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Em meio a obras, a Casa do Estudante terá repasse de verba estadual de R$ 2,8 milhões para manutenção

A autorização do repasse foi publicada no Diário Oficial do estado nesta quinta-feira (25); o valor é direcionado aos custos de manutenção das atividades administrativas e educacionais da Casa do Estudante de Pernambuco

Por Cadu Silva

Em meio a obras, a Casa do Estudante terá repasse de verba estadual de R$ 2,8 milhões para manutenção

A Casa do Estudante de Pernambuco (CEP), localizada na Rua Henrique Dias, no bairro do Derby, área central do Recife, deve receber do Governo de Pernambuco um aporte de R$ 2.835.000 para ajudar a custear as despesas de manutenção das atividades administrativas e educacionais da instituição.

A autorização para o repasse foi publicada na edição desta quinta-feira (25) do Diário Oficial do Estado. Conforme a lei, o recurso será repassado em seis parcelas, ao longo de 12 meses, por meio de contrato de gestão firmado entre o Estado e a entidade.

Na manhã desta sexta-feira (26), a equipe de reportagem do Diario de Pernambuco visitou o edifício para acompanhar a situação da estrutura do prédio e os principais desafios enfrentados pela casa.

Com quase 95 anos de existência, a Casa do Estudante de Pernambuco é uma das instituições de assistência estudantil mais tradicionais do estado. Atualmente, cerca de 245 estudantes fazem parte da entidade. Destes, aproximadamente 150 moram no prédio principal, enquanto outros utilizam os serviços oferecidos pela instituição, como restaurante, biblioteca, atendimento odontológico, psicológico, médico, atividades esportivas e salas de estudo.

Durante a visita, a reportagem encontrou o terceiro andar em obras. O espaço passa por uma ampla reforma, com recuperação do telhado, reforço da estrutura da laje e revitalização da sala de estudos, que permaneceu fechada durante anos devido às infiltrações.

Algumas janelas foram retiradas temporariamente para permitir a execução dos serviços, e ainda foi possível observar pequenos pontos de infiltração e rachaduras que serão corrigidos antes da entrega da obra.

Segundo o presidente da Casa do Estudante, Gabriel Souza, quando assumiu a gestão, há pouco mais de um ano, a situação era ainda mais delicada.

“Quando cheguei, a casa praticamente não tinha condições de manutenção. O telhado apresentava muitos problemas, havia infiltrações e não existiam recursos para realizar reformas. Aos poucos conseguimos mudar essa realidade.”

Ele explica que o valor autorizado pelo Governo é fundamental para garantir o funcionamento da instituição, mas ainda está longe de suprir todas as despesas.

“Esse recurso é uma obrigação do Estado prevista em lei e renovada todos os anos. O novo contrato teve apenas o reajuste do IPCA. É um dinheiro essencial, mas ainda insuficiente para atender todas as demandas da casa.”

Segundo Gabriel, a maior preocupação da administração é que o contrato precisa ser renovado anualmente e, historicamente, esse processo costuma atrasar.

“No ano passado, por exemplo, o contrato venceu e demorou cerca de dois meses para ser renovado. Nesse período ficamos sem conseguir pagar o auxílio alimentação dos estudantes e tivemos dificuldades até para manter a folha de pagamento dos funcionários.”

Além das despesas administrativas, parte do recurso é destinada ao pagamento do auxílio alimentação oferecido aos moradores da instituição.

Atualmente, cada estudante recebe R$ 518 mensais. Apesar do reajuste previsto, Gabriel considera o benefício insuficiente para cobrir as refeições durante todo o mês. “Nosso restaurante oferece uma das refeições mais baratas da região do Derby. Mesmo assim, fazendo uma conta simples de café da manhã, almoço e jantar, esse valor não dura o mês inteiro.”

Segundo ele, despesas como contas de água e energia elétrica continuam sendo pagas com outras fontes de recursos.

 

Falta de recursos limita melhorias

Durante a visita aos quartos, a reportagem constatou a presença de mofo em algumas paredes. A Casa fornece camas, colchões e guarda-roupas aos moradores. Já equipamentos como geladeiras e fogões são adquiridos pelos próprios estudantes.

