Moradores de Santa Cruz do Capibaribe explicam por que o bolsonarismo é forte na cidade
Polo de confecções, Santa Cruz do Capibaribe foi a única cidade de Pernambuco onde Flávio venceu Lula no primeiro turno em 2026 e onde Jair Bolsonaro também ficou em primeiro lugar em 2022 e em 2018
São 10 horas da manhã de uma quinta-feira ensolarada e dezenas de carregadores, com as camisas ensopadas de suor, despacham incontáveis volumes de mercadorias em carros de passeio e ônibus com placas de todo o país. Estamos no Moda Center de Santa Cruz do Capibaribe, no Agreste de Pernambuco, uma espécie de sulanca gourmet criada há 20 anos para atender à demanda por escoamento do polo de confecções local, o segundo maior do Brasil, de acordo com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). A baixa umidade contribui para a sensação de abafamento no interior da estrutura, onde a comerciante Vânia Santos, entre um abanar de mãos e outro, garante que as vendas caíram durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
“O que a gente vê é o comércio acabando por causa do PT. Bolsonaro entrando, as coisas vão melhorar”, afirma.
A declaração é quase um lugar-comum nos corredores intermináveis do Moda Center, a despeito da circulação frenética de visitantes no exterior febril da estrutura. Por lá, especula-se que os negócios melhoraram durante a pandemia de Covid-19, na esteira do comércio online, feito que alguns atribuem ao Governo Bolsonaro. Nesse sentido, fora Vânia, quase nenhum sulanqueiro abordado pela reportagem mencionou as palavras “Deus”, “pátria” ou “família” para justificar os votos no bolsonarismo.
“O que eu queria do mundo, eu vou ser bem sincera, era que as pessoas se convertessem a Deus. Bolsonaro disse que, na hora que ganhar, vai se ajoelhar e vai agradecer a Deus”, diz a empreendedora, com os olhos marejados, ao ser questionada a respeito de seus sonhos para o país.
Há 15 anos na sulanca, Vânia comercializa os moletons que produz com o apoio da família, por impressionantes R$ 30 por calça. O tecido é produzido na região e trabalhado com o apoio das chamadas “facções”, comumente constituídas por núcleos familiares do pólo de confecções, responsáveis por fazer a costura dos produtos. Na cidade vizinha, Toritama, é comum observar a presença de pessoas nas garagens e calçadas de casa, trabalhando em jornadas de até 14 horas nas confecções, quase sempre em regime de informalidade.
“A gente faz o corte em casa e manda para as facções. Tem gente que pensa que o lucro fica bom, mas quando você vai comprar tecido, por causa dos impostos, sai muito caro”, reclama Vânia.
Descrente na política, o comerciante Lourival José da Silva é mais sucinto ao justificar o voto em Flávio Bolsonaro no primeiro turno. “Sempre gostei do Governo Bolsonaro porque ele, quando o comércio parou na pandemia, deu o auxílio de R$ 600”, comenta.
Criado em 2020, o benefício foi direcionado a trabalhadores informais, autônomos, microempreendedores individuais (MEIs) e desempregados durante a emergência sanitária. Inicialmente, o ex-presidente Bolsonaro sugeriu que o valor fosse de R$ 200, limitado a trabalhadores informais, durante três meses, mas, após pressão da oposição no Congresso, o valor foi triplicado.
“Minha leitura é muito pouca. Nessa época, foi minha filha que colocou as coisas para vender na internet. Deu certo, mas não me acostumei muito não”, diz Lourival, que não completou o ensino fundamental.
No celular, o comerciante também recebeu conteúdos atribuídos a veículos de informação relativos a uma suposta intenção do presidente Lula de acabar com o Pix. Ele não sabe indicar a fonte da informação, nem tem certeza se o conteúdo é verdadeiro. “Ele [Lula] quer que a gente pague imposto de todo jeito. A gente tem medo de acabar o Pix, porque deu muito certo. Eu mesmo gostei e não paga imposto nenhum”, acrescenta.
Queda nas vendas
O comerciante Fernando Alves confessa que mudou de posicionamento durante o governo Lula. Antes eleitor do atual presidente, ele anda descontente com as vendas nos últimos quatro anos e também acredita que essa é uma conclusão geral na cidade.
“Lula teve quase 2 mil votos a menos no primeiro turno desse ano. Quero mudar de governo para ver se o comércio gira. Se não melhorar, a gente elege outro depois”, resume.
Fernando comercializa elásticos para o todo país e, apesar de reconhecer a crise humanitária causada pela Covid-19, confessa que a queda na demanda por máscaras diminuiu as vendas. “Nunca tinha visto o dinheiro que vi na pandemia”, ressalta.
Camisa 22
Pelas principais ruas de Santa Cruz do Capibaribe, quase ao meio-dia, a vida aparenta ser pacata. Mototaxistas descansam à espera de passageiros, trabalhadores descarregam fardos de tecidos nas lojas e vendedores conversam nos canteiros. À primeira vista, a movimentação parece incompatível com as taxas de criminalidade do município.
Entre janeiro e setembro deste ano, a cidade registrou 431 ocorrências de roubos e furtos, o sexto maior quantitativo de Pernambuco, segundo dados da Secretaria de Defesa Social (SDS). Entre as mortes violentas intencionais no ano de 2025, Santa Cruz do Capibaribe somou 31 ocorrências, ficando em 31ª lugar no ranking estadual.
“A questão da segurança pública está se perdendo muito e é muito importante a atuação do governo federal para dar suporte aos governos. O crime organizado está muito estruturado”, opina o vendedor de roupas Flávio Ferreira de Lima, que concilia a atividade com trabalhos esporádicos como terapeuta de análise de comportamento.
Contrário à pena de morte, Flávio defende a redução da maioridade penal em crimes hediondos. “A partir de 16 anos já seria bom. Pena de morte não funciona, porque não confio na Justiça brasileira”, explica.
Bolsonarista convicto, ele atende os clientes vestindo uma camisa amarela da seleção brasileira de futebol, com a inscrição “Flávio 22” na parte de trás. Calmamente, Flávio explica que o nome está na camisa porque também é o seu, mas deixa claro que se identifica com a política econômica adotada pelo Governo Bolsonaro, expressando especial admiração pelo ex-ministro da Economia Paulo Guedes.
“Paulo Guedes fez um trabalho excelente, porque atravessou uma pandemia que foi muito complicada em muitos países. Teve aquela alta do petróleo e muitas nuances. Todo mundo em Santa Cruz vendeu mais no Governo Bolsonaro”, opina.
Para ele, a dinâmica econômica peculiar de Santa Cruz do Capibaribe, com grande número de empreendedores, e não a conjuntura política local, explica o resultado eleitoral da cidade. Durante o primeiro turno das eleições, o prefeito Helinho Aragão (PSD), seguiu a diretriz da governadora Raquel Lyra, do mesmo partido, e permaneceu neutro quanto ao pleito presidencial. Ele foi procurado pela reportagem para entrevista sobre o tema, mas informou que não estava na cidade no dia da visita do Diario.
“Tudo aqui gira em torno do comércio. Se o comércio vai bem, as pessoas vão junto. Isso criou uma mentalidade diferente em Santa Cruz”, defende Flávio.