Estudo revela novas possibilidades na investigação cerebral de doenças degenerativas
"Demonstramos pela primeira vez que a parte frontal do cérebro tem origem numa célula progenitora totalmente diferente da parte posterior", disse Kyle Loh, principal autor do estudo
Liderada por cientistas da Escola de Medicina da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, uma nova investigação, publicada nesta sexta-feira (18) na revista Nature Neuroscience, mostra que o cérebro humano consiste em dois sistemas nervosos antigos inteligentemente combinados.
“Demonstramos pela primeira vez que a parte frontal do cérebro tem origem numa célula progenitora totalmente diferente da parte posterior. A nossa descoberta significa que agora podemos cultivar neurônios da parte posterior do cérebro, o rombencéfalo - frequentemente chamado de tronco cerebral -, numa placa de Petri e estudar as suas funções. E isto abre novos caminhos para o estudo de doenças que afetam o tronco cerebral, como as degenerativas graves, entre elas, a atrofia muscular espinhal (AME) e a esclerose lateral amiotrófica (ELA ou doença de Lou Gehrig)", explicou num comunicado Kyle Loh, professor associado de Biologia do Desenvolvimento da universidade e principal autor do estudo.
Até agora, estudar doenças como a AME e a ELA era quase impossível, porque os cientistas não conseguiam obter tecido do tronco cerebral de doentes vivos, mas a capacidade de cultivar determinados neurônios citados na pesquisa em laboratório abre novas possibilidades para compreender o que decorre incorretamente.
Durante séculos observado e estudado como um único órgão unificado, o cérebro é constituído por dois órgãos distintos que evoluíram independentemente ao longo de centenas de milhões de anos, revela o estudo. “Uma das partes, ‘mais primitiva’, é responsável pelas funções vitais, como a frequência cardíaca, a respiração, a pressão arterial ou o sono, enquanto a outra nos torna distintamente humanos, capazes de poesia, matemática e de questionar as nossas origens", explana o texto da investigação.
O estudo, que conta também com os pós-graduandos Carolyn Dundes e Rayyan Jokhai como primeiros co-autores, analisou os primeiros momentos do desenvolvimento embrionário de ratos, o que permitiu a identificação de duas células progenitoras cerebrais diferentes.
De acordo com os investigadores, uma delas está destinada a tornar-se o prosencéfalo - lida com o pensamento de nível superior: linguagem, consciência e raciocínio abstrato - e o mesencéfalo, duas das três regiões principais do cérebro, além do rombencéfalo, cuja formação está ligada à da outra célula progenitora. "Estas duas populações de células nunca se sobrepõem e são mutuamente exclusivas desde as fases iniciais do desenvolvimento", aponta o documento.
Jokhai e Dundes descobriram que o rombencéfalo segue um caminho de desenvolvimento separado, correndo em paralelo (em vez de se ramificar) ao que cria o prosencéfalo e o mesencéfalo. "As tentativas anteriores de criar neurônios do rombencéfalo provavelmente tentaram transformar progenitores do prosencéfalo e do mesencéfalo em células do rombencéfalo, o que o nosso estudo mostra que não é possível", disse Jokhai.
Após a descoberta, os cientistas conseguiram, pela primeira vez, induzir as células estaminais pluripotentes humanas (um tipo de célula capaz de criar qualquer uma do corpo humano) a tornarem-se neurônios motores funcionais do rombencéfalo em laboratório.
Além das doenças degenerativas cerebrais, o tratamento da obesidade também pode beneficiar, já que o rombencéfalo contém circuitos que regulam a fome, sendo assim que funcionam os medicamentos para a perda de peso, como a semaglutida, ainda usado para tratar a diabetes tipo 2 e vendido sob a marca Ozempic. "Temos agora um modelo para compreender melhor estas doenças devastadoras e trabalhar no desenvolvimento de terapias regenerativas para as mesmas", afirmou Jokhai, acrescentando que esta é uma nova fronteira muito empolgante na investigação cerebral.