"Creio que serei sempre devedora nesse assunto", pondera Raquel Lyra
Em política, como repisa Jarbas Vasconcelos, tudo que você tem que explicar não é bom. Na campanha, essa máxima parece soar ainda mais rigorosa
“Faz sem ela saber!”. A inscrição se destacava no final da tarde de ontem, entre várias outras que estampavam cartazes sustentados pela militância de João Campos na porta da TV Guararapes. Lá dentro, no estúdio, menos de uma hora depois, o assunto foi o primeiro a ser abordado durante o debate dos candidatos a governador.
A pergunta partiu de Ivan Moraes. Ele quis saber quais os índices de violência obstétrica em Pernambuco e quais políticas públicas a governadora teria adotado para enfrentar o problema. O postulante do PSOL registrou que a Lei nº 18.437/2023 determina que o Governo de Pernambuco disponibilize, semestralmente, um relatório com dados estatísticos sobre violência obstétrica.
Segundo Ivan, ao buscar informações, ele esbarrou no descumprimento da legislação. O candidato disse ter recebido como resposta que nenhum relatório havia sido encaminhado desde a promulgação da lei. Raquel Lyra pegou o gancho para pedir desculpas sobre o vídeo no qual sugere uma laqueadura sem consentimento, empregando a frase: “Faz sem ela saber!”.
Em referência ao episódio, pediu que a julguem pelas suas atitudes. “Quando eu vi o vídeo, de fato, eu não me reconheci. Não é sobre o que eu falo, nem sobre o que eu penso. Eu peço sempre que me julguem pelas minhas atitudes, pelo resultado do meu trabalho. Foi uma fala infeliz e por isso eu peço desculpas”, repisou a governadora que, desde o domingo, quando a gravação (de maio de 2025) começou a circular, não arrodeou para se desculpar.
Naquele dia, ela mesma registrou, em sua rede social, não ter “compromisso com o erro”. Na manhã desta segunda (21), após sabatina no Sindhospe, a chefe do Executivo estadual admitiu que teve uma “fala errada”. E sublinhou: “Não representa aquilo que sou, nem aquilo que penso, especialmente no respeito às mulheres. E peço desculpas por isso”.
Um protesto de mulheres foi bater à porta do Palácio das Princesas na tarde de ontem. Manifestantes criticaram “prática criminosa, que é a violência obstétrica, que é a laqueadura sem consentimento da mulher”. A Ivan Moraes, quanto às informações cobradas por ele, Raquel disse que encaminharia “todas que tiver para a Assembleia Legislativa, como determina a lei”.
Nas considerações finais, João Campos disse que não dá para assistir à violência contra as mulheres calado e realçou que “liderar é também dar exemplo”. Recorreu à passagem bíblica: “Muitas vezes a boca fala do que o coração está cheio”. Ontem, ainda na resposta a Ivan, Raquel mesma ponderou: “E, por mais que eu peça desculpas, eu creio que eu serei sempre devedora nesse assunto”. Em política, costuma grifar o ex-governador Jarbas Vasconcelos, tudo que você tem que explicar não é bom. Se for em meio à campanha eleitoral, a máxima pode soar ainda mais rigorosa.
Protesto fala em CPI
Denominado “Raquel Lyra, respeite nossos corpos”, o protesto que se deu em frente ao Palácio das Princesas, ontem, ventilou a abertura de uma CPI. Ao microfone, uma das lideranças defendera: “É preciso abrir uma CPI sobre a questão de procedimento de laqueadura no nosso Estado”. O ato reuniu membros de partidos como PT, PSOL, PCdoB, além da Federação das Mulheres Pernambucanas e Fórum de Mulheres de Pernambuco.
A se explicar
O vídeo sobre laqueadura não passou batido à ministra da Ciência e Tecnologia Luciana Santos. “Desrespeitar a autonomia de uma mulher e sugerir laqueadura sem consentimento é muito grave. A governadora deve explicações”, assinala a comunista.
Inegociáveis
Presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Assembleia Legislativa de Pernambuco, Gleide Ângelo adverte que “na defesa dos direitos das mulheres, não há espaço para silêncio”. Ainda sobre a laqueadura sem consentimento, argumenta: “Independente de qualquer circunstância, um princípio precisa ser reafirmado: nenhuma decisão sobre o corpo de uma mulher pode ser tomada sem o seu conhecimento e consentimento. É um direito assegurado por lei e uma defesa da qual jamais abriremos mão”. Gleide ainda reafirma: “respeito, autonomia e consentimento são direitos inegociáveis”.
Contraponto
Ao longo do dia, além de pedir desculpas, Raquel Lyra apresentou feitos de sua gestão que contemplam mulheres. “Durante nosso governo, o trabalho que fizemos foi garantir, à mulher, vez e voz. Nós entregamos o Hospital da Mulher em Caruaru, estamos em construção com mais de quatro hospitais da mulher para garantir o direito de nascer perto de casa e o direito da mulher poder ser atendida mais perto. Temos políticas públicas como Mães de Pernambuco, como o direito à creche, tudo isso dialogando com política pública para mulher. É assim que eu trabalho sempre”, enumerou a gestora no debate da TV Guararapes.
De antemão
Às 17h desta terça, João Campos tem na agenda um “Encontro com Segmento de Mulheres” em seu comitê. Segundo informações da campanha, o compromisso já estava previamente agendado, não sendo reflexo dos últimos episódios envolvendo a adversária.
Desembarque
À ministra Luciana Santos, o presidente Lula já confirmou que desembarca em Pernambuco esta semana. A previsão permanece para sexta-feira (25), como a coluna cantara a pedra.