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POLO MÉDICO

Recife, o coração que pulsa saúde no Nordeste

Segundo dados da Prefeitura do Recife, o polo médico reúne hoje 2.116 estabelecimentos de saúde, dos quais 1.820 são privados e 296 públicos, além de mais de 11 mil leitos de internamento registrados no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES)

Milena Galvão

Publicado: 07/11/2025 às 00:00

São 2.116 estabelecimentos de saúde e mais de 11 mil leitos/FRANCISCO SILVA/DP FOTO

São 2.116 estabelecimentos de saúde e mais de 11 mil leitos (FRANCISCO SILVA/DP FOTO)

Entre avenidas movimentadas e edifícios históricos, no Recife ergueu-se também um outro símbolo de vitalidade: um polo médico. Um complexo que nasceu do talento e do espírito empreendedor de médicos visionários e que, hoje, posiciona a capital entre os principais destinos de saúde do Brasil — um coração que pulsa ciência, tecnologia e acolhimento.

Segundo dados da Prefeitura do Recife, o polo médico reúne hoje 2.116 estabelecimentos de saúde, dos quais 1.820 são privados e 296 públicos, além de mais de 11 mil leitos de internamento registrados no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES). Com um faturamento anual estimado em R$ 8 bilhões, o setor se afirma como um dos principais pilares econômicos da capital pernambucana.

O polo recifense é reconhecido pela oferta de serviços de alta complexidade, atraindo pacientes de todo o Norte e Nordeste — e, cada vez mais, de outras regiões do país e do mundo. Cirurgias cardiovasculares, neurológicas e ortopédicas estão entre as mais procuradas, assim como procedimentos oncológicos e estéticos.

Antes, era comum que pacientes precisassem sair do Nordeste para realizar exames ou cirurgias de maior complexidade. Hoje, a estrutura hospitalar do Recife é comparável à de qualquer grande centro do mundo, tanto em equipamentos quanto em padrões de atendimento e hotelaria hospitalar.

A trajetória desse polo é também um retrato da própria evolução da cidade. Em 1979, o Diario registrava: “A cidade do Recife tem crescido muito nestes últimos anos. (...) Praças novas, indústrias, parques arborizados, avenidas largas e também novos hospitais”. Já em 1974, o jornal registrava que “a prioridade é da medicina preventiva” — uma pauta que, cinco décadas depois, continua atual.

Ao longo de seus dois séculos, o Diario acompanhou e documentou essa transformação: dos tempos em que o desafio era aproveitar melhor os “10 mil leitos hospitalares do Estado” (como registrava a edição de 1970), ao momento em que o Recife se consolidou como o segundo maior polo médico do país, atrás apenas de São Paulo.

NASCE UM ECOSSISTEMA
O ponto de partida desta história remonta às décadas de 1970 e 1980, quando grupos de médicos recifenses decidiram unir conhecimento, prática e um espírito empreendedor ainda raro no setor de saúde. “Esses profissionais começaram a criar estruturas hospitalares privadas em uma época em que isso ainda era incomum no país. Foi ali que se plantou a semente do polo que temos hoje”, conta o médico e empreendedor Dr. Alberto Cherpak, CEO da Tourismed e presidente do LIDE Saúde em Pernambuco.

Hospitais como o Real Hospital Português, o IMIP e o Hospital da Restauração se tornaram marcos de uma expansão que ganharia força nas décadas seguintes. Gradualmente, a Ilha do Leite — uma área de apenas 26 hectares — transformou-se em um verdadeiro distrito da saúde, com hospitais, clínicas, laboratórios e centros de diagnóstico convivendo lado a lado. O que começou de forma espontânea, hoje é um aglomerado estruturado, integrado e reconhecido em todo o país.

“O Recife tem uma vantagem geográfica enorme: em um raio de 900 quilômetros, há diversas capitais e uma população significativa que, ao longo das últimas décadas, buscou a cidade para atendimento médico. Isso, somado à boa formação profissional e ao investimento em tecnologia, consolidou o Recife como referência nacional”, explica Cherpak.

TURISMO DE SAÚDE
Os números atestam a relevância do setor de saúde para a economia do Recife. Segundo Cherpak, 28% da arrecadação do ISS do município provém de atividades ligadas à saúde — quase um terço de toda a receita da cidade. Além disso, mais de 10% dos empregos formais estão direta ou indiretamente vinculados ao setor, sem contabilizar os milhares de profissionais autônomos e prestadores de serviço que orbitam em torno dessa cadeia.

O efeito econômico se estende, todavia, muito além dos hospitais. Dados da Secretaria de Turismo e Lazer de Pernambuco indicam que, em 2023, 7,36% dos turistas que visitaram o Recife tinham como motivação algum tipo de atendimento de saúde. Muitos desses visitantes permanecem na cidade durante o período de recuperação, movimentando hotéis, restaurantes, transportes e toda a oferta turística.

O fenômeno conhecido como “turismo de saúde” se estrutura em dois pilares complementares: o turismo assistencial, que atrai pacientes de outras cidades e estados para procedimentos médicos, cirurgias e tratamentos especializados; e o turismo de eventos médicos, que reúne milhares de profissionais em congressos e encontros científicos. “Essa combinação faz do Recife um destino estratégico e competitivo no cenário brasileiro e internacional”, destaca Carolina Oliveira, presidente do Recife Convention & Visitors Bureau.

