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Pela quinta vez, Pernambuco registra ataques de tubarão em dias consecutivos

Casos registrados em Piedade e Boa Viagem, com pouco mais de 24 horas de diferença, repetem um padrão raro, mas já observado outras quatro vezes no litoral pernambucano; Estado soma 84 incidentes com tubarões desde o início do monitoramento

Por Cadu Silva

Placa de alerta na Praia de Piedade, onde menino de 11 anos foi mordido por tubarão

Os dois incidentes envolvendo tubarões registrados em pouco mais de 24 horas na Região Metropolitana do Recife não representam um episódio isolado na história do litoral pernambucano. Desde o início do monitoramento oficial dos ataques, em 1992, pelo menos cinco situações semelhantes já foram contabilizadas, com ocorrências registradas em dias consecutivos ou até mesmo no mesmo dia.

O caso mais recente ocorreu entre o domingo (31) e a segunda-feira (1º). No primeiro incidente, um menino de 11 anos foi atacado por um tubarão na Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes. Pouco mais de 24 horas depois, a estudante de Direito Marcela Vitória de Lima Santos, de 19 anos, foi mordida na perna enquanto tomava banho de mar na Praia de Boa Viagem, no Recife.

O primeiro registro de ataques em datas consecutivas ocorreu em julho de 1994. Em 8 de julho, um surfista foi atacado na área conhecida como Castelinho, em Boa Viagem, e sobreviveu. No dia seguinte, 9 de julho, um banhista foi atacado no mesmo trecho e morreu.

Ainda em 1994, a situação voltou a se repetir. Em 17 de outubro, um surfista sofreu um ataque na área da Igrejinha, em Piedade. No dia seguinte, 18 de outubro, outro surfista em uma área não identificada. Ambos sobreviveram.

Dois anos depois ocorreu um caso ainda mais incomum. Em 28 de outubro de 1996, dois ataques foram registrados no mesmo dia, nas proximidades do restaurante Costa do Sol, em Boa Viagem. As ocorrências permanecem como o único episódio oficialmente registrado de dois incidentes no mesmo dia no litoral pernambucano.

A repetição de ataques em datas sequenciais voltou a ser registrada em maio de 2004. Em 22 de maio, um banhista foi atacado nas proximidades do Hospital da Aeronáutica, em Piedade. Já no dia 23 de maio, outro incidente ocorreu na área da Igrejinha. As duas vítimas sobreviveram.

Quase duas décadas depois, o cenário volta a se repetir. Em março de 2023, dois banhistas foram atacados em dias consecutivos na Praia de Piedade. O primeiro caso ocorreu em 5 de março, na área da Igrejinha. O segundo foi registrado em 6 de março, nas proximidades de Golden Beach. Ambos sobreviveram aos ferimentos.

Agora, em 2026, a sequência volta a chamar a atenção das autoridades e dos pesquisadores. Além da proximidade temporal entre os dois casos, os incidentes ocorreram em praias distintas da faixa litorânea da Região Metropolitana, reforçando a necessidade de acompanhamento científico e atenção às recomendações de segurança.

Boa Viagem e Piedade concentram maior número de casos

Dados atualizados do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit) apontam que Pernambuco contabiliza atualmente 84 incidentes envolvendo tubarões desde 1992.

Com o ataque registrado contra o menino de 11 anos no último domingo, a Praia de Piedade chegou a 24 ocorrências. Já Boa Viagem, contabiliza 25 incidentes após o ataque envolvendo a jovem de 19 anos. As duas praias lideram o histórico estadual de incidentes.

Segundo o Cemit, dos 84 casos contabilizados, 70 ocorreram no Grande Recife e outros 14 em Fernando de Noronha.

Apesar de Piedade concentrar um dos maiores históricos de ocorrências, o trecho onde o menino foi atacado nunca havia registrado um incidente anteriormente. O local fica a aproximadamente 1,8 quilômetro da área onde o banho de mar é proibido por decreto municipal.

Ataques podem ocorrer em áreas rasas

Segundo o engenheiro de pesca e pesquisador da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Paulo Oliveira, as ocorrências demonstram que a profundidade da água não é um fator de proteção.

“Se o tubarão tem cerca de 50 centímetros de altura e existe essa profundidade disponível, ele consegue se deslocar. Não existe uma profundidade mínima para a ocorrência de incidentes”, explicou.

De acordo com o pesquisador, a combinação entre maré alta, água turva provocada pelas chuvas e a proximidade do estuário do Rio Jaboatão criou condições favoráveis para a aproximação do animal da faixa de areia.

“O tubarão-cabeça-chata ocorre comumente em regiões estuarinas e nas suas proximidades. Esses animais vivem nessa região e costumam nadar para além do estuário”, afirmou.

Paulo Oliveira destaca ainda que a espécie possui comportamento investigativo e consegue detectar movimentações na água mesmo em condições de baixa visibilidade.

“Eles são muito investigativos. Em condições de água turva, conseguem perceber aquilo que está na água mesmo sem serem vistos”, disse.

Placas de alerta

Conforme a secretária executiva de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco, Denise Alves, a existência das placas já indica que o local possui fatores conhecidos de risco.

“O banhista precisa entender que quando existe uma placa é porque existe um risco. Ela orienta a evitar o banho durante a maré alta, em áreas de mar aberto, quando a água estiver turva, quando houver ferimentos no corpo ou utilização de objetos brilhantes”, afirmou.

A secretária ressaltou que tanto o tubarão-cabeça-chata quanto o tubarão-tigre frequentam águas rasas e podem se aproximar da faixa de areia em busca de alimento.

“Eles não medem profundidade para buscar alimento. Não é água no joelho, não é água na cintura. Em locais onde sabemos que essas espécies ocorrem, a recomendação é evitar entrar no mar aberto”, destacou.