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Putin elogia EUA e acusa Europa de ser cúmplice do 'terrorismo ucraniano'

O líder russo apontou a possibilidade de um acordo de paz, mas destacou que Moscou e Kiev têm de alcançar um entendimento direto

Por Isabel Alvarez

Presidente russo, Vladimir Putin

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, classificou os aliados ocidentais da Ucrânia de cúmplices do terrorismo internacional. “A Europa e outros aliados fecham os olhos e permanecem em silêncio diante dos ataques ucranianos contra a infraestrutura civil russa”, acusou.

O líder russo apontou a possibilidade de um acordo de paz, mas destacou que Moscou e Kiev têm de alcançar um entendimento direto antes do Ocidente se associar ao ‘terrorismo internacional’.

No entanto, Putin diferenciou a posição europeia da norte-americana, indicando abertura para acordos diretos com os Estados Unidos em busca de soluções para o conflito, enquanto endureceu o discurso contra os parceiros europeus da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Já o presidente dos EUA, Donald Trump, admitiu hoje realizar uma reunião com o homólogo russo, porém impôs como condição o fim da guerra na Ucrânia. Trump assegurou que quer manter boas relações com Moscou e Kiev, ressaltando que um acordo de paz será benéfico para os negócios e para a estabilidade da região.

Putin também criticou o alerta do presidente da Ucrânia sobre o possível fechamento do espaço aéreo russo e considerou tais atos e o suporte tácito do Ocidente como contínuas violações e incentivo a métodos perigosos. “O plano de Volodymyr Zelensky de encerrar os céus da Rússia é terrorismo de Estado. Se alguém nos tentar arrastar para o fundo da cadeia alimentar e nos devorar, pode até levar um murro na cara”, ameaçou.

Zelensky anunciou hoje que várias companhias aéreas começaram a suspender os voos para a Rússia após o seu aviso sobre o aumento de ataques com drones por parte das forças ucranianas. "A Ucrânia já informou oficialmente as organizações internacionais e os nossos parceiros sobre a situação atual no espaço aéreo russo. As vidas precisam ser protegidas. Já estamos recebendo relatos de que as primeiras companhias aéreas começaram a suspender os voos para os aeroportos russos após o nosso anúncio sobre o perigo representado pelos drones no espaço aéreo da Rússia. Esta é a resposta correta e perfeitamente lógica numa situação de guerra", afirmou.

O líder ucraniano sublinhou que tudo isso deriva da guerra que Putin não quer que termine.

Bloqueio no Mar Negro

O Ministério da Defesa da Rússia declarou ter atacado dois navios de carga no Mar Negro nesta quinta-feira, alegando que as embarcações transportavam armas, munições e equipamentos militares com destino à Ucrânia.

A escalada no mar Negro reacendeu receios entre europeus de que a Rússia tente usar as cadeias de abastecimento alimentar como arma, para provocar uma onda migratória e enfraquecer o apoio à Ucrânia.
Na reunião de quarta-feira (02), os ministros das Relações Exteriores da União Europeia já apelaram a um cessar-fogo imediato na região. “No mar Negro, os ataques russos contra navios de cereais podem provocar um novo choque mundial em matéria de segurança alimentar”, apontou a chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas.

A ministra belga Maxime Prévot pediu a uma solução coordenada para evitar o que descreveu como uma catástrofe tripla: o colapso das receitas do Estado ucraniano, uma crise alimentar global na África e o agravamento dos fluxos migratórios em grande escala em direção à Europa. “Os bloqueios aos carregamentos de cereais e de energia no mar Negro também não são algo que possamos simplesmente observar à distância”, alertou.

Desde julho, Moscou intensificou os ataques contra portos e navios ucranianos no mar Negro, comprometendo seriamente a capacidade do país de vender cereais a clientes como o Egito, a Argélia, a Tunísia, o Iêmen e a Indonésia, entre outros. Kiev respondeu na mesma moeda e lançou ataques com drones e mísseis contra navios e infraestruturas russas.

A escalada coincide com o pico da época das colheitas na Ucrânia e deixou grandes quantidades de milho, cevada e trigo acumuladas no interior do país. Antes da retoma dos ataques, a Ucrânia exportava 6 milhões de toneladas de produtos agrícolas e siderúrgicos todos os meses através de três portos: Odessa, Chornomorsk e Pivdenny. Atualmente, escoa cerca de 4,5 milhões de toneladas por rotas alternativas, já que os operadores continuam relutantes em arriscar a perigosa viagem marítima. Entretanto, estas rotas, conhecidas como corredores de solidariedade, deixaram de beneficiar de um regime isento de tarifas, que a EU aboliu após a contestação de países do leste europeu. Além disso, uma dessas rotas, que liga as exportações ucranianas ao porto romeno de Constança através do Danúbio, atravessa uma seca estival sem precedentes.

Bucareste discutiu opções logísticas com Kiev para aumentar o trânsito nos corredores de solidariedade, afirmou a ministra romena, Oana-Silvia oiu, exprimindo preocupação com a subida constante dos preços alimentares a nível mundial. “É um instrumento essencial para garantir o acesso a preços acessíveis dos cereais em todo o Oriente Médio e a África”, disse.

Por sua vez, o seu homólogo ucraniano, Andrii Sybiha, instou os europeus a exercerem pressão sobre a Rússia para alcançar um cessar-fogo total no mar Negro. Sybiha garantiu que as rotas alternativas nunca irão compensar totalmente as exportações por via marítima.