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CRÍTICA

Kristen Stewart faz estreia provocativa como diretora no drama experimental ‘A Cronologia da Água’

Primeiro filme da atriz Kristen Stewart como cineasta, 'A Cronologia da Água' adapta livro de memórias de Lidia Yuknavitch de forma ousada, apesar de limitações

André Guerra

Publicado: 02/04/2026 às 06:00

Imogen Poots vive protagonista em narrativa fragmentada que mistura estrutura tradicional com experimentalismo/Divulgação

Imogen Poots vive protagonista em narrativa fragmentada que mistura estrutura tradicional com experimentalismo (Divulgação)

Há quase um ano, Kristen Stewart lançou “A Cronologia da Água” em uma das mais aguardadas sessões do Festival de Cannes 2025, na mostra Un Certain Regard (“Um Certo Olhar”), dedicada a nomes promissores. O ambicioso longa da atriz é sua estreia como diretora e pode surpreender aqueles que ainda têm o início da sua carreira como referencial, especialmente com os relançamentos da saga Crepúsculo em evidência. Para quem acompanhou as escolhas de Stewart ao longo de pelo menos uma década, porém, é esperado que seu primeiro trabalho como cineasta seja tudo menos convencional.

Em cartaz no Recife a partir de hoje, no Cinema da Fundação, “A Cronologia da Água” adapta o livro de memórias homônimo da escritora norte-americana Lidia Yuknavitch, lançado em 2011. Imogen Poots interpreta a protagonista desde a fase jovem até sua transformação em escritora, em uma trajetória marcada por abusos sofridos pelo pai, diferentes experiências sexuais e a perda brutal da primeira filha ao nascer.

Nas mãos de um realizador tradicional, esse mesmo roteiro provavelmente renderia um melodrama sobre luto e redenção. Sob a lente ousada de Kristen Stewart, no entanto, “A Cronologia da Água” passa longe de uma experiência fácil ou acessível. Desde 2018, quando adquiriu os direitos da obra para adaptá-la, ela vem buscando financiar esse arriscado projeto. As filmagens ocorreram apenas em 2023, quando a Scott Free, produtora do diretor Ridley Scott, resolveu embarcar na proposta.

O resultado mistura elementos da narrativa clássica com uma estética experimental, que referencia desde o cinema de Jean-Luc Godard até colaborações recentes de Stewart, especialmente Pablo Larraín (com quem fez "Spencer", que lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz). “A Cronologia da Água”, por outro lado, não se resume a um exercício apaixonado de cinefilia cheio de citações. Trata-se de um projeto que visa traduzir em imagens as sensações de Lidia Yuknavitch — e, na maior parte do tempo, consegue.

Com uma câmera que jamais se estabiliza totalmente nos cenários e filma o corpo da personagem sempre em uma lógica de desconforto, Kristen Stewart não quer apenas retratar as dores particulares da autora, mas universalizar, dentro do possível, suas experiências. É uma obra sobre a violência inerente à existência feminina e, simultaneamente, uma meditação agressiva sobre a criação como meio inescapável de autodestruição.

O primeiro ato, mais focado na infância, utiliza a resolução granulada da fotografia em 16mm para criar uma sensação de memória fugidia, de uma realidade difícil de descrever racionalmente, mas que, na excelente atuação de Imogen Poots, parece totalmente palpável. O filme mantém um bom equilíbrio entre a construção hermética e uma jornada de causa e consequência, mas, a partir da segunda metade, parece ter usado toda a sua munição e começa a se repetir. É perceptível, no terço final, como “A Cronologia da Água” precisa resolver, por meio dos diálogos, algumas ideias abstratas deixadas pelo caminho.

Ainda que irregular, a estreia de Kristen Stewart por trás das câmeras não é apenas promissora do ponto de vista criativo, mas notavelmente comprometida com suas convicções cinematográficas. Que seja o primeiro de muitos, porque não falta talento para lapidar.

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