Processo de tombamento do Teatro Valdemar de Oliveira avança enquanto prédio segue abandonado no Recife
A confirmação do processo de tombamento do Teatro Valdemar de Oliveira, localizado no bairro da Boa Vista, área central do Recife, foi divulgado na manhã desta sexta-feira (12), pela Fundarpe
O processo de tombamento do Teatro Valdemar de Oliveira, um dos espaços mais importantes da história cultural de Pernambuco, segue em tramitação. A confirmação foi divulgada na manhã desta sexta-feira (12), pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe).
Enquanto a análise técnica necessária para a conclusão do processo ainda está sendo elaborada, o imóvel permanece em estado de abandono no bairro da Boa Vista, área central do Recife, acumulando danos estruturais, sinais de invasão e consequências de anos de deterioração.
Em resposta ao Diario de Pernambuco, a Fundarpe informou que a Diretoria de Preservação do Patrimônio Cultural (DPPC) está desenvolvendo o Exame Técnico de Tombamento do imóvel. O documento servirá de base para a análise e posterior deliberação do Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural (CEPPC), instância responsável pela decisão final sobre o reconhecimento do bem como patrimônio cultural do Estado.
Segundo a fundação, o parecer técnico ainda não foi concluído. O órgão afirma que, apesar da grande quantidade de processos em tramitação na Diretoria de Preservação, o caso do Teatro Valdemar de Oliveira vem recebendo atenção prioritária diante de sua relevância histórica e cultural. Ainda assim, não há previsão para a conclusão definitiva do processo.
Mesmo sem uma decisão final, o imóvel já possui proteção legal. Conforme prevê a legislação estadual, desde a abertura do processo de tombamento o teatro passou a contar com o mesmo regime de preservação aplicado aos bens oficialmente tombados, situação que permanece válida até o encerramento da análise.
A discussão sobre o futuro do teatro ocorre em meio a um cenário cada vez mais preocupante de degradação física.
Mais de cinco anos após o encerramento das atividades e pouco mais de um ano após o incêndio, o prédio continua sem sinais concretos de recuperação.
Vistoria apontou necessidade de medidas emergenciais
Conforme a Fundarpe, a última vistoria ocorreu em 2025 e reforçou alertas já feitos anteriormente pela Defesa Civil do Recife sobre os riscos existentes no imóvel.
De acordo com o órgão estadual, foram identificadas diversas necessidades de intervenção emergencial para evitar o agravamento dos danos estruturais e garantir a preservação do que ainda resta da edificação.
Entre as medidas recomendadas estão a recuperação do travamento das empenas e das alvenarias laterais de grande altura, o isolamento completo da área, a recomposição da cobertura do prédio, a retirada de entulhos, a drenagem da água acumulada e a dedetização do imóvel.
Também foi solicitada a recuperação estrutural dos elementos comprometidos e a apresentação de uma Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), documento elaborado por profissional habilitado para atestar as condições de estabilidade da construção.
Além dessas providências, a Fundarpe solicitou a instalação de sinalização de alerta para informar sobre os riscos existentes no local e a elaboração de estudos e laudos atualizados sobre o estado de conservação da estrutura.
Apesar das recomendações, o órgão informou que, até o momento, não foram apresentados projetos, planos ou estudos de recuperação por parte dos responsáveis pelo imóvel.
A Fundarpe informou ainda que uma nova fiscalização será realizada para verificar as condições atuais da edificação e avaliar se houve cumprimento das solicitações encaminhadas anteriormente.
Reportagem encontrou cenário de abandono
Na última segunda-feira (8), a equipe do Diario de Pernambuco esteve no Teatro Valdemar de Oliveira e encontrou um cenário que evidencia o avanço da degradação.
Logo na chegada, era possível observar pontos de alagamento em frente ao imóvel, consequência das recentes chuvas registradas na capital pernambucana. O casarão apresentava paredes completamente pichadas, acúmulo de lixo, entulhos espalhados e sinais evidentes de vandalismo.
O forte odor de esgoto chamava a atenção de quem passava pelo local.
A situação também indicava possível ocupação irregular. Em uma das janelas da sacada externa havia uma cortina improvisada, sugerindo a presença de moradores no interior da estrutura.
Durante a visita da reportagem, três pessoas, incluindo uma mulher e dois homens, um deles empurrando uma bicicleta, entraram no prédio abandonado. Um cachorro também circulava livremente pelo local.
