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PATRIMÔNIO

Mercado de São José completa 151 anos sob queixas de demora nas obras de reforma e restauro

Equipamento passa por processo de reparo e restauração desde janeiro de 2024

Marlon Júlio

Publicado: 14/09/2026 às 06:59

Mercado completou 151 anos na última segunda-feira (7)/Weslly Gomes/DP Foto

Mercado completou 151 anos na última segunda-feira (7) (Weslly Gomes/DP Foto)

Inaugurado em 7 de setembro de 1875, o Mercado de São José, localizado na Área Central do Recife, completou 151 anos na última segunda-feira (7). Enquanto o país celebrava o Dia da Independência, a data era lembrada por comerciantes como mais um ano de promessas de melhorias que ainda não se cumpriram.

O mercado é o primeiro edifício brasileiro pré-fabricado em ferro, característica que lhe rendeu um tombamento em 1973 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Em 2025, por sua importância para o cotidiano socioeconômico e cultural da cidade, foi também oficialmente reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Recife.

Atualmente, o Mercado de São José enfrenta um processo de reforma e restauração orçado em R$ 27 milhões. As intervenções foram iniciadas em janeiro de 2024 e incluem a instalação de um novo mezanino, de um elevador para 16 passageiros e a renovação das infraestruturas elétrica, lógica, hidráulica, de combate a incêndio e do Sistema de Proteção contra Descargas Atmosféricas (SPDA).

Durante a execução do projeto, foram encontrados fragmentos de ossadas humanas nas escavações do pavilhão norte. O Iphan realizou vistoria e determinou o acompanhamento arqueológico na área, que foi iniciado em outubro de 2024 pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) em convênio com a Fadurpe (Fundação Apolônio Salles de Desenvolvimento Educacional). Segundo a fundação, os estudos são realizados em conjunto com as reformas do mercado, sem impactar no andamento das obras.

Quase três anos de espera

Desde o começo das obras, os permissionários do setor de artesanato foram realocados para um anexo provisório na Rua da Praia, também no bairro de São José. Dos 100 comerciantes impactados diretamente pelas obras de restauro, 54 optaram pelo recebimento de auxílio financeiro mensal de R$ 3 mil, segundo a CONVIVA Mercados e Feiras (órgão da prefeitura responsável pelo comércio popular). Os outros 46 escolheram a realocação.

Os comerciantes do setor de alimentos e sacolas permaneceram no edifício. Locatária de uma barraca que vende frutos do mar, Ruth Miranda, de 72 anos, conta que trabalha no mercado desde os 10 anos e enfrenta dificuldades para manter a clientela. "Eu estou há 62 anos no mercado. Aqui criei meus filhos e netos. Eu nunca vi na minha vida uma crise tão grande como a que estamos enfrentando agora com a reforma. Vai fazer três anos, não vemos mais ninguém trabalhando. O sofrimento da gente a cada dia está pior. Você não vê uma pessoa dentro do mercado, a não ser os funcionários. Aqui era cheio”, relata.

A comerciante Cristina Gomes, de 57 anos, pontua que faltou divulgação de que parte do mercado continua funcionando após o início das obras. “Não teve divulgação de que estamos aqui, não deixaram uma porta principal aberta. Aqui não tem freguês, a gente perde mercadoria. Então o prejuízo tem sido grande. Não sabemos nem o que está por vir”, desabafa.

Anexado no prédio provisório, o permissionário José Rubens de Araújo Falcão, de 81 anos, que trabalha com artesanatos, diz que preferiu ser realocado, pois considera o auxílio insuficiente. “Os mais carentes aceitaram os R$ 3 mil, mas eu, por exemplo, tenho dois jovens que trabalham comigoe têm os encargos sociais deles. Como posso receber apenas esse valor? Um funcionário custa mais de R$ 2 mil, fora as minhas despesas”, conta.

Também do setor de artesanatos, Patrícia Rocha, de 48 anos, questiona o tempo de conclusão das obras. “O previsto era um ano e meio, mas já vai fazer três anos de reforma. No mercado tem uma placa dizendo que tem 100 homens trabalhando, mas não vemos ninguém há três meses. Essa demora tem impactado muito nas vendas”, afirma.


