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"Difícil é tratar o preconceito": estigma é maior barreira de pessoas com HIV ao acesso odontológico

Apesar das possíveis repercussões do vírus na boca, pessoas vivendo com o HIV relatam experiências e desafios no acesso à assistência odontológica

Marília Parente

Publicado: 31/10/2026 às 10:54

Aos 33 anos, Paolla nunca foi ao dentista. Discriminação nas unidades de saúde é o principal motivo/Karol Rodrigues/DP Foto

Aos 33 anos, Paolla nunca foi ao dentista. Discriminação nas unidades de saúde é o principal motivo (Karol Rodrigues/DP Foto)

A boca de Paolla conta uma história antes que as palavras possam saltar, tímida e discretamente, de seus lábios. Ela é Paolla Vidal Santos de Castro, mulher trans, catadora de recicláveis, com 33 anos e que vive em situação de rua no bairro da Boa Vista, na área Central do Recife. Ao se apresentar assim, sorri encabulada e atribui a vergonha à ausência de quase todos os dentes, perdidos em razão de mais de uma década de uso de crack e de irregularidades no tratamento do vírus HIV.

Paolla nunca foi ao dentista. “O principal motivo é o preconceito. Ando suja, com meu saco de reciclagem, sou trans e tenho HIV. Quando chego no posto de saúde, já fico atacada com o jeito que me olham”, relata.

Uma pesquisa desenvolvida pelo departamento de Odontologia da Universidade Federal (UFPE), em 2019, mostra que o relato está longe de ser uma exceção. A partir de entrevistas com 67 pessoas vivendo com HIV, o estudo qualitativo "Percepção do portador de HIV/Aids sobre o cirurgião-dentista” apontou que, para 57% dos entrevistados, ocultar o diagnóstico para o dentista é uma forma de garantir o atendimento. Além disso, ao contarem sobre o diagnóstico, 30% dos participantes relataram que houve mudança na postura do profissional e outros 27% se sentiram discriminados nos atendimentos odontológicos.

Para o orientador do estudo, o professor do departamento de Odontologia Saulo Cabral dos Santos, o forte estigma enfrentado por pessoas vivendo com HIV/Aids é o principal desafio no acesso dessa população aos consultórios odontológicos. Ele ressalta que, embora a literatura mundial não registre qualquer caso de transmissão de HIV de paciente para dentista, os entrevistados relataram ter sofrido condutas discriminatórias, como a responsabilização verbal pela contaminação e a biossegurança excessiva adotada pelos profissionais – a exemplo do incorreto uso de dois pares de luvas durante o atendimento.

“Uma das conclusões da pesquisa é a de que a formação desses profissionais precisa ser ampliada, não pode ser meramente técnica. Embora as diretrizes curriculares nacionais coloquem que os cursos de odontologia precisam ter discussões e módulos de humanização na saúde, poucas universidades colocam essas discussões em prática”, afirma.

“Não sou um bicho”

Paolla tem encontrado assistência na ong GTP+, no Centro do Recife - Karol Rodrigues/DP Foto
Paolla tem encontrado assistência na ong GTP+, no Centro do Recife (crédito: Karol Rodrigues/DP Foto)

Há cerca de cinco meses, Paolla passou a frequentar a sede do Grupo de Trabalhos e Prevenção (GTP+), ONG que atua há cerca de 30 anos na prevenção e no atendimento à população vivendo com HIV/Aids. A instituição funciona na última loja de uma pequena galeria na Rua Gervásio Pires, no bairro da Boa Vista, em cujo corredor estão dispostas três cadeiras de espera, sobre as quais é possível encontrar a catadora de recicláveis, acomodada em seus melhores dias.

Quando não está no GTP+, conta Paolla, ela costuma fumar crack. “Aqui dentro me sinto bem, tenho uma família e não sinto vontade. O problema é dali pra fora”, afirma, apontando para a rua.

O uso da droga começou na adolescência de Paolla, aos seus 16 anos, no mesmo período em que ela se tornou profissional do sexo. A despeito dos cuidados que tomava, acabou aceitando fazer um programa sem uso de preservativos, em razão das dificuldades financeiras que sempre a acompanharam. “Um homem disse que pagava o dobro do preço. Foi com ele que peguei HIV”, lembra.

Paolla tem encontrado assistência na ong GTP+, no Centro do Recife - Karol Rodrigues/DP Foto
Paolla tem encontrado assistência na ong GTP+, no Centro do Recife (crédito: Karol Rodrigues/DP Foto)

A descoberta veio dois anos depois, com os sintomas físicos da Aids, a doença que decorre da falta de tratamento do vírus. Além da severa queda de imunidade, a patologia pode se manifestar na boca em infecções, como candidíase, e periodontites, que vão de gengivites até quadros avançados, como a periodontite necrosante ulcerativa. Lesões malignas, como o Sarcoma de Kaposi, também podem aparecer.

