Estudante de medicina denuncia ataque racista após publicar foto de jaleco no Instagram
Nascido e criado na Comunidade do Cardoso, no Recife, João Lucas de Brito Freitas respondeu à mensagem por meio de uma publicação no Instagram
João Tavares - Especial para o Diario
Publicado: 05/09/2026 às 16:49
João Lucas denunciou o comentário racista recebido após publicar sua primeira foto usando jaleco nas redes sociais (Instagram @joaolucasphd/Reprodução)
O estudante de medicina João Lucas de Brito Freitas, de 24 anos, denunciou um comentário de cunho racista recebido em uma publicação no Instagram. A mensagem foi deixada em uma foto onde o jovem aparece usando jaleco, publicada no início desta semana.
“Saudades de quando favelado não entrava em med… bons tempos”, escreveu o autor do comentário.
João Lucas tornou o caso público na quinta-feira (3) e respondeu à mensagem por meio de uma sequência de publicações na rede social. Nascido e criado na Comunidade do Cardoso, na Zona Oeste do Recife, o estudante utilizou o termo empregado no ataque para reafirmar sua origem e apresentar parte de sua trajetória.
Estudante respondeu ao comentário nas redes sociais
“Sou favelado, sim, e entrei no doutorado com 23 anos, ainda na graduação”, escreveu João Lucas.
Na publicação, ele também contou que foi medalhista na Olimpíada Nacional em História do Brasil aos 17 anos e que ficou entre os mil melhores universitários do país.
Apesar de destacar as próprias conquistas, o estudante afirmou que nenhuma delas deveria ser necessária para justificar sua presença na universidade. “Mas nenhuma dessas conquistas é o motivo pelo qual aquele comentário está errado. Eu não precisei ter feito nada disso para merecer estar aqui”, declarou.
João Lucas também informou que sua trajetória o levou “muito além de onde disseram que iria”. O estudante está finalizando a graduação em medicina e deve se tornar o primeiro médico da família.
Origem influencia sua visão sobre a medicina
Ao responder ao comentário, João Lucas relacionou sua origem à forma como enxerga o exercício da medicina e o cuidado com pessoas que, muitas vezes, não recebem a atenção necessária.
“Talvez ser um médico 'favelado' tenha me ensinado a enxergar o cuidado de um lugar diferente. Não de cima, do lado. Do lado de quem, muitas vezes, espera apenas ser minimamente visto”, afirmou.
O estudante encerrou a publicação com um questionamento sobre a reação provocada pela presença de moradores de comunidades em espaços historicamente pouco acessíveis a essa parcela da população.
“Mas por que um médico favelado incomoda tanto?”, questionou.
Após identificar o responsável pelo comentário, João Lucas registrou um boletim de ocorrência na sexta-feira (4).
Polícia Civil inicia investigação
Em nota, a Polícia Civil de Pernambuco informou que a ocorrência foi registrada no dia 4 de setembro, por meio da Delegacia pela Internet, como injúria praticada no ambiente virtual contra um homem de 23 anos.
“As diligências já foram iniciadas para apurar todos os fatos”, informou a corporação.