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'Recife é a casa da Fresno no Nordeste', diz vocalista Lucas Silveira ao Diario

Mais de 20 anos após o primeiro show em Pernambuco, banda retorna com a turnê de Carta de Adeus para o festival Rock’n’Hall, em Olinda, neste sábado (5)

Guto Moraes

Publicado: 05/09/2026 às 15:47

A banda Fresno lançou Carta de Adeus em abril/Camila Cornelsen/Divulgação

A banda Fresno lançou Carta de Adeus em abril (Camila Cornelsen/Divulgação)

14 de agosto de 2004. No flyer, em caixa alta: Fresno em Recife. Dokas, Rua do Brum, Recife Antigo. A banda porto-alegrense desembarca na manguetown com o debut 'Quarto dos Livros' (2003, independente) para a sua primeira apresentação no Nordeste do Brasil, mobilizada pelos primeiros fãs via ICQ e mIRC, programas de mensagem instantânea de idos de 2000. Na plateia, “facilmente mil pessoas”, afere o vocalista e produtor musical Lucas Silveira.

Mais de duas décadas depois, a Fresno retorna à capital pernambucana, neste sábado (5), na programação do Rock’n’Hall, no Classic Hall, em Olinda, no Grande Recife, ao lado das gigantes Detonautas, CPM 22 e Raimundos. Com 27 anos de existência, a outrora banda underground de emocore é, agora, nome consolidado no rock nacional e integrante das line-ups de importantes festivais de música do Brasil, como Rock in Rio e Lollapalooza. No currículo, 11 álbuns lançados, além de EPs e registros ao vivo.

“Recife é a casa da Fresno na região Nordeste”, afirma Lucas Silveira, em entrevista exclusiva ao Diario. A declaração vai além da logística necessária para uma banda independente circular em um país de dimensão continental ou das histórias vividas na cidade portuária. Ela compreende também a passagem de dois recifenses pela formação do grupo: o ex-tecladista Mario Camelo, entre 2010 e 2021, e o atual baterista Thiago Guerra, há 13 anos à frente das baquetas. Ao lado de Silveira desde a gênese da banda originalmente gaúcha, o guitarrista Gustavo ‘Vavo’ Mantovani completa a formação atual.

“Tem sempre um pouco de Recife no som da Fresno. O Guerra é um cara que imprime bastante a sonoridade dele. É um batera que, apesar de tocar numa banda emo, veio de um background completamente diferente e faz com que o som seja uma coisa menos formulática, menos segmentado”, descreve Lucas Silveira.

Uma harmonia que poderá ser conferida no Classic Hall, neste sábado. A passagem pelo festival marca a estreia da turnê na região com 'Carta de Adeus', lançado em abril. “Este disco é muito um produto da mágica do estúdio”, celebra o vocalista, que também assina a engenharia de gravação. "Nós nos encontramos para analisar as músicas que tínhamos e trabalhamos com milhares de versões de demos e possibilidades até pintar o retrato do álbum.”

Não à toa, a produção foca em arranjos de guitarra limpa e na composição pura, com a manutenção do canal do violão original de algumas demos, por exemplo. “Um processo orgânico”, concorda Silveira. “Procuramos ser o mais analógicos possível na captação e busca por uma textura de som específica. Ficou mais natural do que em álbuns anteriores, nos quais eu focava muito em um desenho mais elaborado e no timbre”, descreve por telefone ao Diario.

No 11º disco, dez faixas - e uma bônus no álbum físico - estruturam o trabalho construído, sem pressão ou pressa, ao longo de um ano. “Temos o privilégio da calma”, revela Lucas Silveira. “Procuro me conectar cada vez mais com o ‘eu compositor’ e desligar a noção do tamanho da banda ou do público que ela tem.” Apesar disso, ele reconhece o cuidado com a narrativa ou, como diz, “o ‘folclore’ em torno da composição: o que o artista sentia, como escreveu”, observa.

Talvez uma das premissas mais importantes do trabalho da Fresno. As sonoridades se atualizam, novos arranjos são incorporados, trabalhos antigos ganham nova roupagem, mas a lírica mantém um fio condutor que até pode amadurecer, mas para se desdobrar em novos episódios de uma mesma trama. “Achamos um jeito de mobilizar o público fazendo com que ele nos acompanhe como quem acompanha uma série e espera sempre pela temporada nova.”