Processo enfrenta contestação dos proprietários
O pedido de tombamento do Teatro Valdemar de Oliveira foi apresentado em dezembro de 2022 pelo grupo cultural João Teimoso, por meio do diretor Oséas Borba, também coordenador do Movimento Guerrilha Cultural.
Após a abertura do processo e a realização das etapas administrativas previstas na legislação estadual, os representantes do Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), entidade proprietária do imóvel, apresentaram uma impugnação formal ao tombamento.
Segundo a Fundarpe, a contestação foi encaminhada ao autor da proposta, que se manifestou favoravelmente à manutenção do pedido. Com isso, o processo seguiu para a fase atual de elaboração do exame técnico.
Os representantes do TAP defendem que o imóvel seja recuperado e volte a funcionar como equipamento cultural. O grupo argumenta que o tombamento pode dificultar negociações em andamento voltadas à revitalização do espaço.
Em entrevistas anteriores, Yeda Bezerra de Mello, neta de Valdemar de Oliveira e uma das representantes da entidade, afirmou que o grupo mantinha negociações com mais de uma empresa interessada em participar do processo de recuperação.
Yeda também relembrou as dificuldades enfrentadas pelo espaço nos últimos anos. Ela destacou que, após uma interdição determinada pelo Ministério Público em 2015 por questões de acessibilidade, foram realizados esforços para adequar o imóvel e retomar as atividades.
De acordo com a representante do TAP, a recuperação em curso acabou sendo interrompida pela pandemia da Covid-19, em 2020, quando o equipamento teve de ser fechado.
Ministério Público acompanha situação do imóvel
O estado de abandono do teatro também motivou a atuação do Ministério Público de Pernambuco (MPPE). Em maio de 2024, o órgão instaurou o Procedimento Administrativo nº 02019.000.763/2024-0008 para apurar a situação do imóvel.
Na portaria que determinou a abertura da investigação, o promotor Sérgio Gadelha Souto destacou que a preservação do patrimônio cultural é uma obrigação do poder público e da sociedade, independentemente da existência de tombamento.
O documento ressalta ainda que determinados bens podem possuir relevância histórica e cultural por sua relação com a memória coletiva, mesmo sem apresentar características monumentais.
A denúncia que originou o procedimento foi apresentada pelo grupo João Teimoso, que relatou ao Ministério Público episódios de invasão, furtos, roubos e depredações registrados desde o fechamento do teatro durante a pandemia.
A Fundarpe confirmou que acompanha o procedimento e já prestou informações ao MPPE sobre o andamento do processo de tombamento e as providências adotadas junto aos responsáveis pelo imóvel.
Incêndio agravou destruição
O episódio mais grave da recente trajetória de abandono do teatro ocorreu em 7 de fevereiro de 2024. Por volta das 5h da manhã, o Corpo de Bombeiros foi acionado para combater um incêndio que atingiu a estrutura do prédio.
As chamas destruíram parte significativa da área já comprometida por invasões e depredações. A sala de espetáculos foi a mais atingida pelo fogo. A Biblioteca Samuel Campelo também sofreu danos severos.
O espaço guardava livros, textos, revistas especializadas, correspondências, coleções, enciclopédias e documentos relacionados à história do teatro pernambucano. Apesar da destruição, não houve registro de vítimas.
Um patrimônio da cultura pernambucana
O Teatro Valdemar de Oliveira foi inaugurado em 1971 com o nome de Nosso Teatro, na Praça Oswaldo Cruz, no bairro da Boa Vista. O espaço nasceu por iniciativa do Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), grupo fundado em 1941 pelo médico, escritor, ator e músico recifense Valdemar de Oliveira.
Após a morte do fundador, em abril de 1977, o equipamento passou a receber seu nome. Ao longo de décadas, o TAP se tornou referência nacional pela formação de artistas, pela profissionalização de atores e pela abertura a diferentes experimentações e linguagens cênicas.
O grupo manteve atividades permanentes em sua sede por décadas e ajudou a consolidar parte importante da história do teatro pernambucano.
O imóvel já havia enfrentado outro grande incêndio em outubro de 1980, provocado por um curto-circuito na iluminação do palco. Na ocasião, as chamas atingiram a sala principal, mas o espaço foi recuperado e voltou a funcionar.
A reportagem do Diario de Pernambuco procurou os proprietários e responsáveis pelo Teatro Valdemar de Oliveira para comentar o atual estado de conservação do imóvel, as negociações voltadas à recuperação do espaço e o andamento das discussões sobre seu futuro, mas não obteve retorno. O espaço segue aberto para atualização.