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TRE pede à Meta rastreio do documento falso da PF divulgado por Nikolas

Decisão determina que empresa apresente registros de acesso, IPs e informações sobre publicação de perfis envolvidos na circulação do material atribuído à Polícia Federal. O X também deve fornecer registros

Por Estado de Minas

Nikolas Ferreira foi o deputado mais votado de Minas Gerais no último 4 de outubro

O Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG) determinou que a Meta forneça, no prazo de três dias, registros de acesso, endereços de IP e outros dados relacionados a perfis envolvidos na circulação de um documento falso atribuído à Polícia Federal e divulgado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). A medida busca esclarecer a origem do arquivo e reconstruir a cadeia de disseminação do material. A decisão judicial também atinge a rede social X (antigo Twitter). Entenda mais abaixo.

A Polícia Federal (PF) confirmou ao Estado de Minas, em 4 de setembro, que é falso o relatório que circulou nas redes sociais afirmando que a corporação não teria encontrado indícios de crime nas conversas entre o deputado federal e o empresário Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Relembre o teor da conversa no fim da reportagem.

A decisão foi assinada nesta terça-feira (6) pelo relator da ação, desembargador Sálvio Chaves, no âmbito de uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) movida pelo deputado federal Rogério Correia (PT-MG) contra Nikolas.

O processo apura possíveis práticas de abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, o que pode resultar em cassação e inelegibilidade por oito anos. Segundo a decisão, a falsidade do documento já é considerada um fato incontroverso no processo.

Agora, o TRE-MG busca avançar na apuração sobre quem produziu o arquivo, como ele começou a circular e quais perfis participaram da disseminação.

A plataforma Meta deverá apresentar informações técnicas relacionadas aos perfis envolvidos na publicação, entre eles @nikolasferreirateam e @easyfatos. Entre os dados solicitados estão registros de acesso e endereços de IP, além de informações referentes ao envio original da imagem.

O tribunal também determinou que a Meta apresente o arquivo original publicado pelo perfil @easyfatos, quando disponível, e informe as datas e horários exatos de publicação e eventual retirada do conteúdo.

Em relação à publicação feita por Nikolas, a empresa deverá fornecer dados como horários de publicação e remoção, além de informações sobre visualizações, alcance, respostas, encaminhamentos e outras interações registradas pela plataforma.

A decisão registra que a Meta já havia fornecido algumas informações ao processo, inclusive registros de acesso relacionados ao perfil @easyfatos em 2 de setembro. Para o TRE-MG, porém, os dados apresentados até agora não são suficientes para esclarecer a ligação entre determinado acesso e o envio do documento.

Também no prazo de três dias, a plataforma X (antigo Twitter) foi intimada a complementar dados sobre o perfil oficial @nikolas_dm e o repost realizado em 3 de setembro de 2026, incluindo registros de acesso, horários de publicação e remoção, além de métricas de engajamento disponíveis.

Processo contra Nikolas

A ação foi apresentada por Rogério Correia, que questiona a divulgação do documento e sustenta que a conduta pode configurar abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação durante o processo eleitoral.

A decisão desta terça-feira não representa um julgamento definitivo sobre essas acusações. O TRE-MG determinou novas medidas de produção de provas para esclarecer a origem e a circulação do documento e o alcance da publicação feita nas redes sociais.

O relator também decidiu, neste momento, não requisitar um processo administrativo da Polícia Federal citado pela parte autora. Segundo a decisão, não foi suficientemente esclarecido qual seria o objeto desse procedimento e de que forma seu conteúdo contribuiria para a apuração eleitoral.

Com as novas informações solicitadas à Meta, o tribunal deverá analisar a cadeia de circulação do documento e os dados relacionados à divulgação nas redes sociais antes de avançar na análise do mérito da ação.

Conversas entre Nikolas e Vorcaro

As mensagens entre o deputado e o empresário vieram a público em 3 de setembro. Em um dos diálogos divulgados, Nikolas chama Vorcaro de "Dani" e afirma que gostaria de ter "mais proximidade" com ele. Em outro trecho, o deputado pede ajuda para uma demanda relacionada à liberação de um ativo minerário. O pedido foi feito em áudio enviado ao banqueiro em março de 2025.

Nikolas afirmou que um advogado e ex-assessor seu precisava de auxílio em relação ao ativo e se colocou à disposição para intermediar o contato.

"Ei, Dani, tudo bom? Como você está? Como estão as coisas aí? Desculpa te incomodar num domingo, é jogo rápido, também não quero tomar muito seu tempo. É o seguinte, meu amigo, meu advogado, enfim, irmão meu aqui, comentou comigo e falou daqui do seu nome. Eu falei: ‘Não conheço o Dani, enfim, não tenho a proximidade assim, até mesmo a que eu queria ter, enfim, de conversar e trocar ideia, mas eu o conheço", declarou.

"Ele falou: 'Cara, estou com um ativo minerário lá, inclusive já passou pela ficha técnica, o pessoal técnico dele, enfim, está pendente lá, tem algumas pessoas que sabem disso lá na empresa'. E eu falei: ‘Não, posso dar um toque nele’. Então, assim, não sei nem do que se trata, mas é uma pessoa em quem confio totalmente; estou passando para você, se for do teu interesse, o contato dele para vocês tocarem isso, beleza? No mais, qualquer coisa estou aqui à disposição”, disse no áudio.

O deputado retomou um episódio envolvendo um fórum realizado em Londres e voltou a se desculpar com Vorcaro. Anteriormente, Nikolas havia questionado nas redes sociais o custeio da viagem de ministros ao evento. Ao banqueiro, o parlamentar disse que não sabia que o Banco Master estava envolvido no evento quando publicou as críticas sobre a participação de autoridades brasileiras no encontro.

“Não fazia ideia que era este o banco do Dani. Senão, obviamente, eu não teria postado, já teria conversado anteriormente", disse. Nikolas reconheceu, porém, que a publicação já havia sido feita. "A palavra dita não tem como voltar", afirmou. Depois, relatou esperar que o episódio estivesse esclarecido e sugeriu um novo encontro com Vorcaro.

Em vídeo divulgado após a publicação das conversas, Nikolas negou irregularidades e afirmou que nunca recebeu dinheiro de Vorcaro.

Banqueiro disse ter bancado voos

Também vieram a público mensagens nas quais Vorcaro enfatiza ter bancado "todos os voos" utilizados por Nikolas. A declaração foi feita em uma conversa com o empresário Flávio Carneiro, em abril de 2024. "Esse Nikolas, eu banquei todos os voos”, escreveu o banqueiro. Na sequência, ameaçou divulgar informações sobre o deputado.

As mensagens, porém, não esclarecem quantos voos teriam sido pagos por Vorcaro nem a qual período se refere. No segundo turno das eleições de 2022, Nikolas utilizou um jato de Vorcaro durante cerca de dez dias para participar de ações de campanha em apoio ao então presidente Jair Bolsonaro (PL). A agenda passou por nove estados e pelo Distrito Federal.

O uso da aeronave foi revelado em março pela jornalista Malu Gaspar, de O Globo. Na ocasião, Nikolas afirmou que não sabia quem era o proprietário do avião quando aceitou o convite para participar das atividades de campanha e que só posteriormente descobriu que a aeronave pertencia a Vorcaro.