Das oito candidaturas registradas, apenas três candidatos ao governo de PE não se autodeclararam brancos
Renan Hallais (Missão), Professor Jeremias do Banco (Democrata) e Victor Assis (PCO) foram os únicos postulantes ao Palácio do Campo das Princesas a se autodeclararem pardos
Dos oito candidatos ao Governo de Pernambuco com os nomes registrados na plataforma DivulgaCand, da Justiça Eleitoral, apenas dois não se autodeclararam brancos. Renan Hallais (Missão) e Professor Jeremias do Banco (Democrata) são os postulantes ao Palácio do Campo das Princesas a se autodeclararem pardos.
Victor Assis, candidato pelo Partido da Causa Operária (PCO), foi o único que se declarou preto. Os demais se identificaram como brancos junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Os dados, segundo a socióloga Priscila Monteiro, confirmam a hegemonia de candidaturas brancas e evidenciam um padrão nas disputas majoritárias.
"A predominância de candidaturas brancas em disputas para governos estaduais expõe o que chamamos na sociologia de 'funil da representatividade'. Quanto mais alto é o degrau do poder político e maior a concentração de recursos em jogo, mais a classe política se afunila e se torna branca. Isso não é fruto do acaso, mas sim do racismo estrutural e do capital político. Campanhas majoritárias exigem volumes altíssimos de financiamento e forte apoio de cúpulas partidárias que, historicamente, são controladas por elites brancas", analisa.
Processo de autodeclaração
A autodeclaração racial se tornou um processo obrigatório a partir de 2014. Até as eleições de 2018, o procedimento, como explica o advogado eleitoral Sérgio Pessoa, era somente para fins estatísticos. "A partir de 2020, consolidada pela Emenda Constitucional 133/2024, a autodeclaração deixou de ser apenas estatística e passou a ter efeito financeiro e político, vinculando a distribuição do fundo eleitoral."
Pessoa ressalta que o processo é obrigatório no registro das candidaturas e é feito pelo próprio postulante. Contudo, isso não exime a responsabilidade das legendas no que se refere à checagem das informações. A partir da autodeclaração, os partidos e federações devem destinar proporcionalmente os recursos do Fundo Eleitoral e Partidário para candidatos negros, pretos e indígenas, cujo piso constitucional é de pelo menos 30% ou proporcional para essas campanhas.
No momento inicial, não há uma banca de heteroidentificação para validar a autodeclaração, sendo aplicado o princípio da boa-fé, o que nem sempre ocorre. Nesse contexto, segundo o advogado eleitoral, qualquer pessoa da sociedade civil, partidos adversários, órgãos públicos ou o próprio Ministério Público Eleitoral (MPE) pode apresentar contestação ou denúncia em caso de suspeita de fraude.
"A autoidentificação prevalece em um primeiro momento. Caso venha a ter alguma denúncia, aí sim se passa por essa avaliação da heteroidentificação." Conforme Pessoa, a banca é composta por especialistas em direitos humanos e igualdade racial e avaliará o candidato a partir de critérios fenotípicos, como cor da pele, textura do cabelo e traços faciais. "Não vai ser considerada a justificativa de que 'tenho um pai negro', 'tenho uma mãe negra' ou algum parente negro", pontua o magistrado.
Em caso de comprovação de dolo, tanto o candidato quanto a legenda podem sofrer sanções. "Se for comprovada essa fraude depois do candidato eleito, há a possibilidade da perda do mandato eletivo, porque o Ministério Público pode entrar com ação de impugnação e pedir a cassação do diploma, a anulação dos votos, o recálculo do quociente eleitoral, além da devolução do dinheiro aos cofres públicos e risco de inelegibilidade."
Controvérsias e o "limbo" do pardo
Ao Diario, Sérgio Pessoa citou o imbróglio que envolveu o ex-deputado e candidato ao governo da Bahia, ACM Neto, nas eleições de 2022. À época, ele se autodeclarou pardo após, em um pleito anterior, ter se registrado como pessoa branca. O caso ganhou repercussão e foi alvo de questionamentos de movimentos sociais e adversários políticos, que alegavam se tratar de uma pessoa de leitura social branca tentando acessar os benefícios ou cotas da política de incentivo a candidaturas negras.
Para Pessoa, o caso aponta uma complexidade nas candidaturas de pessoas pardas. Ele observa que a população parda fica em uma "zona cinzenta" no Brasil, em que pessoas socialmente lidas como brancas acabam se declarando pardas para a Justiça Eleitoral, gerando acusações de "fraude nas cotas" ou oportunismo. "A gente vê muita problemática em relação a pessoas pardas. O pardo fica no meio desse limbo."