Segundo o coordenador de infraestrutura do prédio, André Vinícios, de 25 anos, essa realidade mudou ao longo dos anos por causa da redução dos recursos disponíveis.

“Antigamente existia uma estrutura diferente para alimentação. Com o tempo, por falta de verba, os estudantes passaram a providenciar alguns equipamentos por conta própria.”

Gabriel Souza reforça ainda que os problemas estruturais encontrados atualmente não são resultado de depredação. "Os estudantes cuidam muito bem da casa. O que realmente faltou durante muitos anos foi investimento em manutenção.”

Segundo André Vinícios, a recuperação do terceiro andar está na fase final.

“A estrutura do telhado já foi praticamente concluída. Agora estamos finalizando pequenos reparos, recolocando as janelas e preparando os quartos para receber novamente os moradores.”

Ele explicou que, durante a execução da obra, os estudantes do terceiro andar precisaram ser redistribuídos entre os demais pavimentos, aumentando temporariamente a quantidade de moradores por quarto.

Os dormitórios variam de tamanho. Alguns acomodam duas ou três pessoas, enquanto os maiores chegam a receber até seis moradores.

De acordo com André, décadas atrás alguns quartos chegaram a abrigar até 20 estudantes, realidade bastante diferente da atual.

A reportagem também visitou a sala de estudos, que passa por reforma completa e deverá voltar a funcionar após a conclusão da obra. Outro ponto observado foi o elevador da instituição, que permanece desativado há vários anos.

Convivência é apontada como um dos diferenciais

Natural de Tabira, no Sertão pernambucano, o estudante de Direito Algones Rodrigues da Silva mora na instituição e afirma que o ambiente é um dos principais diferenciais da Casa.

“A convivência é muito boa. Todo mundo se respeita e, quando precisamos falar com a administração, conseguimos resolver tudo sem burocracia.”

Segundo ele, as reformas representam um avanço importante. “O que precisava ser resolvido está sendo recuperado.”

Já o estudante Éwerton Kauã, de 19 anos, natural de Bonito e aluno do curso de Geografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), chegou à Casa no fim do ano passado.

“Eu precisava de um lugar para morar e continuar estudando. Aqui encontrei essa oportunidade.”

Ele conta que, por causa da reforma do terceiro andar, seu quarto passou a receber mais moradores temporariamente. “Antes dividia o quarto com apenas uma pessoa. Agora somos quatro, mas é uma situação temporária até a conclusão da obra.”

Mesmo assim, avalia positivamente a estrutura da instituição. “A convivência é tranquila, existem regras e organização. A sala de estudos, a quadra e os demais espaços ajudam muito quem precisa conciliar moradia e faculdade.”

Primeiro prédio feminino da história

Uma das principais mudanças vividas pela instituição será a inauguração do primeiro prédio feminino desde a fundação da Casa do Estudante.

Atualmente, as estudantes utilizam espaços adaptados na antiga biblioteca da instituição. Com a conclusão das obras, cerca de 40 mulheres passarão a morar em um prédio exclusivo, localizado nos fundos da sede principal.

O imóvel que antes pertencia ao Governo do Estado e estava sem utilização desde 2012, recebeu a reforma graças a uma emenda parlamentar da deputada estadual Socorro Pimentel (PSD).

Segundo Gabriel, outra emenda, no valor de R$ 150 mil, deverá ser utilizada para comprar camas, guarda-roupas e demais móveis necessários para equipar o novo prédio.

“Depois de quase 95 anos de história, a Casa do Estudante finalmente terá um prédio feminino. É uma conquista muito importante para a instituição.”

Apesar disso, ele alerta que a ampliação também aumentará as despesas.

“Vamos precisar de mais segurança, além de um consumo maior de água e energia. Esses custos não estão contemplados no contrato de subvenção.”

Com a conclusão da reforma do terceiro andar e a inauguração do prédio feminino, a expectativa da administração é ampliar a capacidade de atendimento e oferecer melhores condições aos estudantes que deixam o interior de Pernambuco em busca de formação superior na capital.

Ao mesmo tempo, a direção afirma que a manutenção da instituição continuará dependendo da regularidade dos repasses estaduais e da busca por novos recursos para garantir melhorias estruturais e ampliar a assistência aos moradores.