Ataques pessoais dominam início da corrida pelo Governo de Pernambuco
Análise de cientista político aponta que candidatos recorrem a estratégias de confronto para ganhar espaço na campanha e critica promessas que extrapolam as competências dos cargos disputados
Nas duas primeiras semanas de campanha, a disputa eleitoral pelo governo estadual tem sido marcada por polêmicas e ataques entre os candidatos em Pernambuco e suas respectivas militâncias. Recentes episódios de distribuição de cartazes anônimos e acusações mútuas de perseguição tomaram conta das redes sociais nos últimos dias.
Para especialistas, o clima de animosidade tem tirado o espaço de propostas no debate público e mudado o foco da eleição. “A campanha ainda está nos seus primórdios e nós já estamos assistindo a algo que geralmente ocorre nos últimos dias da campanha eleitoral, que são justamente os ataques pessoais, que infelizmente parece ter começado cedo aqui em Pernambuco”, avalia o cientista político Hely Ferreira.
No episódio mais recente, cartazes com ataques à governadora e candidata a reeleição Raquel Lyra (PSD) foram espalhados pelo centro do Recife, no domingo (30). A situação fez com que, pela primeira vez, os adversários também prestassem solidariedade à governadora.
Emocionada, ela afirmou em vídeo que os ataques, que já vinham ocorrendo no ambiente virtual, se materializaram, e acionou a polícia. João Campos (PSB) repudiou a situação e afirmou não ter relação com a produção ou distribuição do material, além de dizer que pretendia recorrer à Justiça para identificação dos responsáveis. Ivan Moraes (PSOL) também prestou apoio à governadora por meio de nota publicada nas redes sociais.
O episódio envolvendo os panfletos se tornou mais uma parte da campanha eleitoral, ligada à grande polêmica destas eleições: a existência de um suposto “gabinete do ódio”. Apesar do surgimento precoce dos ataques pessoais, o cientista político destaca que as eleições em Pernambuco sempre foram “muito acirradas”.
“Gabinete do ódio”
O caso do suposto “gabinete do ódio” tem movimentado a maior repercussão das eleições no estado. Tudo começou no dia 25 de agosto, após uma reportagem veiculada pela TV Record.
Os desdobramentos foram tantos que motivaram uma ligação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para aliados no estado para tirar temperatura sobre o caso, que motivou uma ação de João Campos na Justiça Eleitoral contra a governadora.
No dia seguinte à veiculação da reportagem, João Campos reagiu ao material, acusando o governo do estado de promover uma “milícia digital” contra adversários políticos. Raquel Lyra trocou alegações com o socialista e disse que acionou o TRE sobre um “gabinete que dissemina ódio o tempo todo”.
Posteriormente, ela compartilhou um vídeo que mostra saudações do ex-prefeito do Recife a Amisadai Andrade pelo nascimento de uma filha, em 2022, e afirmando que ele e João seriam amigos. O candidato nega qualquer relação pessoal ou profissional com Amisadai.
Raquel também cita que a Prefeitura do Recife, na época da gestão do candidato, teria destinado recursos para o portal citado no esquema.
No sábado (29), o Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE) determinou que quatro perfis de redes sociais apagassem postagens que associam a chefe do executivo estadual ao suposto "gabinete do ódio".
“Já há bastante tempo as redes sociais têm sido muitas vezes uma terra de ninguém para se fazer ataque de tudo quanto é lado”, acrescenta Hely Ferreira.
Um dia antes da veiculação do suposto esquema digital que seria ligado ao governo, bandeiras da campanha da governadora Raquel Lyra (PSD) foram incendiadas no bairro do Pina, na Zona Sul do Recife.
A coligação Pernambuco de Coração, que apoia a candidatura de Raquel, afirmou que acionou a Polícia Federal (PF) para que o caso seja apurado. O Diario procurou a PF, mas não obteve retorno.
As controvérsias começaram antes mesmo do período oficial eleitoral. Em 15 de agosto, um dia antes da campanha, o candidato Ivan Moraes (PSOL) afirmou que estava sofrendo pressão para retirar a candidatura dele, por parte de João Campos (PSB). A versão é negada pelo ex-prefeito do Recife.
Propostas
No meio das polêmicas, as propostas têm ficado em segundo plano. Raquel Lyra tem investido em reforçar os feitos durante os quase quatro anos de gestão e apresentar ao eleitor as ações desenvolvidas no período.
Já João Campos tem prometido a criação do Hospital Geral Metropolitano e de Hospitais Regionais no Sertão e no Agreste. Outra aposta é a isenção de IPVA para motocicletas de até 180 cilindradas.
Ivan Moraes, por sua vez, destaca pontos como investimentos na Universidade de Pernambuco (UPE) e tarifa zero no transporte.
Na avaliação do cientista político Hely Ferreira, parte dos candidatos acaba recorrendo aos ataques para tirar o foco de propostas que podem apresentar dificuldades de execução ou até ultrapassar as atribuições do cargo disputado.
“Grande parte dos candidatos procuram se agarrar nos ataques, tentando esconder a fragilidade de suas propostas. Muitas das propostas, os candidatos sabem que são praticamente impossíveis de serem cumpridas, mas se agarram em pesquisas qualitativas que apontam quais as necessidades do eleitor", afirma.
Para o cientista político, os ataques também demonstram uma falta de responsabilidade dos candidatos com o cargo que estão disputando.