“Eu nunca escovei os dentes, não vou mentir, nem ninguém nunca escovou meus dentes. Agora, eu nem consigo, porque sai muito sangue da minha gengiva, tá toda inflamada. Sinto muita dor, até dor de cabeça mesmo, só de escovar os dentes”, relata Paolla.

Para ela, o uso contínuo do crack e a dificuldade de manter uma rotina de autocuidado, por imposição da vida nas ruas, são as principais causas da perda de quase toda a arcada dentária. “Meus dentes ‘foram ficando’ fracos e se quebrando. Agora só tenho esses cinco”, diz, abrindo a boca e apontando para os dois caninos e três incisivos inferiores.

A alimentação, já restrita, fica ainda mais obstaculizada pela impossibilidade de mastigar a comida, um desconforto constante que a leva a sonhar com uma prótese. “Eu só quero respeito, ser bem tratada. Não sou um bicho por causa de uma doença, sou um ser humano como qualquer um”, conclui.

“Me abandonei, abandonei meus dentes”

João* abandonou escovação em meio a processo depressivo causado pelo HIV - Maurício Ferry/DP Foto
João* abandonou escovação em meio a processo depressivo causado pelo HIV (crédito: Maurício Ferry/DP Foto)

Vivendo com HIV há cerca de um ano e meio, João*, de 44 anos, passou por um período de depressão e ansiedade após receber o diagnóstico. Com a autoestima abalada, ele deixou de se alimentar regularmente, fazer a barba, tomar banho e escovar os dentes. “Eu não estava fazendo nada. Me abandonei, abandonei meus dentes e meu corpo”, lembra.

De acordo com ele, naquele momento, o bom atendimento odontológico que recebeu na rede pública foi um passo importante em seu processo de recuperação. “Fiz quatro consultas, limpezas bucais, aplicação de flúor e tratamento dos problemas que eu tinha”, conta.

Segundo ele, o dentista avaliou que as inflamações e os problemas identificados estavam relacionados à falta de cuidados, e não diretamente ao HIV. O profissional também recomendou uma revisão em seis meses. “Foi muito paciente. Ser bem atendido foi muito importante pra mim”, destaca.

Graças ao diagnóstico precoce e ao uso regular da terapia antirretroviral, João manteve o vírus sob controle e não chegou a desenvolver Aids. Ele aponta a atuação da ONG Gestos - Soropositividade, Comunicação e Gênero, como decisiva para sua iniciativa de voltar ao trabalho, de onde se afastou após ter sua condição de saúde exposta por um colega. “Estou melhor. O vírus é controlável demais, difícil é tratar o preconceito”, coloca.

João* abandonou escovação em meio a processo depressivo causado pelo HIV - Maurício Ferry/DP Foto
João* abandonou escovação em meio a processo depressivo causado pelo HIV (crédito: Maurício Ferry/DP Foto)

Uma das profissionais que acompanham João na Gestos, a enfermeira Talita Nascimento aponta o acolhimento como o principal aliado de um profissional de saúde no atendimento às pessoas que vivem com HIV. Para ela, embora o tema esteja presente na formação em saúde, os profissionais nem sempre são preparados para lidar com situações concretas.

“Antes de chegarem aqui, essas pessoas levam muitos ‘nãos’. Todos os dias eu fecho os olhos e tento fazer de cada novo atendimento o primeiro, para que isso não vire simplesmente uma rotina. É preciso ter sensibilidade e escuta para lidar com os pacientes”, comenta.

Boca, território social

Para Luiz Eduardo Almeida, professor e pesquisador do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a associação histórica entre a população LGBTQUIAPN+ e o HIV também influencia a maneira como esses pacientes são recebidos nos serviços de saúde. Ao fazer um levantamento sobre a produção científica na área, ele identificou que, mesmo em estudos publicados a partir do século 21, o HIV continuava sendo a principal associação feita com esse grupo social.

O pesquisador defende que essa associação recorrente — que ele chama de sorocompulsoriedade — ajuda a alimentar a expectativa de que uma pessoa LGBTQUIAPN+ tenha HIV. O imaginário também chega aos consultórios odontológicos e pode interferir na conduta dos profissionais, com tratamento diferenciado depois de o paciente informar sua condição sorológica. “O dentista ainda carrega consigo uma odontologia para a população LGBT da década de 80”, afirma.

