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Raquel Lyra aposta em entregas e "pernambuquismo" na corrida pela reeleição

Na maior parte da corrida pelo Governo de Pernambuco, Raquel Lyra liderou as pesquisas de intenções de voto, respaldada por índices de aprovação que alcançaram a marca de 60%

Por Elaine Guimarães

Raquel Lyra e Priscila Krause

Aos 47 anos, a ex-prefeita de Caruaru e primeira mulher eleita governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), construiu sua jornada rumo à reeleição focada nas entregas, críticas à gestão anterior e movimentos partidários estratégicos. Distanciando-se da disputa nacional polarizada e mantendo a neutralidade, Raquel apostou no rótulo de “pernambuquista”.

Antes da convenção partidária, realizada no início de agosto, Lyra tentava desvincular o papel de gestora estadual da figura de candidata, evitando focar antecipadamente no debate eleitoral, concentrando-se na intensificação de obras e entregas. No entanto, nas agendas públicas, ao avaliar a situação do estado, manteve a tática de apontar falhas e omissões atribuídas à gestão de seu antecessor no Palácio do Campo das Princesas, o ex-governador Paulo Câmara (PSB).

Nos bastidores, a construção da chapa majoritária já se desenhava. A presença constante de figuras como o deputado federal Túlio Gadêlha (PSD) e o ex-prefeito de Petrolina, Miguel Coelho (União), indicava possíveis rumos das alianças. Porém, a definição da composição final ocorreu apenas às vésperas das convenções partidárias.

O processo foi marcado pelo impasse protagonizado pela Federação União-PP, entre Miguel Coelho e Eduardo da Fonte, pela disputa da segunda vaga ao Senado. Gadêlha ocupava a primeira. Após o imbróglio, Coelho retirou a candidatura. No dia seguinte, houve a confirmação de Eduardo da Fonte como o segundo postulante à Casa Alta na chapa majoritária de Raquel.

Com o início oficial da campanha, o time “Raquel Lyra Futebol Clube” foi às ruas, momento em que a candidata do PSD assumiu a alcunha de “Mainha”, participando de constantes caminhadas ao lado de aliados, como o prefeito do município de Jaboatão dos Guararapes, segundo maior colégio eleitoral de Pernambuco. Mano Medeiros (PSD), além de assumir o papel de principal cabo eleitoral de Raquel na Região Metropolitana do Recife (RMR), apostou na eleição da esposa, Andréa Medeiros (PSD), à Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe).

A figura dos prefeitos dos municípios pernambucanos, aliás, foi crucial para a caminhada de Raquel nos meses que antecederam o pleito de 2026. Ao todo, 78% das gestões municipais, ou seja, 144 dos 184 prefeitos, estavam ao lado da candidatura da Coligação Pernambuco de Coração.

Na maior parte da corrida pelo Governo de Pernambuco, Raquel Lyra liderou as pesquisas de intenções de voto, respaldada por índices de aprovação que alcançaram a marca de 60%. No entanto, o cenário dos últimos levantamentos apontou empate entre ela e o ex-prefeito do Recife, João Campos (PSB).

Priscila Krause

Se, por um lado, Raquel Lyra evitava as discussões eleitorais antecipadamente, coube a Priscila Krause o papel de defesa da gestão e da governadora no período que antecedeu a confirmação das candidaturas. Com discursos contundentes, ela tentava se desvencilhar da figura de “vice decorativa” e teve protagonismo durante a campanha.

Filha do ex-governador de Pernambuco e ex-ministro, Gustavo Krause, Priscila chegou ao governo do estado, ao lado de Raquel, após ser vereadora da capital pernambucana por três mandatos e ocupar, por duas vezes, uma das 49 cadeiras na Assembleia Legislativa de Pernambuco.

Na caminhada eleitoral de 2026, a vice-governadora manteve uma relação de diálogo institucional e proximidade com o segmento evangélico do estado, participando de eventos religiosos e atos de articulação política com lideranças cristãs.

Ela também foi alvo de um pedido de impeachment. À época, os deputados estaduais Rodrigo Farias, Romero Albuquerque e Sileno Guedes, todos do PSB, protocolaram, junto à Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), a solicitação contra Krause. Na ação, os parlamentares apontaram possíveis crimes de responsabilidade, atos lesivos ao patrimônio público e supostas irregularidades na aplicação de recursos públicos.

A representação tinha como um dos principais pontos a relação entre a vice-governadora e a Casa de Saúde e Maternidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro LTDA, unidade que, segundo os deputados, teria como principal sócio e administrador Jorge Branco, marido de Priscila.

De acordo com denúncias dos parlamentares, quando Krause assumiu interinamente o comando do Governo de Pernambuco, entre 2024 e 2025, foram autorizados cerca de R$ 200 milhões em orçamento que, segundo os parlamentares, também alcançariam a unidade de saúde administrada por Branco.