Entre 2025 e 2033, a entidade prevê que a região sediará mais de 16 grandes congressos médicos, reunindo mais de 22 mil profissionais de saúde. Em outubro deste ano, por exemplo, o Congresso Brasileiro de Clínica Médica, realizado pela primeira vez no Nordeste, em Olinda, Região Metropolitana do Recife, reuniu em torno de 3 mil acadêmicos e profissionais de medicina, movimentando toda a cadeia turística e hospitalar e reforçando o protagonismo científico da capital pernambucana.

CONHECIMENTO
A força do Recife como centro médico não se mede apenas em leitos ou faturamento, mas também na produção e difusão de conhecimento. Os eventos científicos que a cidade vem atraindo fortalecem sua posição como polo de inovação em saúde, ampliam sua visibilidade nacional e impulsionam investimentos em pesquisa, formação e tecnologia.

Segundo o Alberto Cherpak, o vínculo com a formação profissional é um dos pilares desse desenvolvimento. As instituições de ensino do Recife formam cerca de mil novos médicos por ano, e, em todo o estado, o número se aproxima de dois mil. “Isso impacta positivamente o polo, mas também traz o desafio de garantir uma formação completa e prática. Muitos hospitais privados já atuam em parceria com universidades, recebendo alunos e investindo na capacitação de futuras gerações”, observa o médico.

O polo médico do Recife também se beneficia de uma infraestrutura moderna e integrada. Hospitais de referência, clínicas especializadas e centros de diagnóstico convivem em um raio compacto, o que favorece a eficiência operacional, o intercâmbio de conhecimento e o acesso rápido a serviços complementares. Essa concentração de instituições de alta complexidade transforma o Recife em um destino que combina atendimento de excelência e acolhimento, reforçando seu papel como motor econômico e turístico da região.

TECNOLOGIA

O avanço da inteligência artificial e da medicina de precisão também está moldando o futuro do setor. Segundo o Cherpak, essas tecnologias representam uma revolução em curso, com impactos diretos tanto na gestão quanto na prática clínica. “A inteligência artificial tem duas frentes principais: a operacional e a de decisão médica”, explica.

Na primeira, o uso de IA embarcada em equipamentos de diagnóstico por imagem tem tornado os exames mais rápidos, precisos e econômicos. “Hoje, já existem aparelhos capazes de realizar não apenas a aquisição, mas também a reconstrução das imagens de forma automatizada, reduzindo custos e o tempo de exame — o que melhora a experiência do paciente e a eficiência do sistema”, detalha o médico.

Na segunda frente, a tecnologia auxilia diretamente na tomada de decisões clínicas, contribuindo para a detecção precoce de patologias e aprimorando o processo diagnóstico. “Não se trata de substituir o médico, mas de oferecer suporte à decisão, permitindo identificar sinais de doenças com mais antecedência e precisão”, pontua Cherpak.

Outro avanço que desponta como tendência é a medicina de precisão, também chamada de medicina individualizada. Com base em painéis genéticos, já é possível mapear mutações específicas e identificar subtipos de doenças — especialmente no campo da oncologia, onde terapias-alvo personalizadas vêm transformando o tratamento de diversos tipos de câncer. “Hoje, conseguimos definir o subtipo de um tumor em cada paciente e escolher a medicação mais eficaz para aquele caso específico. É um salto enorme na qualidade do atendimento e nos resultados clínicos”, acrescenta.

Para Cherpak, tanto a inteligência artificial quanto a medicina personalizada estão apenas no início de uma transformação profunda na área da saúde. “Essas tecnologias já fazem parte do dia a dia e vão se expandir cada vez mais. É uma revolução no atendimento médico”, conclui.

DESAFIOS E FUTURO DO SETOR
Mesmo consolidado, o polo médico do Recife enfrenta desafios típicos de grandes centros de saúde. O principal deles é o aumento contínuo dos custos, que vêm crescendo em ritmo superior ao da inflação há vários anos. “Esse movimento tem impacto direto no acesso da população ao sistema privado e na capacidade de investimento dos hospitais e clínicas”, explica Cherpak.

Uma parte desses custos, aponta o médico, decorre de fatores naturais, como o envelhecimento da população. “É positivo que estejamos vivendo mais, mas isso traz consigo o aumento das doenças crônicas não transmissíveis e, consequentemente, dos gastos com tratamentos de longa duração. Nos últimos anos de vida, o custo assistencial tende a ser mais elevado”, detalha.

Outro fator de pressão é o avanço tecnológico, que, embora traga ganhos expressivos para o diagnóstico e o tratamento, também eleva despesas. “A tecnologia sempre foi essencial à saúde, mas ela é aditiva, não substitutiva. Quando surge um novo equipamento, o anterior não é necessariamente descartado — ele continua em uso. O mesmo ocorre com novas drogas: muitas delas têm custo alto, mas proporcionam diagnósticos mais precoces e tratamentos mais eficazes”, avalia.

Além das questões econômicas, há um desafio estrutural: repensar o modelo assistencial vigente, ainda fortemente centrado no hospital. “Hoje, o modelo é o que chamamos de hospitalocêntrico — ou seja, a porta de entrada da maioria das pessoas é o hospital. Isso gera custos maiores e nem sempre é o caminho mais eficiente”, explica o médico.

Para ele, o futuro passa pela mudança desse paradigma, com foco na prevenção e promoção da saúde, em linha com o que o Diario de Pernambuco já alertava há mais de meio século, quando publicava que “a prioridade é da medicina preventiva”. “A prevenção e a promoção da saúde precisam ser o foco. Isso reduziria custos e melhoraria a qualidade de vida da população”, defende o médico.

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