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Instituto de André Mendonça recebeu R$ 5,2 mi de empresa ligada a ex-parceiro de Vorcaro

Repasse foi acertado em abril de 2024, mas o instituto nega participação de Vorcaro nas tratativas. Valores começaram a ser devolvidos pelo Iter em janeiro deste ano

Por Nilton Vilanova

Ministro André Mendonça em sessão extraordinária do STF de 19 de setembro

O Instituto Iter, entidade vinculada ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, recebeu R$ 5,2 milhões da Cedro Participações, holding com foco em mineração controlada pelo empresário mineiro Lucas Kallas. Kallas foi parceiro de negócios do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do falido Banco Master, antes da prisão dele.

O dinheiro começou a ser transferido em abril de 2024, por meio de um contrato de mútuo conversível: nesse tipo de acordo, a empresa que empresta o dinheiro pode, no futuro, escolher entre receber o valor de volta ou converter o crédito em participação societária dentro da entidade que recebeu o empréstimo. O contrato previa até R$ 5,9 milhões em repasses.

Em janeiro deste ano, porém, o Iter decidiu interromper as transferências e começar a devolver o dinheiro à Cedro. Um mês depois, em fevereiro, André Mendonça foi sorteado relator, no STF, das investigações sobre o Banco Master. O instituto afirma que a decisão de encerrar antecipadamente o empréstimo não teve relação com esse sorteio e ocorreu porque a entidade "já se encontrava em situação de sustentabilidade financeira". Segundo o Iter, cerca de 5,3% da dívida já foi paga, com juros corrigidos pela taxa Selic.

Quem é Lucas Kallas e qual sua ligação com Vorcaro

Lucas Kallas é dono da Cedro Participações, holding que atua em mineração, agronegócio e logística e que declara faturamento anual de R$ 2,5 bilhões. Ele e Vorcaro tiveram negócios em comum: no fim de 2023, a Cedro detinha 8% da empresa de biotecnologia Biomm; pouco depois, a gestora WNT, ligada a Vorcaro e ao empresário Nelson Tanure, também comprou ações da mesma companhia, chegando a controlar 25% dela em janeiro de 2025.

Mensagens encontradas no celular de Vorcaro mostram ainda que ele e Kallas viajaram juntos a Caracas, na Venezuela, no fim de novembro de 2023, para tratar de negócios no setor de petróleo. Três dias depois, registros de portaria indicam que os dois entraram juntos no Palácio do Planalto, sede do governo federal, no mesmo minuto.

Kallas não é investigado na Operação Compliance Zero, a apuração da Polícia Federal (PF) sobre as fraudes financeiras do Banco Master, e a Cedro não é citada nesse inquérito.

Investigação apura mineração ilegal

Kallas responde a outro processo: foi indiciado pela PF em junho por suspeita de explorar ilegalmente, entre 2014 e 2018, uma mina na Serra do Curral, região metropolitana de Belo Horizonte (MG). Segundo a PF, o esquema retirou milhares de toneladas de minério de ferro sem autorização e envolveria também lavagem de dinheiro e pagamento de vantagens a agentes públicos. A defesa de Kallas diz que o caso trata de "fatos antigos, já investigados e arquivados pela Justiça" e que ele deixou o negócio em 2017.

Um dado chama atenção nesse processo: Kallas é representado nele pelo escritório de advocacia da família do ministro Alexandre de Moraes - sua esposa e dois filhos atuam como advogados no caso. A investigação teve trâmite pela Justiça Federal de Minas Gerais e chegou a subir ao STF por suspeita de envolvimento de autoridade com foro privilegiado, hipótese depois descartada.

Os encontros diretos entre Mendonça e Vorcaro

Mensagens do celular de Vorcaro indicam que o banqueiro e o ministro André Mendonça se encontraram pessoalmente ao menos uma vez, em março de 2025, na sede do Instituto Iter. Mendonça afirma, em nota, que o assunto tratado foi um recurso então em julgamento no STF sobre precatórios (dívidas judiciais definitivas do poder público) de interesse do setor sucroalcooleiro, no qual Vorcaro tinha interesse direto. Segundo o ministro, sua posição no julgamento acabou sendo unânime contra o que defendia o banqueiro.

O episódio se soma a outra revelação: o instituto teria acumulado mais de R$ 10,8 milhões em contratos com órgãos públicos de 14 estados, dos quais 98,2% foram firmados sem licitação. No mesmo dia em que essa apuração veio a público, soube-se que Mendonça havia decidido deixar a sociedade do Iter, que passaria a ser uma entidade sem fins lucrativos. O ministro saiu formalmente do instituto no início de setembro.

O que dizem os envolvidos

Em nota, o Iter nega qualquer irregularidade e afirma que "a totalidade dos recursos foi depositada diretamente em conta da pessoa jurídica do Instituto Iter e aplicada [...] exclusivamente na estruturação e nas atividades da entidade". A entidade também diz que Mendonça e Kallas não participaram das tratativas do contrato, que Vorcaro não teve papel nas negociações e que chegou a ser barrada uma tentativa de terceiros de incluir o banqueiro na lista de convidados de um evento do instituto em 2025.

Em nota, a Cedro Participações nega qualquer sociedade com Vorcaro e diz que sua aproximação com empresas do grupo dele decorre apenas de investimentos comuns em companhias abertas. Kallas afirma que suas viagens internacionais fazem parte de sua agenda regular de negócios.