Por nota, os deputados salientam que a solicitação é baseada no resultado da auditoria realizada pelo Departamento Nacional de Auditoria do SUS (DenaSUS), vinculado ao Ministério da Saúde, que identificou inconsistências na prestação de serviços de oncologia, UTI e hemodiálise da Casa de Saúde contratados pela SES-PE.

Contudo, no início de outubro, a Justiça Federal em Pernambuco suspendeu, em caráter liminar, os efeitos do relatório. Na avaliação do juiz Deivisson Manoel de Lima, a equipe responsável pela fiscalização do hospital “adotou postura de presunção de má-fé” .

Gabinete do ódio

A suposta existência de um “gabinete de ódio” também marcou a candidatura da ex-prefeita de Caruaru. No dia 25 de agosto, uma reportagem exibida pela TV Record apresentou uma série de acusações sobre uma suposta rede de páginas e perfis nas redes sociais que atuaria para atacar adversários da governadora durante o período eleitoral. Ainda segundo o material, a estrutura utilizaria recursos provenientes de contratos de publicidade firmados com órgãos públicos estaduais.

No centro do tema, surgiu a figura de Amisadai Andrade, servidor da Caixa Econômica Federal cedido ao Governo de Pernambuco, desde abril de 2025, e que estava lotado na Secretaria de Turismo. De acordo com o relato apresentado pela emissora, ele teria participado da coordenação de páginas e perfis utilizados para produzir conteúdos críticos a João Campos, principal adversário de Lyra.

No dia seguinte à reportagem, Amisadai Andrade foi exonerado pelo governo estadual. Durante a série de sabatinas promovida pelo Diario de Pernambuco com os candidatos ao Palácio das Princesas, a chefe do Executivo estadual foi categórica sobre o assunto: “Agora, querer dizer que ele conversou comigo, ele vai estar muito distante disso. Quero ver provar, eu quero ver prova”.

Cartazes apócrifos

No final de agosto de 2026, cartazes apócrifos contendo ataques pessoais e acusações falsas contra Raquel Lyra foram espalhados por pontos estratégicos da capital pernambucana, como o Bairro do Recife, e passaram a ser alvo de investigações das polícias e da Justiça Eleitoral.

Entre as peças, havia uma que fazia referência ao empresário Fernando Lucena, marido de Raquel, que morreu em 2022. Outros cartazes também associavam a imagem dela a figuras políticas e personagens envolvidos em crimes. Até o momento, não há identificação pública de quem produziu e determinou a distribuição desses materiais.

A autoria dos panfletos passou a ser alvo de uma disputa política logo após a divulgação das imagens. Publicações nas redes sociais chegaram a atribuir a produção ou distribuição dos materiais à campanha de João Campos, à Frente Popular, ao PSB ou ao grupo político ligado ao candidato.

Vídeo sobre laqueadura

Já na reta final, a poucas semanas do primeiro turno, a campanha da governadora enfrentou repercussões após Metrópoles revelar um vídeo em que ela sugere que uma mulher seja submetida ao procedimento de laqueadura sem saber. A gravação é de maio de 2025, durante uma agenda no Hospital Regional Dom Moura, em Garanhuns, no Agreste de Pernambuco.

No registro divulgado pela coluna da jornalista Andreza Matais, uma mulher que seria funcionária da unidade de saúde relata à governadora o caso de uma gestante que já teria sete filhos, que não aparece nas imagens.

Ao ouvir a história, Raquel afirmou: “Aí, a gente tem que fazer laqueadura, visse? Aí, a gente bota na fila da laqueadura”. Na sequência, após uma resposta da interlocutora, que não é possível compreender na gravação, Lyra acrescenta: “Mas faz sem ela saber”.

No mesmo dia da divulgação do material, a ex-prefeita reconheceu o comentário e afirmou que a declaração não correspondia à sua posição sobre os direitos das mulheres.
“Gente, está circulando na internet um vídeo antigo meu falando sobre laqueadura na cidade de Garanhuns. Como mãe e como mulher, eu sei o desafio que é decidir sobre planejamento familiar. Essa fala minha em nada traduz o respeito que eu tenho às mulheres”, disse.

Em seguida, fez o pedido de desculpas. “Foi uma fala equivocada, eu não tenho compromisso com o erro”, declarou mediante vídeo publicado nas redes sociais.

Com os discursos alinhados e formação do xadrez político-partidário, a campanha da Coligação Pernambuco de Coração chegou aos momentos decisivos sob o impacto dos últimos acontecimentos. A resposta à primeira mulher governadora de Pernambuco veio nas urnas neste domingo (4).