Livro reconta caso Maristela Just sob o olhar do filho que sobreviveu aos disparos
Em "Além das Cicatrizes", Zaldo Just relembra o assassinato da mãe, Maristela Just, relata as sequelas deixadas pelo crime e revisita a longa espera da família por justiça
Trinta e sete anos após sobreviver ao feminicídio da mãe, Maristela Ferreira Just, o escritor Zaldo Magalhães Just Neto lança, na terça-feira (21), no Recife, o livro “Além das Cicatrizes”. A obra autobiográfica reúne relatos sobre as consequências do crime ocorrido em 1989, as sequelas deixadas pelos disparos que sofreu quando tinha dois anos de idade e a tramitação judicial do caso, que resultou na condenação do autor, seu próprio pai, 21 anos depois.
No livro, Zaldo descreve a infância após o atentado, as limitações físicas decorrentes do tiro na cabeça, episódios de bullying, tratamentos médicos e a convivência da família com a espera pelo julgamento. Também apresenta informações sobre o processo judicial e dados relacionados à violência contra a mulher e ao feminicídio no Brasil.
Em entrevista ao Diario de Pernambuco, o autor afirmou que a produção da obra exigiu a consulta aos autos do processo e a documentos da época.
“Foi muito doloroso reviver tudo isso. Quando fui pesquisar o processo para escrever o livro, vi, por exemplo, a foto da biópsia da minha mãe já morta. Foi muito doloroso passar por toda essa questão, mas também foi um processo de superação.”
Segundo ele, a família materna procurou preservar ele e a irmã dos conflitos decorrentes da disputa judicial. “Apesar de termos sido vítimas diretas, nós não vivemos esse cabo de guerra. Crescemos longe desse tumulto judicial. Sempre que precisávamos, em qualquer circunstância, a família estava por perto.”
Zaldo também contou que o projeto passou por mudanças durante a escrita. Inicialmente, a publicação teria outro título. “O título inicial seria ‘O Preço de um Passado’. Percebi que podia passar uma mensagem de recuperação e de superação. Foi quando mudei tanto a capa quanto o título.”
O livro também aborda o desenvolvimento escolar, a convivência com a deficiência física, relatos de colegas sobre o período em que estudava, dificuldades enfrentadas na vida adulta e o andamento do processo judicial.
O caso
Em 4 de abril de 1989, o comerciante José Ramos Lopes Neto invadiu a casa do sogro, onde a ex-esposa morava após a separação. Segundo o processo, ele se trancou em um quarto com Maristela Ferreira Just e os dois filhos do casal.
Maristela foi morta a tiros no local e Zaldo, então com dois anos, foi baleado na cabeça, enquanto a irmã, Natália, de quatro anos, foi atingida no ombro. O irmão de Maristela, Ulisses Ferreira Just, também foi baleado ao tentar socorrer a irmã e os sobrinhos.
Zaldo permaneceu com sequelas permanentes no lado esquerdo do corpo. Natália se recuperou dos ferimentos após tratamento fisioterapêutico.
O processo permaneceu em tramitação por mais de duas décadas. Em 2 de junho de 2010, José Ramos Lopes Neto foi condenado a 79 anos de prisão pelo homicídio de Maristela e pelas tentativas de homicídio contra os dois filhos e o ex-cunhado.
A prisão do condenado ocorreu em 29 de outubro de 2021, quando ele foi localizado pelo Grupo de Operações Especiais (GOE) durante uma visita a familiares no bairro do Espinheiro, na Zona Norte do Recife. Segundo Zaldo, o autor do crime está soldo desde 2015.
Atualmente, o Centro de Referência da Mulher Maristela Just, em Jaboatão dos Guararapes, presta atendimento a mulheres em situação de violência e leva o nome da vítima.
Ao comentar o lançamento da obra, Zaldo afirmou que pretende compartilhar a experiência vivida com outras pessoas. “A mensagem que eu deixo para todos que lerem este livro é que tudo passa. Por mais complicado que seja o momento que você esteja vivendo, isso vai passar, e você consegue superar.”