Presa por maus-tratos a animais no Recife culpa crise financeira: "Dediquei minha vida ao cuidado"
Animais foram encontrados em situações degrdantes em um imóvel em jardim São Paulo, na Zona Oeste da capital. Dona do abrigo disse que enfrentou problemas financeiros e perda de doações
A mulher presa em flagrante por maus-tratos contra mais de 40 animais no bairro de Jardim São Paulo, na Zona Oeste do Recife, afirmou em depoimento à Polícia Civil que o estado de desnutrição dos cães era consequência de uma grave crise financeira enfrentada pelo abrigo após as enchentes que atingiram a capital. Ela alegou que “sempre dedicou sua vida ao cuidado e ao acolhimento de animais.”
Segundo a responsável pelo empreendimento Transpet, ela perdeu clientes, passou a depender de doações e não tinha recursos suficientes para manter os animais nas condições adequadas. A investigada negou qualquer intenção de maltratar os bichos e alegou que sempre fez “todo o tratamento possível dentro de suas limitações orçamentárias”.
O interrogatório integra o inquérito policial instaurado após a operação da Delegacia do Meio Ambiente (Depoma) e do Gabinete de Proteção Animal da Prefeitura do Recife, realizada na terça-feira (14).
Durante a fiscalização, os agentes encontraram mais de 40 animais distribuídos em quatro imóveis da Rua Alvenópolis. Um cão e um gato estavam mortos, enquanto outro cachorro foi resgatado em estado agonizante e levado às pressas para atendimento veterinário.
À polícia, a dona do abrigo declarou que mantém a Transpet desde 2020 apenas com registro de CNPJ, sem licença ou alvará expedido pelos órgãos competentes. Ela afirmou que o espaço funcionava como lar temporário, cobrando R$ 300 mensais por animal hospedado, além de realizar repasses para adoção.
A investigada relatou ainda que sua residência foi atingida pelas enchentes que afetaram o bairro de Jardim São Paulo, provocando perdas materiais e agravando sua situação financeira. Segundo ela, amigos passaram a doar alimentos destinados tanto à família quanto aos animais, além de móveis.
Ainda de acordo com o depoimento, denúncias divulgadas nas redes sociais durante esse período fizeram com que ela perdesse boa parte da clientela, reduzindo ainda mais a arrecadação do abrigo.
Questionada sobre os animais encontrados extremamente magros, a mulher afirmou que muitos já chegaram ao abrigo debilitados, doentes e desnutridos após serem resgatados das ruas ou entregues por tutores que não custeavam os tratamentos. Ela atribuiu o baixo peso dos cães à falta de recursos financeiros e sustentou que prestava toda a assistência possível dentro de suas condições.
Em relação ao cão encontrado morto, a mulher declarou que o animal havia morrido pouco antes da chegada da fiscalização, em decorrência de complicações da chamada “doença do carrapato”, e que não houve tempo para realizar o recolhimento do corpo.
Sobre a cadela encontrada em estado gravíssimo, ela afirmou que se tratava de um animal idoso, debilitado e com suspeita de câncer, acrescentando que pretendia levá-la ao veterinário naquele mesmo dia. Segundo o depoimento, ela realizava a limpeza do imóvel antes de sair quando a equipe de fiscalização chegou ao local.
Por fim, a mulher negou ter cometido maus-tratos de forma deliberada. Disse que jamais praticou omissão, agressão ou negligência voluntária contra os animais e sustentou que os problemas estruturais encontrados no abrigo eram resultado exclusivamente da escassez de recursos financeiros.
O que a fiscalização encontrou
A versão apresentada pela investigada contrasta com os relatos dos fiscais e policiais que participaram da operação. No auto de prisão em flagrante, a equipe descreveu um cenário de extrema insalubridade, com acúmulo de fezes e urina, forte odor, animais infestados por pulgas e carrapatos, além de diversos cães com magreza extrema.
Também foram encontrados um cão preso por corrente curta, uma cadela morta recentemente, outra em estado comatoso deitada sobre os próprios dejetos e o corpo de uma gata no quintal de um dos imóveis.
A médica veterinária que participou da ação informou que 38 animais, 36 cães e duas gatas, foram apreendidos pelo Gabinete de Proteção Animal. Já o fiscal que acompanhou a inspeção afirmou que a cadela socorrida apresentava miíase quando foi encaminhada ao Hospital Veterinário do Recife.
A dona do abrigo foi autuada em flagrante pelo crime de maus-tratos a cães e gatos, previsto na Lei de Crimes Ambientais, passou por audiência de custódia nesta quarta-feira (15) e responderá em liberdade. O caso segue sob investigação da Delegacia do Meio Ambiente.