Reverências entre Benito di Paula e Gonzagão resultaram em clássicos da música brasileira
Morto no último domingo (18), Benito di Paula foi um dos poucos artistas homenageados em uma canção de Luiz Gonzaga
Publicado: 19/10/2026 às 18:56
Gonzagão e Di Paula fizeram um dos melhores duetos de registros graves da MPB (Arquivo/DP)
Morto na noite do último domingo (18) aos 84 anos, o compositor fluminense Benito di Paula manteve uma ainda pouco comentada relação de amizade com Luiz Gonzaga, pernambucano de Exu. Nos anos 1970, a amizade entre os dois produziu uma das mais célebres trocas de reverências da música popular brasileira.
Em 1975, o pianista já era um gigante quando se curvou ao Rei do Baião em “Sanfona Branca”, canção que integra seu disco “Benito de Paula”. “Aquela sanfona branca/ Aquele chapéu de couro/ É quem meu povo proclama/ Luiz Gonzaga de Ouro”, cantava Benito, que costumava apontar o Rei do Baião, ao lado de Ataulfo Alves, como uma de suas principais referências musicais.
À época, Gonzaga costumava chamar Di Paula de “filho postiço”. Em entrevistas, o fluminense contava que conheceu o Rei do Baião ao sair do banheiro de uma caravana organizada por Sílvio Santos em Brasília.
“Depois de muito tempo, encontrei com ele na Tupi do Rio de Janeiro. Ele estava fazendo um programa e eu entrava para tocar uma música. Ele falou assim pra mim: ‘quando Deus bota a mão na cabeça de um menino como você, esse menino vai ser grande’”, relatou Di Paula.
Na edição de 20 de outubro de 1973, o Diario de Pernambuco noticiou o encontro dos artistas no Grande Show do Jubileu da Rádio Clube de Pernambuco, a ser realizado na noite do dia seguinte, no Geraldão. Querido pelo público pernambucano, Di Paula também costumava se apresentar no Náutico, tendo participado da tradicional festa de black-tie do clube.
O artista lembrava com carinho da reação de Gonzaga ao escutar a homenagem. “Ele adorou [a música], porque ninguém falava em Luiz Gonzaga. Eu não sabia que ia fazer tanto sucesso”, contava Benito.
A resposta definitiva do Rei do Baião, contudo, veio dois anos depois, na sétima faixa do compacto "Chá Cutuba" (1975). Escrita pelo próprio Gonzagão, “Chapéu de Couro e Gratidão” é um dos raros momentos na discografia do, por vezes, autorreferente sanfoneiro a homenagear outros artistas. “Como é bonito, Benito/ Quem é poeta é que vê/ Como é bonito, Benito/ Poetas como você”, entoa Gonzaga, com o andamento lento característico de seus baiões mais líricos.
“Eu acho que sou mais importante do que os Beatles, do que os Rolling Stones, do que qualquer um. Quem é que tem uma música em sua homenagem feita por Luiz Gonzaga? Só eu mesmo”, disse Di Paula em outra entrevista.
O encontro entre os dois rendeu ainda, em 1986, um dos melhores duetos entre vozes de registros graves da música brasileira. Considerada o hino dos romeiros, “Viva Meu Padim”, homenageia o Padre Cícero e segue embalando as festividades religiosas em Juazeiro do Norte, Terra Natal do sacerdote.