Como efeito, a Fresno reuniu em um show no Parque Redenção, em Porto Alegre, mais de 70 mil pessoas. Na nova passagem por Recife, desembarcam para reencontrar velhos amigos, na plateia e no palco, mas também para falar a novos públicos. “Nós vivemos, hoje, um auge de relevância e constância fruto de uma comunidade forte. A resiliência gera essa percepção: o público envelhece, novos fãs chegam, e as pessoas notam que nós nunca paramos.”

Entrevista | Lucas Silveira, vocalista da Fresno

São 27 anos de carreira e 11 álbuns lançados, além de EPs e registros ao vivo. O que Carta de Adeus traz que apenas a Fresno de 2026 poderia realizar?

Acredito muito na maneira como nós cuidamos de um legado ao mesmo tempo em que pensamos em continuar construindo ele. Fazer um disco hoje em dia é muito diferente do começo, porque é importante não ter medo desse legado, medo do que tu já fez ou daquela pressão que vai te deixando mais quadrado.

Procuro me conectar cada vez mais com o “eu compositor”, desligando um pouco a noção do tamanho da banda ou do público que ela tem, porque ainda enxergamos a Fresno como uma obra em construção. Hoje em dia, a nostalgia é uma grande tônica do consumo cultural, mas ao mesmo tempo ela é super escravizante.

Achamos um jeito de mobilizar o público fazendo com que ele acompanhe a banda como quem acompanha uma série e espera sempre pela temporada nova.

Em termos de processo criativo, o que difere os trabalhos anteriores e é exclusivo do Carta de Adeus?

Nós já fizemos discos de várias maneiras: compondo e envolvendo o grupo muito cedo nos arranjos ou ensaiando exaustivamente o repertório antes de gravar — o que hoje consideramos um método “à moda antiga”. Este disco é muito um produto da mágica do estúdio. Nós nos encontramos para analisar as músicas que tínhamos, trabalhando com milhares de versões de demos e possibilidades para pintar o retrato do álbum.

Se há um diferencial, é que procuramos ser o mais analógicos possível na captação dos instrumentos para buscar uma textura de som específica, que talvez remeta a um rock brasileiro clássico. Focamos em arranjos de guitarra limpa e na composição pura; em boa parte das músicas, ficamos muito apegados à demo, mantendo canais como o de violão desde o início. O som ficou mais natural do que em álbuns anteriores, nos quais eu focava muito em um desenho de som mais elaborado e no timbre.

A opção pelo analógico quando se debate a incorporação de Inteligência Artificial em processos de criação tem alguma relação com esse cenário atual?

Com certeza. Os ofícios vão se tornando artes perdidas. Existe muita similaridade do pensamento de máquina com o nosso pensamento de arranjo. Às vezes, de tanto ouvir música, nossa própria cabeça vai ficando meio algorítmica e maquinada. Com este disco, embora eu pudesse chegar a um resultado parecido gastando muito menos tempo e dinheiro, acredito muito na potência do tempo e de pessoas juntas colaborando em um estúdio. Isso traz “carne” e substância para o disco.

Música 100% feita por IA entra mais na esfera da publicidade, de fazer algo rápido, sem “brisar” ou ser artista. O público de um artista de verdade não está ali só para ouvir uma música em que tudo dá certo e o refrão chega na hora. Ele está comprando uma história. Cada vez mais, a discussão sobre o “folclore” em torno da composição (o que o artista sentia, como escreveu) é o que importa para construir público e diálogo.

E quanto ao tempo de concepção do álbum? Quanto tempo levou desde as ideias iniciais até a produção propriamente dita?

Como tenho um estúdio em casa e assumo a produção, não temos aquela pressão de alugar um estúdio por um mês apenas para fazer o disco. Vou pensando música por música e o processo todo se desenrola por cerca de um ano. Temos o privilégio da calma.

Às vezes, você acha que o disco está pronto e surge uma música nos 45 do segundo tempo que muda tudo e te faz repensar a ordem. Juntar quatro ou cinco pessoas para ficar criando sempre será um processo inesquecível. O disco também conta com as participações da Erika [Silva] e da lio, da banda tuyo, nos teclados e vocais, o que trouxe um toque feminino e colorido ao trabalho.

