Se você torturar os números o suficiente, eles confessarão qualquer coisa
Fim da Taxa das Blusinhas, que será votada esta semana no Congresso Nacional, já está virtualmente aprovada, mas seus efeitos na economia e no mercado de trabalho geraram uma guerra de narrativas sem vencedores
A alíquota de importação de 20% aplicada sobre produtos abaixo de US$ 50 (R$ 260 pelo câmbio da sexta-feira, 28 de setembro), a chamada Taxa das Blusinhas, segue gerando polêmica. Foi assim em sua implantação e está sendo assim em sua provável extinção. Sobre os efeitos econômicos do fim e do retorno da taxa, não há estudo conclusivo. O que existe é uma guerra de narrativas.
De um lado, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Associação Brasileira do Varejo Têxtil (Abvtex) defendem a preservação da taxa. Do outro, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que congrega as empresas de e-commerce e logística internacional, pedem sua extinção.
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Pesquisas seguem direções opostas
E o que dizem os números? Bem, os números dizem o que cada lado defende. Vejamos: a CNI afirma que o fim da taxa, que vigorou de 1º de agosto de 2024 a 13 de maio de 2026, preservou 135,8 mil empregos no país a partir de contenção de importações estimada em R$ 4,5 bilhões. Na outra ponta, a Amobitec afirma, com base em estudo encomendado à LCA Consultores, que os setores beneficiados apresentaram um crescimento de 0,97% nos postos de trabalho, resultado que seria inferior à média nacional de 3,04%.
É uma aplicação da máxima atribuída ao economista britânico Ronald Coase, vencedor do Nobel de 1991: “Se você torturar os números o suficiente, eles confessarão qualquer coisa”. Na prática, não há nenhuma base de comparação entre os dois estudos. Enquanto a CNI compara um 2025 real contra uma projeção hipotética, a Amobitec compara, com base no Caged e na Pesquisa Mensal de Empregos, os 12 meses pós-tarifa contra a média nacional do mesmo período.
Onde os dois lados concordam
Os únicos pontos de convergência entre os dois estudos são a queda das importações e o aumento da arrecadação federal. O estudo da CNI aponta uma redução de 10,9% no volume de pacotes recebidos entre 2024 e 2025, passando de 179,1 milhões para 159,6 milhões. Já o da LCA/Amobitec aponta uma redução de 43% a 49% no valor importado no primeiro ano.
A CNI destaca que a cobrança ampliou a arredação do Imposto sobre Importações em R$ 2,1 bilhões, passando de R$ 1,4 bilhões em 2024 para R$ 3,5 bilhões em 2025. Por outro lado, a Amobitec destaca que a perda dos estados na arredação do ICMS, (R$ 258 milhões/mês), superou o ganho federal (R$ 265 milhões/mês).
Em Brasília o jogo já está jogado
Sem desmerecer o debate, no Congresso o jogo já está jogado, afinal, em ano eleitoral, poucos parlamentares serão contra o fim da taxa. A percepção de que o tributo atingiu majoritariamente as classes C, D e E transforma qualquer posição favorável à cobrança em perda de votos.
A confirmação do fim da taxa das blusinhas, como esperado, no entanto, não encerra o debate, apenas o transfere para os novos tributos criados pela Reforma Tributária (CBS e IBS). Ambos incidirão integralmente sobre produção nacional ou importações.