Inteligência Artificial vira critério de contratações e redesenha a rotina de trabalho
O domínio das ferramentas de inteligência artificial está no topo do ranking de crescimento das habilidades que serão mais exigidas pelo mercado de trabalho até 2030
A inteligência artificial (IA) deixou de ser uma promessa de futuro para se tornar o impulsionador da transformação do mercado de trabalho. Longe de alterar a essência do papel do líder, a tecnologia modifica a dinâmica dos dois extremos das organizações. De um lado, ela agiliza a seleção de pessoal em grande escala nas bases operacionais. Do outro, exige que a alta liderança, composta pelos diretores e presidentes de empresas, desenvolva novas práticas para gerenciar os negócios em consonância com a tecnologia.
De acordo com o Relatório sobre o Futuro dos Empregos, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial (FEM) em 2025, 39% das competências consideradas essenciais no mercado de trabalho passarão por mudanças até 2030, sendo o domínio da IA, juntamente com a Big Data, as habilidades que terão os maiores crescimentos.
Para compreender o impacto dessa revolução, o Diario ouviu especialistas em tecnologia, recrutamento e liderança corporativa.
A IA no recrutamento
A Startup Recrut.IA, que foi criada no Porto Digital em 2019, realiza processos seletivos a partir de um software de Inteligência Artificial focado em automatizar e otimizar a seleção dos candidatos.
Segundo a head de marketing da Recrut.AI, Catarina Pena, os concorrentes a uma determinada vaga são selecionados a partir de uma análise que contempla requisitos obrigatórios, desejáveis e opcionais, experiências profissionais, competências e histórico de atuação. Também são considerados a vivência no segmento e experiências em empresas similares.
Catarina explica que a plataforma trabalha com o conceito de human-in-the-loop, que opera com intervenção humana para revisar, corrigir, orientar ou validar as decisões da máquina.
"A inteligência artificial assume atividades operacionais, repetitivas e automatizáveis, enquanto as decisões e supervisão permanecem sob responsabilidade humana. Na experiência do candidato, os agentes utilizam uma abordagem conversacional, contextualizando as interações, aprofundando respostas quando necessário e respeitando o tom de comunicação definido pela empresa. A proposta é utilizar a automação para ampliar a capacidade de atendimento e oferecer melhores informações para a tomada de decisão, sem substituir o julgamento humano", detalha.
A intervenção da IA proporcionou aos processos seletivos realizados pela Recrut.Ai a redução de 15 para dois dias, desde a inscrição até a entrevista.
Fernando Paiva, headhunter e cofundador da Audens, consultoria especializada em recrutamento executivo e formação de conselhos consultivos, fundamenta que a Inteligência Artificial tem sido uma competência que permeia do nível mais operacional ao nível estratégico. Nas entrevistas de emprego os recrutadores não buscam apenas habilidades tradicionais, mas também requerem profissionais que dominem soluções automatizadas via IA.
“Quando eu olho para o nível mais estratégico, como o C-level e o presidente, eles precisam entender como a ferramenta consegue construir valor para o nível tático dos negócios deles. Eles usam a Inteligência Artificial como plataforma de informação, mas precisam entender qual a operacionalidade que o time pode ter com a ferramenta. No nível médio, de gestão, a ferramenta é usada para a melhora da produtividade, como a avaliação de mercado. Já no nível operacional, ele vai operar efetivamente a ferramenta. Então, a IA impacta todos os setores”, pontua Paiva.
A IA na rotina de trabalho
O diretor de operações da Vivix Vidros Planos, que pertence ao Grupo Cornélio Brennand, Luiz Jucá, decidiu incorporar, no início do ano, os conhecimentos sobre IA na carreira após perceber o crescimento do tema na tendência do mercado.
"O uso de IA em várias empresas é um movimento crescente. Para poder dar suporte à empresa e melhorar a minha própria rotina no dia a dia, eu achei importante ter uma formação em IA. Entender como ela pode melhorar o meu trabalho, mas também como ela pode melhorar a nossa vida na organização", relata, citando aumento de produtividade e de desempenho.
No curso, o executivo aprendeu questões relacionadas à lógica de funcionamento, cuidados com a informação e governança de IA. "O curso também me ajudou a construir prompts, que também é uma coisa muito rica, como guiar para sair da maneira correta e o resultado que volta da IA para você ser mais eficiente, atendendo aquele seu objetivo inicial ou até trazendo perspectivas que você não tinha em mente quando fez a pergunta”, afirma.
Ele conta que IAs que mais utiliza na sua rotina de trabalho são Claude, Gemini e Amazon Quick. Através delas, Luiz examina dados que auxiliam na tomada de decisões. "Quando estourou a guerra no Irã comecei a entender o comportamento de vários mercados no mundo, fosse de energia, de petróleo, de gás, de importações, exportações, custo de frete. Essas IAs me ajudaram a conseguir informações de maneira estruturada e simples. Quase diariamente eu consigo obter atualizações. Então, para isso, a IA é muito útil", destaca.
O diretor de operações ressalta que o uso da Inteligência Artificial é imprescindível para a adequação do profissional às novas configurações do mercado. "Se você hoje não usa a IA no seu dia a dia, você deveria entender como ela funciona, buscar uma formação adequada. Você provavelmente não vai ser substituído pela IA, mas por alguém que usa ela melhor que você. Então, se você não avançar, alguém que usa IA melhor do que você pode lhe substituir no futuro", argumenta.
O professor, fundador do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás (UFG) e Chief AI Officer (CAIO) do AI Brasil, Anderson Soares, avalia que a substituição completa do humano por sistemas inteligentes ainda está restrita ao campo da ficção.
“A Inteligência Artificial potencializa todo e qualquer trabalho. A grande novidade é que de fato ela automatiza tarefas ditas inteligentes. Na prática, em uma situação em que se precisava de cinco pessoas para realizar uma determinada atividade, agora uma pessoa com IA é capaz de realizá-la. Então, o impacto no mercado de trabalho ocorre nesse sentido. Essa é a visão mais realista de como a IA nos ajuda no cotidiano”, explica.