos.

“Todo esse trabalho exige estudos, testes e análises prévias. Precisamos ter esses resultados antes de iniciar a intervenção para atuar com segurança e garantir que o original seja preservado sem sofrer nenhum tipo de dano”, detalha a restauradora.

Para Pérside, a revelação da pintura representa um dos momentos mais importantes de todo o projeto de restauração.

“Antes do restauro, quando as pessoas entravam na igreja, a atenção ficava voltada apenas para a capela-mor, que é muito rica e totalmente dourada. Já os púlpitos, as tribunas e outros elementos estavam cobertos por sucessivas camadas de tinta. Com a remoção dessas camadas, conseguimos recuperar a leitura original da segunda metade do século XVIII. Isso trouxe uma nova harmonia para o conjunto da igreja.”

Antes da etapa de limpeza, a equipe precisou identificar as causas da degradação da edificação e tratar problemas estruturais acumulados ao longo dos séculos. Entre eles, estava o ataque de cupins às peças de madeira.

“Antes de qualquer intervenção direta nas peças, realizamos um amplo estudo histórico, análises dos materiais e a identificação das causas de degradação. Também identificamos os agentes biológicos que estavam causando danos aos elementos da igreja, como o cupim. A partir dessa identificação, utilizamos um inseticida específico para a espécie encontrada.”

Segundo ela, a equipe também realizou análises das madeiras e dos pigmentos utilizados ao longo da história da igreja para identificar quais pinturas pertenciam ao projeto original e quais foram acrescentadas em intervenções posteriores.

Após a estabilização da estrutura, teve início a etapa de limpeza dos vernizes e das tintas acumuladas ao longo do tempo. “Após a remoção desses vernizes, a pintura voltou a apresentar tonalidades muito próximas das cores originais, revelando novamente a riqueza cromática que possuía quando foi executada.”

Monumento reúne séculos de história

Fundado em 1586, o Mosteiro de São Bento de Olinda é o segundo mais antigo do Brasil, atrás apenas do mosteiro de Salvador. A construção começou por volta de 1590, mas foi destruída durante a invasão holandesa, quando um incêndio consumiu grande parte de Olinda em 1631. Apenas o arquivo da comunidade beneditina foi preservado.

Segundo o irmão Ancelmo, um dos monges do mosteiro, a reconstrução ocorreu entre 1654 e 1761, período em que o edifício ganhou características que permanecem até hoje.

“Por isso, o edifício que vemos atualmente já não corresponde apenas ao período maneirista. Ele recebeu importantes contribuições do século XVIII. A capela-mor, por exemplo, foi esculpida pelo mestre português José Garcia, a pedido do abade Frei Antônio de Vilaça. Esse altar foi inspirado no da nossa abadia-mãe, o Mosteiro de São Martinho de Tibães, em Portugal.”

Ao longo de mais de quatro séculos, o mosteiro também desempenhou papel importante na formação educacional de Pernambuco. Em 1827, abrigou as primeiras aulas do curso de Direito criado no estado e, em 1912, os monges iniciaram o projeto que daria origem à atual Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), implantando os primeiros cursos de Agronomia e Medicina Veterinária no país.

Restauração do Mosteiro

O restauro do Mosteiro de São Bento começou em dezembro de 2024 e está orçado em R$ 16 milhões, com recursos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), por meio do Novo PAC, e gestão da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe). Os serviços são executados pela empresa Grifo Diagnóstico e Preservação de Bens Culturais.

A primeira etapa foi concluída em junho deste ano, quando a nave e a capela-mor foram reabertas ao público após 18 meses fechadas. Os trabalhos prosseguem nas demais áreas do monumento, com previsão de conclusão em meados de 2027.