'Salve Rosa' tem boa presença de Karine Teles, mas se afunda em obviedades de telenovela
Exibido em sessão especial da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, suspense 'Salve Rosa' traz Karine Teles e Clara Kastanho nos papéis principais
Publicado: 26/01/2026 às 08:00
Karine Teles, homenageada deste ano da Mostra de Tiradentes, iunterpreta mãe abusiva em 'Salve Rosa' (Divulgação)
Foi exibido, em sessão especial da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, o suspense "Salve Rosa", dirigido por Susanna Lira e protagonizado por Karine Teles e Clara Kastanho — esta última vencedora do prêmio de Melhor Atriz no Festival do Rio 2025.
A trama, escrita por Ângela Hirata Fabri, utiliza uma estrutura tradicional de história de abuso e aprisionamento para fazer um comentário evidente a respeito do perigo de influenciadores mirins sob o controle de adultos mal-intencionados. Rosa (Kastanho) se muda com sua mãe, Dora (Teles), para um luxuoso condomínio, onde passam a produzir juntas uma série de conteúdos digitais para o canal da menina, que, aos 13 anos, já possui milhões de seguidores.
Não demora para que a plateia perceba a rotina violenta à qual a jovem é submetida. O reencontro com uma amiga do passado faz com que Rosa comece, de forma proativa, a desvendar segredos do próprio passado, enquanto todos à sua volta desconfiam cada vez mais de que algo está muito errado com ela.
"Salve Rosa" tem um ótimo ponto de partida e um casting melhor ainda. Karine Teles imprime muito bem o ar vilanesco da personagem, que ganha ainda mais complexidade com sua pulsão sexual, presente em cenas divididas com Ricardo Teodoro. Clara Kastanho, por outro lado, impressiona pela fisicalidade e torna praticamente impossível acreditar em sua idade verdadeira (24 anos durante a produção do filme).
A fotografia em tons exagerados e a artificialidade das cores do filme fazem sentido em um primeiro momento: a realidade hiperestilizada que a mãe construiu para a filha é, na verdade, um castelo de areia. Um universo colorido e falso, que mais oprime a menina do que a acolhe.
A estilização, no entanto, vai dando lugar a uma série de resoluções bastante novelescas em "Salve Rosa", sobretudo à medida que os personagens coadjuvantes passam a atuar mais na trama, e seus diálogos parecem lidos, em vez de interpretados. Os desdobramentos testam a credibilidade do espectador a cada sequência, a ponto de o filme precisar utilizar recursos óbvios de montagem e trilha sonora para buscar o engajamento à força.
Há também no filme uma estranha esterilidade na caracterização do canal da personagem principal, que parece saído de um projeto escolar dos anos 2000 ou de uma caricatura de campanha publicitária infantil. Por melhores que estejam as atrizes nos papéis de mãe e filha, "Salve Rosa" jamais consegue vender a ideia de que aquela menina de fato é uma persona verdadeira, o que claramente era a proposta da direção e do roteiro, com todo o seu tom de denúncia.
No terceiro ato, quando o suspense se afunila, o filme abraça de vez o seu lado mais televisivo ao apostar em clichês de vilãs consagradas do horário nobre que tentam escapar com dinheiro vivo e óculos escuros. Chama atenção, aliás, que "Salve Rosa" precise dar ênfase às suas intenções sociais por meio de letreiros, porque, afinal, como obra audiovisual, o longa parece bem mais interessado na presença forte da antagonista do que na composição da personagem-título.