Você concorda então que o álbum não é apenas analógico, mas essencialmente orgânico?

Exatamente. Mais do que analógico, a palavra certa é orgânico. Eu uso tecnologia, não é como se tivéssemos gravado tudo em fita de rolo ou ao vivo no estúdio. O termo correto para essa dinâmica de colaboração e captação é orgânico.

Carta de Adeus é uma despedida de quê, exatamente?

Cada música ali funciona como uma cartinha de adeus, uma resolução sobre algo que vivi, seja recente ou de muitos anos atrás. Às vezes demoro anos para enxergar uma situação com distanciamento e poder expressar tudo o que eu gostaria. O disco ganhou esse nome porque parece que estamos mandando correspondências para nós mesmos ao longo do tempo: para o 'Lucas jovem', para o Lucas que veio morar em São Paulo, ou resoluções sobre negócios antigos e namoros que terminaram mal. Filtramos o repertório para manter apenas as faixas que carregavam esse sentimento de dizer adeus.

Falando agora sobre a conexão com Recife, o que a cidade representa historicamente para a Fresno?

Recife é a nossa casa na região Nordeste. Infelizmente, os custos elevados de turnê muitas vezes impossibilitam viajar com a estrutura completa por todo o Nordeste, e Recife acaba se tornando o nosso principal porto seguro.

Nossa ligação vem desde 2003 e 2004, na época do ICQ e do Mirc, coincidindo com a explosão do emo underground antes de virar mainstream. Nosso primeiro show em Recife, no Dokas, teve facilmente umas mil pessoas.

Sinto que Pernambuco é meio que o “Rio Grande do Sul do Nordeste” porque tem uma cultura muito própria, que valoriza demais os seus ícones, sotaques e tradições locais, além das semelhanças na música nativista de cada estado.

Para completar, nos sentimos totalmente em casa porque nosso baterista há mais de 12 anos, o [Thiago] Guerra, é recifense. Ele traz um background musical diferente que torna o som da Fresno menos formulático. Teve uma época em que até o Mário [Camelo] estava nos teclados, então metade da banda era de Pernambuco.

Tem sempre um pouco de Recife no som da Fresno. O Guerra é um cara que imprime bastante a sonoridade dele na música. É um batera que, apesar de tocar numa banda emo, veio de um background completamente diferente e ele traz muito disso, o que faz com que o som seja uma coisa menos formulática, menos segmentado.

Como você descreve o momento atual da Fresno? Parece haver uma grande ascensão desde o lançamento de Vou Ter Que Me Virar em 2021.

Nós vivemos hoje um auge de relevância e constância dentro do rock nacional. É fruto dessa sequência de discos e de uma comunidade forte que se reúne ao redor da banda. Com o tempo, a resiliência gera essa percepção: o público envelhece, novos fãs chegam, e as pessoas notam que nós nunca paramos.

E qual é a sensação de subir ao palco de um festival dividindo espaço com bandas de estéticas diferentes?

Tocamos muito com CPM 22, Detonautas e Raimundos. Embora essas bandas tenham tido hits massivos no mainstream no passado, o fato de não termos tido hits desse mesmo tamanho nos dá a mobilidade de continuar lançando coisas novas e movimentando nosso público fiel. O festival é a grande oportunidade de apresentar nosso som e nosso público apaixonado para pessoas que não iriam a um show solo da Fresno, gerando um impacto muito legal de conexão.

Este show em Recife abre a turnê pelo Nordeste, certo? Há expectativas para shows exclusivos e mais longos pela região?

Sim, é o primeiro da turnê no Nordeste. Temos planos de explorar esse disco até o ano que vem. Queremos muito voltar a Salvador, que faz tempo que não vamos, e revisitamos bastante Fortaleza. Devemos passar por Recife uma segunda vez com um show completo da turnê.

Em festivais o tempo é limitado, mas vamos espremer o máximo de músicas novas e clássicos para que ninguém sinta falta de nada. Além disso, tenho aproveitado momentos solo no palco para tocar músicas aleatórias e me surpreender também, mantendo tudo bem orgânico.

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