Prazo para a conclusão das obras

A Prefeitura do Recife informa que, no momento, estão em andamento os serviços de recuperação das fachadas e da estrutura metálica do pavilhão norte, restauro e confecção de novas esquadrias de madeira, instalação das estruturas de fixação de calhas e ornamentos, recuperação dos ornamentos da fachada e execução da estrutura metálica do novo mezanino do pavilhão norte.

A previsão é que a entrega do equipamento ocorra junto com a comemoração de 152 anos do mercado, em setembro de 2027. Esse prazo já havia sido anunciado anteriormente.

A CONVIVA afirma que vem realizando ações para contribuir com a manutenção do fluxo de consumidores e dar visibilidade aos comerciantes durante o período de obras. Entre as iniciativas, a autarquia cita a divulgação do Anexo Provisório nos canais oficiais de comunicação, a instalação de sinalização informativa no entorno do Mercado de São José e ações de orientação ao público sobre o funcionamento temporário dos permissionários no novo endereço.

A autarquia comunica que o auxílio mensal continuará sendo pago aos comerciantes que optaram pelo recebimento financeiro até o término da reforma.

“A definição das alternativas ocorreu a partir de um processo contínuo de diálogo iniciado ainda na fase preparatória da obra, por meio da CONVIVA, da Associação dos Permissionários do Mercado de São José (AMSJ) e dos próprios comerciantes. Ao longo do processo, foram realizadas mais de 20 reuniões para apresentação das etapas da intervenção, esclarecimento de dúvidas e construção conjunta das medidas adotadas. A partir desse diálogo, cada permissionário pôde escolher a alternativa mais adequada às suas necessidades”, diz a CONVIVA.

História

A construção inspirada no Mercado de Grenelle, em Paris, foi erguida no centro de debates políticos, de orçamentos e alterações do projeto, cenário que mobilizou personalidades como o engenheiro francês Louis Léger Vauthier e o arrematante José Augusto de Araújo.

O projeto da edificação foi elaborado por encomenda da Câmara Municipal do Recife, atribuído a Victor Lenthier, engenheiro da casa, à época. O engenheiro francês Louis Léger Vauthier também foi contratado para ficar a cargo do detalhamento e acompanhar a execução das estruturas de metal na França.

A construção levou mais de dois anos, extrapolando o prazo estipulado por José Augusto de Araújo. Também houve aumento nos custos para adequar o edifício ao clima tropical-úmido do Recife, como portas e pé-direito altos para facilitar a circulação do vento.

O historiador Artur Garcea ressalta que o edifício se consolidou como um projeto de disciplinamento social, para padronizar pesos e medidas, controle sanitário e proibir vendas por ambulantes, que antes se estabeleciam no antigo Mercado da Ribeira.

“A Ribeira era um mercado onde tinha ‘negros de ganho’, ou seja, escravizados que viviam de diária, da venda dos seus serviços. Eles tinham bancas de madeira, como a gente vê hoje, mas a maioria era esteira no chão. Vendiam porco, galinha, farinha, carne seca, peixe”, conta o historiador, acrescentando que o texto normativo do equipamento buscava silenciar práticas populares, como gritos, aboios e matracas, além de impor uma estética de ordem e limpeza, correspondente ao ideário higienista da época.

Reformas e restaurações

Ao longo dos seus 151 anos, o Mercado de São José passou por várias reformas. A primeira aconteceu em 1906 e levou dez meses para a conclusão. Em 1941, ele foi submetido a reparos para a troca das venezianas de madeira e vidro por cobogós de cimento.

Mas foi em novembro de 1989 que o mercado passou por momento de maior tensão, tendo um dos seus dois pavilhões completamente destruído por um incêndio. As chamas atingiram cerca de 200 boxes. Embora, na época, existisse a suspeita de que as chamas tenham sido causadas por um curto-circuito em uma ligação clandestina de uma das barracas, o laudo feito pela Polícia Técnica não detalhou o que de fato aconteceu. Não houve registro de vítimas fatais.

Apesar das reformas e restaurações, Artur Garcea avalia que as maiores modificações estruturais do mercado foram realizadas ainda nos primeiros anos da construção. "Algumas coisas foram trocadas logo no início. O telhado que era de metal foi substituído por telhas de cerâmica, justamente por conta do calor. Os talhos, que hoje chamamos de boxes, passaram por modernização. Os produtos vendidos inicialmente eram apenas secos e molhados e, posteriormente, entrou a questão do artesanato”.

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