"Não podia sentar por 10 minutos": ex-funcionária da Drogasil detalha rotina de restrições
Diario de Pernambuco conversou com ex-funcionária da Rede Drogasil, que é alvo de ação do MPT-PE por impedir trabalhadores de se sentarem durante o expediente
Publicado: 23/08/2026 às 14:54
Rede de farmácias é alvo do MPT-PE (Foto: Acervo DP)
"Não podia sentar por 10 minutos para descansar". É assim que a farmacêutica Vitória Gomes, de 24 anos, relembra a experiência de trabalhar três anos em uma unidade da Rede Drogasil no Grande Recife. Ela conta que esse tipo de restrição era comum aos funcionários.
Em entrevista ao Diario de Pernambuco, a jovem, que contou ter trabalhado entre 2021 e 2024 em uma Drogasil situada em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, detalhou a rotina de trabalho dos funcionários.
Contratada como atendente 1, em tese com a função de operadora de caixa, Vitória relata que, na prática, realizava inclusive entregas a pé na região e que o uso dos assentos da loja era veladamente proibido.
Segundo a jovem, ela chegava a fazer até quatro entregas por dia na região, sem receber adequadamente para isso. “Era debaixo do sol quente. E se esquecesse a receita, tinha que ir buscar na casa do cliente. Se eu demorasse, perguntavam se eu estava na praia passeando”, comenta.
Mesmo com o esforço físico, ela comenta que ouvia dos supervisores e gerentes comentários de constrangimento caso se sentasse.
"Eu já sofri muito com isso. Não podia sentar, ficava com as pernas extremamente doloridas e sempre escutava piadas quando tentava usar a cadeira. No dia em que fiquei doente e fui trabalhar da mesma forma, mandaram eu me levantar, pois ‘ali não era praça’”.
A cobrança para que os trabalhadores permanecessem em pé não poupava nem mesmo funcionários em situações de vulnerabilidade física.
"Já vi uma gestante ser impedida de se sentar. É um absurdo total. Você se chateia, entrega o seu melhor para a empresa e não pode sentar por 10 minutos para descansar", afirmou.
Ela revela ter recebido uma advertência por estar trabalhando sentada pouco antes de deixar a rede.
“Tem até uma expressão comumente dita por eles: ‘Se quiser ser demitido, atenda sentado'.” E foi o que aconteceu comigo”, alega. Ela acrescenta que processou a rede e que se desvincular da empresa foi “a melhor coisa”.
MPT-PE
O relato de Vitória ilustra a situação investigada pelo Ministério Público do Trabalho em Pernambuco (MPT-PE) envolvendo a Rede Drogasil. De acordo com o órgão, os funcionários das unidades do estado eram impedidos de se sentarem.
Ao Diario, o Sindicato dos Farmacêuticos no Estado de Pernambuco (Sinfarpe) afirmou que estima que cerca de 600 funcionários eram submetidos a essa situação.
Segundo o Sinfarpe, as denúncias sobre essa prática vêm sendo recebidas há cerca de quatro anos e as ordens para proibir o uso das cadeiras eram repassadas de forma verbal pelos gestores.
O sindicato diz que chegou a tentar ajuizar uma ação civil pública no passado, mas a medida não avançou pelo medo dos trabalhadores de sofrerem retaliações ou demissões.
Ação
A ação civil pública ajuizada pelo MPT-PE tramita na Justiça do Trabalho do Recife e pede R$ 2 milhões em indenização por danos morais coletivos contra a Raia Drogasil. O órgão apurou que os assentos ficavam disponíveis nos balcões apenas para simular o cumprimento de normas fiscais, enquanto as atividades eram realizadas o tempo todo em pé.
Em caráter de urgência, o MPT-PE exige que a empresa cumpra a Norma Regulamentadora nº 17 (NR-17), garantindo cadeiras com encosto nos caixas e balcões, além de pausas obrigatórias para descanso e alternância de posturas.
Em caso de descumprimento das determinações, a rede poderá pagar, além da indenização, uma multa de R$ 20 mil por obrigação violada, acrescida de R$ 2 mil por trabalhador prejudicado.
O valor será destinado ao Fundo de Defesa dos Direitos Difusos (FDD), ao Fundo de Amparo do Trabalhador (FAT), ao Fundo Estadual do Trabalho (FET/PE) ou a outra destinação social indicada pelo MPT.
O que diz a Raia Drogasil S.A.
Por meio de nota, a Drogasil informou que não foi citada nesta ação pela Justiça do Trabalho de Pernambuco. Quando a citação ocorrer, a rede farmacêutica afirma que avaliará os argumentos do MPT e prestará todos os esclarecimentos necessários nos autos do processo.