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Mais de 5,6 mil animais já foram retirados das rodovias federais em Pernambuco em 2026

PRF encontrou 94 animais mortos por atropelamento entre janeiro e setembro. Acidentes envolvendo bichos deixaram sete pessoas mortas no período

Adelmo Lucena

Publicado: 19/10/2026 às 06:00

Cavalos são encontrados com frequência em rodovias de Pernambuco e muitas vezes se envolvem em acidentes/Foto: PRF/Divulgação

Cavalos são encontrados com frequência em rodovias de Pernambuco e muitas vezes se envolvem em acidentes (Foto: PRF/Divulgação)

Mais de 5,6 mil animais foram retirados das rodovias federais de Pernambuco entre janeiro e setembro de 2026, segundo dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF). No mesmo período, 94 animais foram encontrados mortos por atropelamento.

A presença de bichos nas pistas também representa um risco para motoristas e passageiros. No mesmo período foram registrados 57 sinistros de trânsito envolvendo animais, com 61 pessoas feridas e sete mortes.

O número de animais retirados das rodovias nos nove primeiros meses de 2026 chegou a 5.680, contra 4.624 no mesmo período de 2025, um aumento de 22,8%. A quantidade inclui animais recolhidos vivos e mortos. Já o número de animais encontrados mortos nas rodovias federais pernambucanas foi de 230 em todo o ano de 2025. De janeiro a setembro deste ano, foram 94 registros.

A PRF também contabiliza os sinistros de trânsito envolvendo animais e, entre janeiro e setembro de 2025, foram 76 ocorrências, com 108 pessoas feridas e oito mortes humanas. No mesmo intervalo deste ano, os registros caíram para 57 sinistros, 61 feridos e sete mortes. A redução foi de 25% nas ocorrências, de 43,5% no número de feridos e de 12,5% nas mortes.

A corporação esclarece que não dispõe de um dado específico sobre quantos animais atropelados sobrevivem. Alguns fogem do local após a colisão, o que dificulta a contabilização.

BR-232 concentra mais ocorrências

Entre as rodovias federais de Pernambuco, a BR-232 liderou o número de sinistros envolvendo animais em 2026, com 21 registros entre janeiro e setembro. Em seguida aparecem a BR-101, com 14, e a BR-428, com oito.

Segundo a PRF, os animais encontrados com maior frequência nas pistas são cavalos, bovinos, bodes e asininos, como burros e jumentos. A presença de animais de grande porte pode provocar colisões com consequências graves para os ocupantes dos veículos e para os próprios bichos.

A corporação atribui esse tipo de ocorrência a uma combinação de fatores, entre eles a velocidade dos veículos, a ausência de estruturas adequadas de proteção e de passagens de fauna, problemas de sinalização e a circulação de animais deixados soltos por seus proprietários.

A fiscalização ocorre por meio de rondas regulares, denúncias de motoristas e operações específicas. A PRF também firma acordos de cooperação técnica com prefeituras para ampliar o recolhimento e a guarda dos animais em abrigos, onde recebem alimentação e cuidados veterinários até que os responsáveis sejam localizados. A identificação pode ocorrer por marcas dos criadores ou pela proximidade de propriedades rurais.

Janeiro foi o mês com mais registros de sinistros envolvendo animais em 2026, com 17 ocorrências, segundo a corporação. Abril, junho e julho tiveram sete registros cada.

Perda de habitat aumenta exposição às rodovias

Para o cientista ambiental e ecólogo Maurício Dália, pesquisador industrial do Instituto SENAI de Inovação, não há uma única explicação possível para o aumento da quantidade de animais retirados das rodovias. Entre as hipóteses estão a intensificação do monitoramento, as mudanças na infraestrutura viária e a perda de habitats naturais.

O chamado efeito do coletor significa que o aumento dos registros pode estar relacionado, ao menos em parte, à intensificação da busca e da retirada de animais, e não necessariamente a um crescimento proporcional dos atropelamentos.

Maurício também aponta que o aumento da velocidade dos veículos, dependendo das condições da rodovia, pode reduzir o tempo de reação dos motoristas e dos próprios animais. Barreiras instaladas entre as pistas podem dificultar a travessia e deixar bichos encurralados na tentativa de cruzar a estrada.

Outro fator é a transformação de áreas naturais em espaços urbanos ou destinados a outras atividades. Com a redução da disponibilidade de abrigo e alimento, os animais podem se deslocar em busca de novos territórios e encontrar rodovias no percurso.

Segundo o ecólogo, a mortalidade provocada pelo trânsito pode afetar a manutenção das populações silvestres, principalmente quando atinge animais em idade reprodutiva. Além das mortes, as estradas podem funcionar como barreiras à circulação e ao encontro entre indivíduos, dificultando a reprodução e o intercâmbio genético.

Entre os grupos potencialmente vulneráveis estão mamíferos que percorrem grandes territórios, como onças-pardas, gatos-do-mato e canídeos silvestres, além de répteis, como serpentes, jabutis e iguanas. A vulnerabilidade varia conforme a espécie, o comportamento, as condições ambientais e as características da rodovia.

“Quando uma rodovia corta uma área de vegetação densa, ela começa a agir como sumidouro de animais, incluindo até aves (principalmente noturnos), anfíbios e até insetos.” Maurício ressalta ainda que o impacto não se limita aos atropelamentos. O ruído do tráfego pode interferir na comunicação de espécies que dependem de vocalizações para encontrar parceiros, como ocorre com anfíbios. Assim, mesmo animais que conseguem evitar a travessia podem sofrer consequências da fragmentação dos ambientes e da presença constante de veículos.

Estudo identifica pontos críticos na BR-423

Os impactos das rodovias sobre os animais também atingem a fauna silvestre. Um estudo publicado em março de 2025, na revista Scientific Journal ANAP, mapeou pontos críticos de atropelamento em dois trechos da BR-423, no Agreste Meridional de Pernambuco, durante oito meses de monitoramento.

A pesquisa foi conduzida por Artur Mineu da Silva Barbosa, Vitor Mineu Silva Barbosa, Damião Alves da Silva, Wallace Rodrigues Telino-Júnior e Rachel Maria de Lyra-Neves, pesquisadores vinculados à Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (UFAPE). O trabalho utilizou georreferenciamento, fotografias e identificação das espécies para mapear a concentração dos atropelamentos.

Os resultados apontaram maior densidade de registros em trechos próximos a corpos d’água, áreas de vegetação, sítios e granjas, locais que podem concentrar a movimentação dos animais. Entre as espécies mais registradas estavam o sapo-cururu, especialmente em períodos chuvosos, o cachorro-do-mato e o timbu.

Os pesquisadores apontam que o mapeamento de pontos críticos pode orientar medidas como sinalização, redução de velocidade e instalação de passagens de fauna.

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