Almeida ressalta que, com a eficácia dos tratamentos antirretrovirais, as manifestações bucais historicamente associadas à imunossupressão não são uma consequência automática da soropositividade. Segundo ele, alterações na boca relacionadas ao HIV estão hoje mais relacionadas à não adesão ao tratamento do que à presença do vírus em si.

O professor também chama atenção para o fato de que pessoas vivendo com HIV podem esconder a sorologia durante consultas odontológicas por receio de sofrer discriminação ou ter o tratamento prejudicado. “A omissão, porém, pode comprometer a anamnese e dificultar o planejamento adequado da assistência. O desafio é construir um atendimento em que o paciente se sinta seguro para compartilhar informações sobre a própria saúde”, explica.

O pesquisador defende ainda a compreensão da boca como um território social, uma parte do corpo que carrega as marcas da existência e das relações sociais. “Quando uma pessoa abre a boca para a gente, a gente consegue contar todo seu percurso de vida, dificuldades. A boca materializa iniquidades, injustiças, preconceitos, discriminação”, declara.

Para Thiago, pessoa não binária vivendo com HIV, é preciso humanizar formação dos profissionais de saúde - Maurício Ferry/DP Foto
Para Thiago, pessoa não binária vivendo com HIV, é preciso humanizar formação dos profissionais de saúde (crédito: Maurício Ferry/DP Foto)

Para Almeida, as dificuldades de saúde bucal enfrentadas por pessoas LGBTQUIAPN+ e por quem vive com HIV não podem ser explicadas simplesmente pela identidade ou pela condição sorológica. “O que está fazendo com que a população LGBT e a população soropositiva tenham mais problemas bucais não é o HIV, nem o ser LGBT, mas o  preconceito e a discriminação presentes no próprio percurso da odontologia e no cuidado do sistema de saúde”, afirma.

A saída, portanto, não é separar esses pacientes em espaços específicos, mas enfrentar as barreiras que dificultam o acesso à assistência comum. A formação dos profissionais, na avaliação de Luiz, precisa incorporar conhecimentos sobre diversidade, sexualidade, HIV e as diferentes necessidades de quem é atendido. “Estudar os conceitos é a única forma de quebrar preconceitos. A gente não pode ser agente do preconceito, a gente tem que ser agente do conceito”, conclui.

A necessidade de uma formação que considere o paciente para além do diagnóstico também é apontada por Thiago Jehoran, pessoa não binária que vive com HIV e trabalha com educação social na Gestos. “Os profissionais na academia aprendem protocolo de saúde, mas o atendimento não pode reduzir a pessoa a uma doença. De frente para o dentista, muitas vezes está alguém com medo, com ansiedade e uma vivência específica”, diz.

O que diz o Código de Ética

De acordo com Juliana Couto, chefe do setor de Fiscalização do Conselho Regional de Odontologia de Pernambuco (CRO-PE), discriminar pacientes por viverem com HIV constitui infração ética. Ela ressalta que o Código de Ética Odontológica proíbe a discriminação sob qualquer pretexto e determina que os profissionais zelem pela dignidade dos pacientes e preservem o sigilo das informações de saúde.

“Caso isso ocorra, o paciente pode vir ao Conselho fazer a denúncia ética daquele profissional. Embora exista, também previsto pelo Código de Ética, o direito de o profissional recusar um atendimento, ele não pode abandonar o paciente. Precisa encaminhá-lo”, explica.

Código de Ética Odontológica proíbe a discriminação  - Arte/DP
Código de Ética Odontológica proíbe a discriminação (crédito: Arte/DP)

Segundo a norma, a decisão de recusa de um atendimento precisa ser comunicada previamente, por escrito, e as informações necessárias devem ser repassadas ao profissional responsável pela continuidade do tratamento. “Não é uma justificativa plausível deixar de atender alguém por causa do HIV”, destaca Juliana.

Para Juliana, no entanto, as barreiras ao atendimento começam antes mesmo da consulta. Em sua pesquisa de mestrado sobre violência e acesso a serviços de saúde pela população LGBTQUIAPN+, ela identificou que os constrangimentos, já na chegada às unidades, também repelem os pacientes. “A barreira do acesso não parte só da discriminação da unidade. Ela parte do estigma que já vem carregado na comunidade e até na própria pessoa”, afirma.

A pesquisadora também chama atenção para a atuação de trabalhadores que não são profissionais de saúde, mas participam da recepção dos pacientes, como vigilantes e recepcionistas. Para ela, a preparação para o acolhimento precisa envolver toda a equipe das unidades de saúde. “A gente precisa ser provocado. É preciso que a população conheça os próprios direitos e o modo como devem lidar com casos de discriminação”, conclui.

*Nome fictício

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